AS LUZES DA RIBALTA SE APAGAM: MORREU BIBI FERREIRA!

Uma Elisa Doolittle fantástica, em My Fair Lady; Joana, em Gota D’Água; Dulcinéia, em Don Quixote. Atriz e diretora de incontáveis sucessos, simbolizava a tradição do melhor teatro, dedicação plena, rigor total. Brilhou no Teatro, no cinema, na TV, e sempre liderando audiências. Engajada politicamente. Profissional plena, mulher plena, referência sempre. Bibi!

Bibi em Gota d’Água

Morreu ontem a estrela de todas as épocas e todos os gêneros, a intérprete com tradição, patrimônio do Teatro Brasileiro, Bibi Ferreira. Acompanhada de enfermeiros, ela despertou às 13h50m, reclamando de falta de ar. Deu um suspiro e foi se encontrar com Dioniso, o deus grego do teatro.

Eu tinha por Bibi uma devoção que só se costuma ter pelos santos. Eu a achava uma divindade extraterrena, uma aparição iluminada, um toque de Deus sobre a Terra. Seu talento extrapolava definições, classificações, elogios e comparações. Era sem limites. Certa vez, em Ouro Preto, houve uma apresentação de Bibi, nos festejos de inauguração do museu de Angela Gutierrez. Foi montado um grande palco ao ar livre, e eu tive a sorte de um lugar na primeira fila. Ela apresentava “Piaf”, espetáculo que eu já havia assistido incontáveis vezes. Mas, naquela noite, Bibi superava a própria Bibi. Ao fim da apresentação, ajoelhei-me diante dela, que havia nos brindado com momentos para sempre.

Bibi Ferreira era generosa. Éramos amigas. Quando me casei, ela me deu um abridor de luvas, peça antiga. Eu, que nunca havia visto um abridor de luvas, achei que devia ser alguma coisa como um quebra-nozes, e o guardei no armário dos faqueiros. Lá ficou a peça durante anos, até que, recentemente, procurando determinada colher, encontrei o estojo com – agora eu sei – o abridor de luvas. Imediatamente, ele foi incorporado ao Acervo Bibi Ferreira, em nosso museu da moda, Casa Zuzu Angel, na Usina. Lá já está o vestido de festa, longo, coberto de paetês, em tons do creme ao laranja, que minha mãe fez para ela, e Bibi teve a gentileza de presentear ao Instituto Zuzu Angel, quando soube do museu. A roupa veio junto com o par de boás de plumas que a completavam. Não foram os únicos presentes de Bibi. Em certa premiação, uma das centenas de homenagens que já recebeu, ela se comoveu com crônica minha a respeito, e me enviou de presente o troféu. Consiste numa folha ondulada de ouro, que pode ser usada como um adorno de roupa, um clip. Mas o real valor da peça era ter pertencido a Bibi Ferreira. Lá se foi a folha para o museu

Acessível e franca, Bibi foi sempre solidária à luta de minha mãe, em busca do corpo de meu irmão, Stuart. Tanto que, quando inaugurei o Instituto Zuzu Angel, eu a convidei para ser Zuzu por uma noite, em espetáculo no Palácio da Cidade, do prefeito, dirigido por Pedro Sayad. No palco, vestida de preto, véu cobrindo a cabeça e grande crucifixo no pescoço, Bibi reviveu a mater dolorosa com grande emoção, narrando sua vida, na primeira pessoa, e falando de sua moda, enquanto os modelos, das diferentes fases da criadora eram desfilados na passarela.

Choveu muito naquela noite, e era o Dia de Nossa Senhora da Conceição. O show aconteceu entre raios e trovoadas, de que Bibi tomou partido, adicionando ainda mais dramaticidade à sua interpretação. Na plateia, Adolpho Bloch chorava feito criança. Por Zuzu e pela Bibi, que protagonizou o maior momento de seu Teatro Manchete: como Dulcinéia, em Don Quixote, ao lado de Paulo Autran.

Seu amor pelo marido, o dramaturgo talentoso Paulo Pontes, foi infinito. E conturbado. Era uma passional, intensa em seus romances e paixões. Eles viviam o Céu e o inferno, na mais absoluta plenitude. Com ele, Bibi fez em 1972 a extraordinária Gota D’Água, texto de Pontes, música de Chico Buarque. Um dos mais notáveis desempenhos de sua carreira, toda ela notável.

