Quando o sabiá não canta. Chora.

Foi forte. Foi emocionante. Foi necessário.

O programa Estação Sabiá, de Regina Zappa, na TV 247, fez Chico Buarque chorar. Não por motivo sentimental, não pelas memórias sufocadas, mas pelo prenúncio dos momentos terríveis, horrorosos, que estão sendo preparados para o Brasil por Jair Bolsonaro, o presidente das 500 mil mortes.

Esse horror tem nome: Ditadura. Quem viveu, como nós, sabe.

A Família Angel Jones

Em 05 de junho de 2021

Por Hildegard Angel

Norman Angel Jones com os filhos, Ana Cristina (2 anos), Hildegard Beatriz (1 ano) e Stuart Edgar (5 anos), no quintal de casa.

Hoje é o centenário de minha mãe, Zuzu Angel, que alinhavou, costurou e vestiu com seus carinhos essa família linda. Meu pai, Norman, meus irmãos, Stuart e Ana Cristina, e eu, caçula, no balanço. Ainda voltaremos a viver juntos e felizes novamente pela eternidade. Meus pais se separaram com 20 anos de casados. Meu irmão foi arrancado de nós pela ditadura. Minha irmã deixou o Brasil aos 20 anos. Mas em nossas memórias, dela e minha, prevalece este momento da foto, que nessa semana de tantas lembranças ela me enviou.
#zuzu100anos

100 Anos de Mamãe Grande. Gigante

Foto Antônio Guerreiro (Acervo Instituto Zuzu Angel)
Texto publicado em 05 de junho de 1921, data do centenário, em meus perfis no Instagram e no Twitter (#FioZuzu100Anos)
Amanhã serão 100 anos de nascimento de Zuzu Angel nossa mãe. De Stuart, Ana Cristina e minha. Levou sua maternidade até a última consequência. Até ser morta pelo Estado brasileiro. Talvez o assassinato político mais investigado de nossa História, alvo do escrutínio de três comissões federais, a dos Desaparecidos Políticos, a dos Direitos Humanos e a da Verdade. Com perícias, depoimentos, até de um delegado do Dops, que tudo revelou e confirmou, e de testemunhas oculares do desastre provocado na saída de um túnel, que hoje tem seu nome. Zuzu, mãe Coragem, brasileira patriota.
Zuzu Angel significou o ponto fora da curva na moda em nosso país, o ponto da consciência e da virada. Pois foi a primeira a denunciar a colonização mental e cultural de nossos criadores de moda, até mesmo os mais talentosos, que condicionavam suas criações aos padrões importados, fossem de estilo, técnica, cor e até de altura da bainha.
Zuzu foi um norte, uma bússola. Apontou o despropósito de os artistas da moda brasileiros, nesse país inspirador, solar, colorido, intenso em sua História, suas alegrias e dores, festas populares, heróis, mitos, flores, pássaros, matas, minérios, irem buscar inspiração, beleza e regras no Velho Continente cansado de guerra.
Zuzu rompeu com essa ‘prisão cultural’ e voou com os pássaros, se lambuzou com as mangas carlotinha, admirou matas, cheirou flores, ampliou limites e até ousou denunciar opressão, torturas, política assassina do Estado brasileiro na Ditadura Militar, com seus vestidos pueris, singelos, cheirando a quintal varrido das cidades do interior, com suas rendas coloridas balançando no varal, com suas toalhas de mesa de renda do Norte vestindo noivas, com suas contas de jacarandá, os bambus e as conchas bordando vestidos.
Enfim, Zuzu foi o Brasil, que era omitido em nossa moda, como se ela se envergonhasse dele, e só vestisse “tailleurs”, “drapées”, “pied de poule”, e outros termos franceses, ao invés de babado sim, babado não, bordado também, franzidos e fuxicos.
Zuzu foi mineiramente inteira no que produziu, e deixou o legado da elegante legitimidade, da franqueza pueril, da moda com sotaque da nossa História.
Deixou o ensinamento de que só se recupera uma Democracia comprometida à força de muita resistência.

*FUDIDOS DE VERDE E AMARELO

 

Hildegard Angel

Vendo o Brasil seguir escoando pelo bueiro. Vai, Brasil, diluído em sangue, água suja, chorume e vômitos dos doentes. Sentada no meio fio da História, acompanho com os olhos e um nó no peito o caminho célere da Nação, dissolvida em óleo de cloroquina, até o ralo dos infernos. Segue, altiva, e por vontade própria.

