Sexta-feira cinzenta, triste e chorosa no Rio de Janeiro, em que enquanto é velado, no Hospital Samaritano, o corpo do já saudoso médico Aderbal Maia, outro grupo, mais reduzido, de pessoas de expressão da cidade vela, na Capela 1 do Cemitério São João Batista, o falecido ontem à noitinha, ex-secretário da Receita Federal, Adilson Gomes de Oliveira.
Viúvo há pouco mais de três meses de sua amada Regina, Adilson não suportou a saudade. Vítima de um AVC em julho passado, Adilson não falava, não conseguia escrever, mas lia avidamente e marcava, nos livros, as frases que expressavam seu sentimento. Regina era aquela sua companheirona amorosa em dedicação integral. Ele não aguentou o peso da ausência, apesar do conforto da dedicação total da filha, Aninha, que se empenhou em substituir a mãe em cada detalhe de seus cuidados, uma graça, um exemplo de filha querida.
Ontem, pouco mais de seis da tarde, Adilson debruçou-se na sacada de sua cobertura sobre a Rua Visconde de Pirajá e. apenas com o peso de seu corpo e um impulso forte. partiu voando em direção àquela com quem deve agora estar. A mulher de sua vida.
Acredito que não foi só a ausência de Regina que inspirou a Adilson esse voo fatal. Também deve ter contado a forma massacrante com que se cumpriu sobre eles o vaticínio de que, depois da bonança vem a tempestade…
Nos anos 70 e 80, Adilson e Regina viveram um turbilhão de felicidades, festas, glórias, convites, aclamações, solicitações (que eles sempre se empenhavam em atender, pois eram extremamente generosos), rapapés, cercados por um grupo divertido de amigos, muitos leais outros nem tanto.
Adilson, homem poderoso do Ministério da Fazenda. Regina, filha do professor Aloysio Salles, a maior estrela da medicina nacional, na área da clínica médica, tendo no seu currículo o título de “o médico dos presidentes da República”. E isso desde JK. Era também o médico dos mineiros, a família Magalhães Pinto inteira, por exemplo, numa época em que havia o Banco Nacional e Minas Gerais ainda usufruia do ranço do prestígio de ter mandado no Brasil.
Aloysio Salles dirigia o Hospital dos Servidores do Estado RJ, que era o hospital de excelência da América do Sul (acredite quem quiser!). Aloysio Salles presidiu várias vezes a Academia Nacional de Medicina. Era um gênio do diagnóstico. E era mesmo.
Eram três poderes que se somavam: a glória profissional do dr. Aloysio; a influência dos Gomes de Oliveira no Ministério da Fazenda e o charme + simpatia + temperamento aberto e generoso dos casais Dalila & Aloysio, Regina & Adilson. Tudo era bonança.
Com a doença de Adilson, Regina, mal orientada, pediu a tutela do marido. Com isso, a pensão foi suspensa desde julho passado e até hoje não voltou a ser paga, graças à interminável burocracia da gestão pública. E eles se viram sem dinheiro, nenhum tostão, sem condições de arcar com os custos altos das consultas médicas, de todo o tratamento de Adilson.
Regina precisou entregar todas as joias à leiloeira Dag Saboya para pagar as despesas com o AVC do marido. E já falava em vender o apartamento, de propriedade dela, para continuar a manter Adilson bem cuidado.
Viviam com a pensão de Regina, também funcionária aposentada do Ministério da Fazenda, e que em dezembro passado morreu, vítima de uma pancreatite, enfrentando problemas financeiros sérios para ter um atendimento médico digno – que ironia!
Adilson, decepcionado diante de todo esse quadro: a saudade de Regina; a pensão ainda não paga, mesmo depois da morte de sua mulher; infeliz com o pouco caso do Ministério da Fazenda, onde hoje ninguém sabe quem ele foi, que cargos teve (nem conhecem, é outra geração); entristecido com a ausência dos supostos amigos…
Dos amigos alegres, encantados, sorridentes, das noites de dança, cantoria e violão, pois Adilson adorava um samba de qualidade, pouquíssimos restaram. José Rodolfo e Lúcia Câmara, entre eles.
O enterro será às 14 horas.
Regina e Adilson: unidos para sempre