Era a filha do monstro sagrado Procópio Ferreira, pequeno como ela, olhinhos puxados, ombros retos, pescoço curto, Bibi era Procópio 2. Bem, não era uma mulher bonita, mas em cena ficava incrivelmente bela, se assim desejasse. Daí minha teoria de seu dom de se transfigurar.

Visitei-a, uma vez, num apartamento, no imenso prédio pertencente ao Clube Flamengo, na Av. Rui Barbosa, ainda morando com sua mãe, dona Aída. Era o cenário de uma diva, e com muitas antiguidades. A começar pelo piano majestoso de cauda, preto, com pés torneados, esculpido. Poderia ser um piano do Scala de Milão. Sobre ele, um xale franjado, encimado por porta-retratos.

Foto José Roberto Serra CpDoc JB –  Bibi e seu piano de cauda

Morreu na mesma Av. Rui Barbosa, mas em outro prédio, mais luxuoso, num apartamento de último andar com a vista mais bonita do mundo: o nariz esbarrando no Pão de Açúcar, o Iate Club e o mar coalhado de barquinhos. Bibi havia colocado o apartamento à venda, e sua empregada fiel o mostrava aos visitantes, cômodo por cômodo. Mas havia um especial: a sala em que a diva passava seus dias, ensaiava, solfejava. Uma sala escurecida por cortinas pesadas, com móveis preciosos, poltrona de veludo boutonné, e franjas. Estávamos em Paris da Belle Époque.

Quando estava em temporada, ela estendia o sono pela manhã, entrando pela tarde. Não atendia a telefonemas, para não sobrecarregar a voz, e não aceitava convites. Era de casa para o teatro, do teatro para a casa. Bibi obedecia a um ritual severo de tranquilidade e método, visando exclusivamente o aspecto profissional: a atriz. Preservava a voz, economizava o físico e o tempo, que se tornou longevo para ela, e nos concedeu a sorte de ter Bibi por 96 anos.

O mesmo rigor que tinha consigo mesma, tinha com os elencos que dirigia. Ensaiava à tarde até, pontualmente, oito horas da noite, e mandava todos embora, dizendo que descansassem bastante e, pela manhã, estudassem o texto da peça em casa, para retornar à tarde. Mantinha seus atores em imersão total, no desafio de atuar o melhor possível.

O cenógrafo José Dias, parceiro de Bibi em várias montagens, lembra que ela precisava ver a maquete dos cenários antes da marcação dos atores, para ter a precisa noção do espaço. Ele levava a maquete pronta à casa de Bibi diretora e, juntos, passavam a peça, cena por cena, de acordo com os cenários. Uma profissional atenta a tudo. E também respeitosa. Quando precisou mudar de posição uma bérgère, na peça “O preço”, de Arthur Miller, chamou o cenógrafo e pediu autorização para virar a cadeira para a frente, porque queria Paulo Gracindo encerrando a peça, dando uma gargalhada de frente para o público, e não de lado. Surpreso, José Dias comentou: “É esse o problema? Mas você podia fazer isso sem precisar me consultar, você é a diretora!”. E Bibi: “Eu sou a diretora, mas o cenógrafo é você”.

Sua criatividade e seu rigor como intérprete e como diretora eram absolutos. Na peça “A sauna”, no Teatro Villa Lobos, inventou um final espetacular: quando as atrizes Maitê Proença, Claudia Jimenez, Angela Leal, Nivea Maria, Sura Berditchevsky, todas nuas, mergulhavam numa imensa piscina. Várias cortinas de aplausos.

Ultimamente, havia entregue a administração de sua vida a seus empresários, Montenegro e Raman. Nada fazia sem a autorização deles. Fui emissária de uma sondagem, se Bibi aceitaria ser membro da Academia Brasileira de Artes, uma academia centenária, das mais antigas e respeitadas do país. Bibi pareceu encantada com o convite, ficando de retornar para combinar uma eventual posse. Ligou de volta para agradecer o convite e dizer à academia, que, sem o aval de seus empresários, não fazia nada, não aceitava nada, não se mexia, sem sua autorização: “Estou nas mãos deles”, disse.  Bibi é imortal por ela mesma.

A última vez em que vi um espetáculo de Bibi, fiquei preocupada. Foi na reinauguração do Teatro Serrador. Uma linda apresentação da estrela. Ao final, começaram discursos e homenagens, e Bibi, visivelmente exausta, tentava encerrar o evento, mas, bisou quantas vezes foi pedido por autoridades presentes, patrocinadoras do teatro no Rio – o Secretário de Cultura, o prefeito etc. Mesmo cansada, jamais falhava.