O Brasil se encaminha de peito inflado e cabeça erguida na direção do cadafalso. Hipnotizado por inverdades, abduzido pelas falsas versões, lá vai ele, em inocente ignorância, com o pescoço já azeitado para facilitar a lâmina da guilhotina. Vai de verde e amarelo, dançando funk no tik tok, alegre, risonho, espalhafatoso, como é de sua ingênua natureza, bradando hinos e palavras de ordem. “Fora STF”, “Fora Congresso”, “Pela intervenção militar”, “Queremos nosso Brasil de volta”.

Não bastou o Mensalão encarcerar os sobreviventes combativos de 68. Não bastou o golpe interromper o mandato da presidenta honesta. Não bastou a Lava Jato destruir nossa indústria da construção, a indústria naval, nosso projeto nuclear, nossa indústria de óleo e gás. Não bastou a prisão ilegal de Lula. Não bastou a retirada dos direitos do trabalhador brasileiro. Não bastou o massacre de nossas pensões e aposentadorias. Não bastou o rolo compressor no ensino básico. Não bastou a precarização máxima das universidades públicas. Não bastou o corte de nossos programas de bolsas de estudo e incentivo à Ciência. Não bastou a satanização da Cultura, através do falseamento da Lei Rouanet. Não bastou o projeto de destruição do SUS, a redução drástica dos leitos, os cortes de verbas.

Não adiantou a devastação recorde de nossas florestas, a liberação de invasões pelos grileiros do grande capital, o assassinato dos indígenas pelos bandidos do garimpo. Não bastou o desmonte dos órgãos de controle de tudo. Não bastou a liberação de armamento pesado para bandidos e milicianos. Não bastou o aparelhamento da AGU, da PGR, da Polícia Federal, da Receita Federal, do Judiciário. Não bastaram os três bilhões para o Centrão. Não bastou a venda fatiada da Petrobrás. Não bastou a entrega de nossos aquíferos ao projeto da privatização.

Não bastou o sufocamento dos programas sociais. Não bastou a volta dos pratos vazios, a epidemia da fome. Não bastaram as latas de lixo revirando restos, os esquálidos de mãos estendidas nas calçadas, crianças chorando nas ruas porque têm fome. Não bastou faltar leitos nos hospitais para os doentes e covas nos cemitérios para os mortos. Não bastou meio milhão de brasileiros exterminados pelo descaso, a inépcia, o projeto de morte de um genocida, que se compraz com o sangue derramado, pois sua especialidade – declarou –  “é matar”.

Agora, a horda ensandecida, que capturou nossa Bandeira, quer uma ditadura, grita por ela, implora, discursa. Quer a repressão dos diferentes. Quer o pensamento enclausurado, bocas caladas, línguas arrancadas.

E já nos furam os olhos à bala. Já nos prendem por nos manifestarmos. Já exigem o porte de documentos. Já nos incriminam se estamos em grupo. Já censuram a mídia independente através de ações judiciais, com sentenças espúrias e multas, que ninguém pode pagar. Jornalistas oprimidos já se reúnem em vaquinhas solidárias, para poder continuar a falar, a denunciar, a ser.

E continuam a achar pouco.

*Considerem a palavra chula grafada ‘no popular’ uma licença poética de quem cresceu e viveu evitando dizer e escrever palavrões, mas meu copo, até aqui de mágoa, apreensão, tristeza,  transbordou.

Partiu Mirtia Gallotti, com sua risada musical

Hildegard Angel

Mirtia Gallotti era sistemática. Como sempre fazia, depois de acordar e tomar o café foi tomar seu banho matinal e lavar a cabeça. Às 11,30 horas foi encontrada morta no chuveiro. Mirtia era muito cuidadosa consigo mesma, sua saúde. Ela tinha pressão convergente, quando a pressão máxima se encontra com a mínima, o que é sempre um grande risco, e tomava regularmente seus remédios para a pressão. Já tem algum tempo, Mirtia se tornou medrosa, não saía mais à noite, não dirigia mais automóvel. E estava muito impressionada com a pandemia.

O programa social obrigatório e preferido de Mirtia Gallotti eram os cineminhas de sábado em casa dos amigos João Maurício e Maria Alice Araújo Pinho, com quem Mirtia conversava todos os dias ao telefone, e era What’sApp toda hora. Nossos últimos encontros sociais foram no cineminha dos Araújo Pinho e em jantares em minha casa.

Desde que enviuvou de Antonio Gallotti, Mirtia nunca mais se casou. Ou melhor, nunca mais quis se casar. Candidatos não faltaram. Como o banqueiro Jorge Piano que, quando enviuvou, tentou lhe fazer a corte, mas ela não o estimulou. Ela sempre foi muito seletiva. Muito religiosa, ia à missa de São Paulo Apóstolo regularmente. Em Paris, não abria mão das missas na Rue du Bac. E não posso esquecer seu carinho, sempre nos trazendo de lá um vidrinho de água benta. Era muito bonita. A imagem mais bela que guardo de Mirtia é correndo à beira mar, em Miami Beach, toda cinza, training e camiseta, com o rabo de cavalo louro cinza embalado pelo vento. Cinematográfica.

A outra imagem que guardo de Mirtia foi de quando a conheci, como Mirtia Kegler, levada por Tony Gallotti a um jantar em casa da grande amiga dele, Consuelo Pereira de Almeida, que veio a se tornar também grande amiga dela. Gallotti era um dos mais poderosos empresários brasileiros, carreira iniciada como advogado da empresa canadense Brazilian Traction, Light and Power Company,  responsável pela geração e a distribuição da energia elétrica em Rioe São Paulo e também controlava os serviços de gás, telefone e bondes no Rio e em São Paulo, bem como todos os serviços de utilidade pública em Santos. Possuía, além disso, diversas subsidiárias para a instalação de serviços de luz, força, telefone e gás nas principais cidades do país. De advogado a representante do grupo no Brasil, e depois presidente da Light, e chefe executivo do Grupo Brascan Brasil, Administração e Investimentos, organização cujos investimentos eram estimados em dois bilhões de dólares.

A Mirtia Kegler era completamente diferente da quase sóbria e contida Mirtia Gallotti. Iluminada, esfuziante, risada rouca e musical, ela encantou naquela noite em que Gallotti a introduziu em seu círculo de amigos. Estavam também presentes, além de nós, Roberto e Yara Andrade, Roberto e Stella Campos. O que deu margem a uma mesa de anedotas impagáveis, com Tony e os Robertos brilhando com seus repertórios de piadas, que sabiam muito bem contar.

Antonio Gallotti voltava à plenitude de sua exuberância, depois da conturbada separação de Miriam Atalla, sua segunda mulher. A primeira chamava-se Minda (Arminda). Iguais no prenome, totalmente diferentes nas personalidades.

Mirtia tinha dois grandes amores. O filho, advogado Luciano Saldanha, casado com a jornalista Maria Beltrão, e a neta, Ana Beatriz, do primeiro casamento de Luciano. Hoje, Maria Beltrão não apresentou o Estúdio I, e com fortes motivos para isso. De certo, o jornalismo estava sempre presente na vida de Mirtia, cujo primeiro marido, Saldanha Coelho, foi um importante jornalista político brasileiro, vereador, deputado, sempre ligado ao PTB.

Não haverá velório nem enterro, devido à pandemia. Repousa em paz, querida Mirtia.

Mirtia Gallotti e Maria Alice de Araujo Pinho, grandes amigas

Mirtia Gallotti convidava, e estava em dia de astral particularmente ótimo: aquele sorrisão.

A capricorniana Mirtia

A cura (das obras públicas) está no melhor preço

Francis Bogossian*

Houve um tempo no Brasil em que as obras eram executadas com acompanhamento técnico.

Isso foi lá pelos idos dos anos 60, quando entrei no mercado da engenharia, e ainda se
estudava e se realizava projeto executivo. Nas últimas décadas, essa prática foi caindo em desuso e se passou a licitar com menos estudos, sem projeto executivo, algumas vezes até sem projeto básico e muitas vezes sem anteprojeto.

Cabe lembrar que, até os anos 80, a boa oferta do mercado e os preços realistas permitiam que os executores das obras empreendessem estudos complementares, revisassem os projetos apresentados às licitações e acompanhassem passo a passo sua execução, num verdadeiro ‘pente fino’ para eliminar eventuais deficiências dos projetos licitados.

O cenário seguinte, aquele em que atualmente estamos, com as oportunidades reduzidas e as condições econômicas desfavoráveis, é o das licitações com carência cada vez maior de dados, em que as únicas alternativas que se apresentam são ganhar os serviços com preços incertos ou declinar deles. A segunda hipótese significa ter que demitir os técnicos, desmobilizando equipes constituídas com grande esforço.

Mas não só os aspectos técnicos são determinantes em uma obra de engenharia, a questão econômica também prepondera na escolha da melhor solução.
Numa realidade em que a escassez de recursos acontece em âmbitos federal, estadual e municipal, a aplicação correta das verbas disponíveis deveria ser objetivo primordial e constante dos órgãos públicos, o que não ocorre.

É baixo o custo de uma solução que deixe a desejar tecnicamente. Porém, adotá-la não compensa os altos riscos econômicos, sociais e humanos que podem dela advir. Por isso, a necessidade de uma avaliação criteriosa dos projetistas e dos contratantes – em grande parte o poder público – já que a abrangência do colapso de uma obra é infinitamente superior a qualquer custo material.

Sim, a busca pela solução de menor custo deve sempre ser a meta do projetista, mas tendo como base os aspectos técnicos e de segurança. Este sempre foi um princípio básico da engenharia. Para definir uma solução de melhor relação custo e benefício, na fase de pré-projeto, são fundamentais a engenharia geotécnica e a geologia. E o que vemos muitas vezes acontecer?

Para compensar a falta de dados geotécnicos, que envolvem principalmente razões
econômicas e às vezes prejuízos do cronograma, os projetistas costumam recorrer ao
superdimensionamento das obras. Muito mais adequado do que isso seria a utilização de novas tecnologias. E este é o grande desafio que lanço aqui às universidades, com apoio das empresas de engenharia: que incentivem as pesquisas, única forma de se adquirir conhecimentos e utilizar experiências práticas para chegar a soluções inovadoras e de menor custo. O Brasil tem uma grande tradição de soluções inovadoras, e esse talento é um ativo nacional que deve ser estimulado e explorado.

Na Academia Nacional de Engenharia, que tenho a honra de presidir, estamos priorizando três diretrizes, em nossos comitês de Inovação e de Ensino:

  • Atualizar o currículo do ensino de Engenharia, abraçando a Inovação, unindo, tanto quem ensina quanto quem emprega o engenheiro;
  • Instar junto aos ministérios de Ciência, Tecnologia e Inovação, Educação e
    Infraestrutura, visando agilizar e acelerar posturas urgentes de inovação tecnológica no setor da Engenharia, o qual atua na medicina (equipamentos), na construção, na manutenção, na indústria, na segurança etc.;
  • Instar junto ao poder público na luta pelo melhor preço, que propicia, ao próprio
    empresário, condições financeiras para inovar nos serviços e obras que executa.

Como último fator relevante para a excelência das obras, é de se destacar um
acompanhamento diligente pós-construção. Via de regra, as obras são duplamente esquecidas após sua inauguração; pelo construtor, que não é contratado para isso, e pelo contratante, que teria a obrigação de zelar por elas.

Mas o consumidor não se esquece de estar sendo preterido, na ausência dessa obrigatória manutenção. O Sistema de Gestão da Qualidade ISO-9001:2005 preconiza que todas as obras sejam entregues ao proprietário com um Manual do Usuário. É este o instrumento definidor de responsabilidades para que as obras sejam acompanhadas sem haver seu  sucateamento. O documento fala na importância da qualidade para evitar o retrabalho, e na gestão de resíduos para garantir a proteção ambiental. Isso tem obrigado muitas empresas a investirem os próprios recursos em consultorias de gestão, segurança, responsabilidade, saúde ocupacional, para estar aptas a licitar para contratantes como o Sistema Petrobras, por exemplo.

A inversão de responsabilidades vai ao ponto de empresas de engenharia oferecerem abatimento nos preços do custo básico de seus projetos, para ganhar obras públicas. E vão sobrevivendo à base de empréstimos e rolagem da dívida. É um círculo vicioso que precisa ser interrompido. Pois o vício corrói, não só o bolso dos construtores como a qualidade do que é contratado.

As alegações dos contratantes de que a maioria das obras ocorre dentro de padrões
satisfatórios de desempenho, qualidade e prazos não nos impedem de questionar: Como fica a responsabilidade social de governos e empresas com obras apenas satisfatórias, cumprindo o mínimo das exigências legais? E a sociedade, como fica no atendimento de sua satisfação? Não nos cabe perguntar como fica a engenharia brasileira, diante de obras apenas satisfatórias, com equipamentos sucateados, canibalizados e superados pela falta de recursos ante os preços de custo praticados, e até mesmo de bem abaixo do custo. Não colocamos a pergunta por que, lamentavelmente, sabemos a resposta.

Um nascimento para ser saudável exige atenção contínua, exames de pré-natal e um parto bem feito. Uma obra de construção bem sucedida necessita acompanhamento diligente desde a concepção, diagnósticos precisos, testes e controle de riscos. Os Estudos e Projetos na engenharia são como os cuidados indispensáveis a um paciente na medicina, que devem ser preventivos e até o fim da vida. Tal qual a saúde dos Homens, a saúde das obras precisa ser constantemente monitorada e cuidada durante toda a sua vida útil.

Por maiores a pressa e/ou razões políticas, as obras públicas jamais devem ser iniciadas sem projetos executivos. Não se justifica o que vemos acontecer pelo país afora: uma pandemia de obras públicas contaminadas pela ausência de projetos executivos e estudos prévios.

A cura contra esse mal é o melhor preço, aquele que propicia qualidade e segurança.

O chamado “menor preço” costuma ter um custo alto para o Estado e para as nossas vidas. É como a panaceia da cloroquina, cujo único resultado constatado é a satisfação do imediatismo de vendedores e políticos.

*Francis Bogossian preside a
Academia Nacional de Engenharia,
tendo sido Presidente do Clube de
Engenharia (2009/15), do CREA-RJ
(março a outubro de 2020) e
Professor da UFRJ e da UVA

O episódio Greenwald-Biden-The Intercept ou quando o jornalismo se assume partidário

Hildegard Angel

Não podemos ignorar que Glenn Greenwald já tinha Joe Biden atravessado na garganta desde sua perseguição a Edward Snowden. Não é de surpreender que o jornalista, nesse momento crucial para Biden, tenha aproveitado a oportunidade para lhe dar “o troco”. Esse é o aspecto das fraquezas humanas, que envolve o episódio Greenwald-Biden-The Intercept. O que não invalida o aspecto ético profissional da atitude de Glenn, ao romper com The Intercept ante a quebra da cláusula de um contrato, que lhe garantia total liberdade para seus textos e colocações. Não se trata de uma questão de “edição”, mas de “censura”, sejamos sinceros sobre isso.

E não é de estranhar que os trumpistas se aproveitem do calcanhar de Aquiles do oponente – e que calcanhar! – com a Fox News abrindo estúdio, câmeras e microfones para Greenwald expor a Tucker Carlson as suas razões. A Fox está jogando seu jogo aberto de sempre. O peão estranho nesse tabuleiro é Glenn, que não viu problema em ir falar no “campo inimigo”. Assim como a imprensa de esquerda, tradicionalmente combativa, muda de postura e recolhe as garras, como um cão domesticado e sem faro, passando ao largo dos e-mails nos três laptops de Hunter Biden deixados para conserto numa oficina em Delaware.

Nessa reta final de campanha, qualquer descuido pode significar catástrofe tão grande quanto foi o vazamento dos “e-mails hackeados”, que pode ter custado a Hillary Clinton sua eleição em 2016. O que também expôs a conspiração contra Bernie Sanders pelo Democratic National Committee – DNC, desfazendo ilusões (se havia) de que nessa contenda existam éticos e bonzinhos.

Sim, os vazamentos dos e-mails de Hillary eram de interesse público e deveriam ter sido publicados de qualquer maneira. A política é uma disputa permanente entre a corrupção e a transparência. Ganha a democracia, quando a transparência é vencedora. A imprensa está agora confrontada com o mesmo impasse. Por mais que possa prejudicar Biden, o artigo de Glenn Greenwald também é de interesse público, e esse fato precisa ser esclarecido. Deixar a tampa sobre o lixo nem sempre evita o mau cheiro.

O The Intercept sabe disso, e não costuma se acanhar diante de fatos controversos. Seu acanhamento é que é o fato novo.

A liberdade jornalística está posta em questão, quando um site como o The Intercept, considerado um baluarte da liberdade de opinião, trai as próprias convicções ou – vamos ser mais realistas – trai a imagem da própria marca.

O Intercept não é imparcial, Glenn também não é. No atual quadro, ninguém parece ser. Ao rasgar a fantasia de imparcialidade partidária, assumindo um lado, os órgãos da mídia, ao mesmo tempo em que se tornam mais transparentes, decretam o fim do jornalismo ideal, sem preconceitos, no qual, mesmo se dele houvesse apenas o verniz, muitos ainda acreditavam.

Glenn Greenwald, o marido , David Miranda, e os filhos

VISÃO DO INFERNO

Pintura de Portinari

Hildegard Angel
O fogo nos consome. Queimam os sabiás, as palmeiras de Bilac, as onças do Pantanal, a maçaranduba, o cedro, os jatobás de nossa Floresta Amazônica. O hospital público deficitário arde em chamas e respira por aparelhos, num esforço desesperado para, mesmo sem fôlego, salvar nossas vidas secas. O incêndio não é desastre, é projeto. A Pátria é o butim que eles golpeiam, esquartejam, repartem.
Como hienas famintas, se atiram sobre nossas carnes. Um quer o Banco Central pra dividir com seus cupinchas. Outro quer dar o sistema de saúde pros comerciantes da dor, nem que para isso se redija nova Constituição. O senador pleiteia o aquífero pra sua multinacional vender em garrafas plásticas. O Pré-sal já se foi, junto com nossas esperanças equilibristas…
Enquanto isso, o “imperador piromaníaco”, assim tão bem definido por seu ex-porta voz, toca sua harpa em desafino com a vida, e “o coral dos puxa-sacos cada vez aumenta mais”.
Quando partirem, nos deixarão a carcaça atirada na caatinga, como no quadro de Portinari. E nós, brasileiros, condenados a sermos eternos retirantes, passeando nossa desgraça ante os olhos distantes de robustos espectadores estrangeiros, que assistem pela TV ao holocausto do Terceiro Mundo, como seriado da Netflix.

Consternação na elite carioca, com a morte do armador Fragoso Pires, dois meses após seu filho, Rafael, ambos pela Covid-19

José Carlos Fragoso Pires, entre o neto e o filho, ambos José Carlos, e ao lado do consogro Milton Lódi, todos turfistas
Minha homenagem a José Carlos Fragoso Pires, aqui com seu neto, José Carlos, e seu filho, José Carlos. Três gerações de Fragoso Pires apaixonados pelo turfe. Hoje nos deixou o José Carlos avô, dois meses após a partida de seu filho, Rafael. Ambos infectados com a Covid-19, ambos com doenças pre-existentes. Foram dos primeiros a serem contaminados no RJ, por ocasião do almoço de noivado da filha de Rafael e neta de José Carlos, Alessandra, em casa dos pais do noivo, Maritza e Alberto de Orleans e Bragança. Na época, falou-se em 40 contaminados no evento, logo nos primeiros dias de março. Nossa saudosa Mirna Bandeira de Mello também contraiu o coronavírus naquele almoço. Um trauma forte para a sociedade carioca, e sobretudo para os noivos, que adiaram o casamento para ano que vem.
Rafael Fragoso Pires e esposa, Márcia Muller, cuja união foi notícia aqui neste blog há 10 anos. 
Ao lado de Ângela, José Carlos era o “castelão” da famosa cobertura triplex, onde moraram Gilda e Carlos Guinle, pais de Jorginho, no prédio construído por eles na praia do Flamengo, e que agora viralizou na internet, em linda reportagem sobre o imóvel deslumbrante, posto à venda. Fragoso Pires foi um grande armador e um notável presidente do Jockey Club Brasileiro. Era um prazer conversar com ele, que gostava de falar sobre cultura, tradições, história do Rio de Janeiro e de sua sociedade. Discreto e elegante. Formou com Ângela um casal representativo, não só no aspecto social, como também na benemerência e nos eventos culturais. Significou uma época de um Estado do Rio de Janeiro empreendedor, ambicioso e alçando altos voos, com sua vida social fervilhando com industriais, banqueiros e políticos. Um Rio com força, poder e beleza. Fragoso Pires viveu como um grand seigneur, em seu palácio suspenso sobre a vista mais linda do mundo: a da Baía da Guanabara. Só posso dizer que o Céu, com José Carlos e Rafael, está muito mais elegante.
O armador José Carlos Fragoso Pires e Angela