Bibi era maravilhosa e interminável. Atuou até o final de 2017. Em 2018, começou a ensaiar um tributo a Dorival Caymmi em seus 10 anos de morte. O proposta era cumprir o circuito teatro Casa Grande no Rio, Renaissance, em São Paulo, e viagem pelo Brasil inteiro, como ela costumava fazer. Até que ela chamou Raman, o empresário, em casa e sugeriu que suspendessem o projeto. Assim foi feito. Frágil, foi hospitalizada e, em agosto do ano passado, teve alta. Em setembro, Raman e Montenegro publicaram na página da atriz uma carta de despedida dos palcos e das entrevistas. Ousada e modesta, dizia que atuar era “80% coragem e o resto é talento”. Bibi era exceção: talento cem por cento.

Bibi Ferreira em My Fair Lady

 

O novo Brasil, em que a barbárie saiu do armário, faz outra vítima

A cada dia, um novo susto, uma decepção maior, um golpe, um aperto no coração. Suicidou-se no sábado, em Barcelona, onde vivia, a ativista e fundadora do COAME, movimento de Combate ao Abuso nos Meios Espirituais, Sabrina Bittencourt. Foi ela quem ajudou a desmascarar João de Deus e Prem Baba como abusadores. Para seu filho, foi apenas “seu último passo pra gente poder viver”. “Eles mataram minha mãe”, disse. A ONG Vítimas Unidas, com que colaborava, distribuiu nota assinada por sua presidente, Maria do Carmo Santos, que se encerra com a frase “A luta de Sabrina jamais será esquecida e continuaremos, com a mesma garra, defendendo as minorias, principalmente as mulheres que são vítimas diárias do machismo.”

Sabrina foi abusada desde os 4 anos por integrantes da igreja mórmon, frequentada por sua família. Adolescente, engravidou de um de seus estupradores e abortou. Fez de sua vida uma plataforma de denúncia contra os religiosos abusadores, espiritualistas, padres, pastores, gurus. Além de tantas mulheres abusadas por João de Deus, Sabrina também ajudou a própria filha do curandeiro a denunciar que foi sua vítima. Sempre em mudança, devido às permanentes ameaças de morte, Sabrina precisou se mudar para o exterior.

 

DEPOIMENTO DE SABRINA

Doutora Honoris Causa por seu trabalho humanitário pela UCEM – Universidad del Centro, no México, Sabrina morreu por volta das 21 horas de sábado, 2 de fevereiro. É pedido que ninguém procure entrar em contato com seus familiares, já que, dos três filhos, dois desconhecem esse fato, e a família tenta preservá-los. Sua mensagem, que foi postada em seu Facebook na mesma noite de sua morte, é um importante documento, e retrata a realidade de todas as mulheres fragilizadas pelos abusos e opressões dos homens e do sistema.Eis o comovente depoimento deixado por Sabrina:

“Marielle me uno a ti. Somos semente. Que muitas flores nasçam dessa merda toda que o patriarcado criou há 5 mil anos! Eu fiz o que pude, até onde pude. Meu amor será eterno por todos vocês. Perdão por não aguentar, meus filhos. VOCÊS TERÃO MILHARES DE MÃES NO MUNDO INTEIRO. Minhas irmãs e irmãos na dor e no amor, cuidem deles por mim… Eu sempre disse que era só uma pequena fagulha. Nada mais. Só pó de estrelas como todos. USEM A SUA PRÓPRIA VOZ. A SUA PRÓPRIA VONTADE. TOMEM AS RÉDEAS DE SUAS PRÓPRIAS VIDAS E ABRAM A BOCA, NÃO TENHAM VERGONHA! ELES É QUEM PRECISAM TER VERGONHA. Não aguento mais. Todas as provas, evidências, sistemas de apoio, redes organizadas e sobretudo, meu legado e passagem por aqui está entregue ou chegará às mãos corretas. As REDES DE APOIO AOS BRASILEIR@S FORAM CRIAD@S E SE EXPANDIRÃO NA VELOCIDADE DA LUZ! Não se desesperem. Dessa vida só levamos o mais bonito e o aprendido. Paulo Pavesi, eu sinceramente sinto muito pela morte do seu filho. Tenha certeza, que se eu soubesse da sua história na época, implicaria minha vida e segurança como fiz com centenas de pessoas. Damares, eu sei que você não teve tratamento psicológico quando deveria e teve sequelas, servindo de marionete neste sistema de merda que te cooptou, acolheu e com o qual você se sente em dívida o resto da sua vida. Não tenho dúvidas que você amou e cuidou da sua “Lulu” como gostaria de ter sido cuidada e protegida na sua infância, mas ela nao é uma bonequinha bonita que você poderia roubar e sair correndo… Giulio Sa Ferrari, eu te considerei um irmão e você sabia de todas as minhas rotas de fuga… eu vi em você a pureza de um menino que nunca foi notado por uma sociedade neurotípica que não entendia os neuroatípicos, mas reputação é algo que se constrói e não é de um dia ao outro. Gabriela Manssur, muito obrigada por me fazer ter esperança de que elas serão ouvidas e atendidas em suas necessidades. João de Deus, Prem Baba, Gê Marques, Ananda Joy, Edir Macedo, Marcos Feliciano, DeRose Pai, DeRose filho, todos os padres, pastores, bispos, budistas, espíritas, hindús, umbandistas, mórmons, batistas, metodistas, judeus, mulçumanos, sufis, taoístas, meus familiares, Marcelo Gayger, Jorge Berenguer, eu desconheço a sua infância e a sua criação pelo mundo, mas sei no meu íntimo que TODO MENINO NASCEU PURO e foi abusado, corrompido, machucado, moldado, castrado, calado, forçado a fazer coisas que não queria, até se converter talvez, cada um à sua maneira, em tiranos manipuladores (em maior ou menor grau) que ao não controlar os próprios impulsos, tentam controlar a quem consideram mais frágil e assim praticam estupros, pedofilia, adicções diversas… Eu sei, eu sinto, eu vi. Mas ainda assim, preferi SEMPRE ficar do lado mais frágil nesta breve existência: mulheres, crianças, idosos, jovens, povos originários, afrodescendentes, refugiados, ciganos, imigrantes, migrantes, pessoas com deficiência, gays, pobres, lascados, fodidos, rebeldes e incompreendidos… Essa vida é uma ilusão e um jogo de arquétipos do bem e do mal, de dualidades… desde que o mundo é mundo. Vivo num outro tempo desde que nasci e sempre senti que vivia num mundo praticamente medieval. Volto pro vazio e deixo minha essência em PAZ. Aos meus amigos, amadas e amantes, nos encontraremos um dia! Sintam meu amor incondicional através do tempo e do espaço. SIM e FIM.”

NA PÁGINA DE SABRINA, POR SEU FILHO, GABRIEL

Gabriel Baum – 09 de Novembro de 2018

“Mainha!
Ela eh minha melhor amiga. A mulher foda q eu sei q jamais vai ficar do meu lado se eu fizer qq pessoa sofrer.
Cara, eu reclamava tanto disso qdo era mais pirralho! Hoje entendi que ela me educou assim pra q nunca eu fosse omisso, conivente ou fechasse os olhos para as injustiças do mundo! Ela não me defende qdo eu piso no tomate e me lambuzo na jaca.

Mas ela cruza os oceanos até pedindo carona em cargueiro se precisar para me apoiar nos meus sonhos.
Mãe, você tirou do papel o meu sonho do veggathome.com junto com nossos amigos. Eu não conheço ninguém como vc! A gente planejou tudo qdo vc ainda tava com câncer, lá no México, num pedaço de papel e um monte de post its coloridos… Precisamos dar umas paradas pra focar na tua cura e deu certo!!! sua Highlander kkkk

Minha véia, que não aguenta uma ladeirinha num passeio, mas que movimenta milhares de pessoas incríveis pra gente não desistir de sonhar.

Vlw mãe! A gente se tromba pelo mundo! Te amo
Não esquece viu dona esquecida!! Saudade é o amor que fica.”

  • Esta matéria se baseia em informações da reportagem a respeito, postada domingo, 03/02/2019, no site da revista Marie Claire, e em material colhido no Facebook de Sabrina Bittencourt.

O funeral em que Mamã Grande não foi

A foto do enterro de Genival Inácio da Silva, o Vavá, irmão de Lula, mostra gente modesta, tristeza e uma ausência – Foto de Ricardo Stuckert

HILDEGARD ANGEL – JORNAL DO BRASIL – 31/01/19

Na novela Os Funerais de Mamã Grande, de Gabriel García Márquez, Mamã Grande foi a soberana absoluta deste mundo, morreu aos 92 anos, com a fama de santa, e a seu funeral compareceram do Presidente da República ao Papa, passando por contrabandistas, prostitutas e camponeses, produtores de arroz e bananeiros. Eram incontáveis os bens terrenos de Mamã Grande, que os herdeiros passaram a disputar avidamente, após a partida do corpo da defunta de sua casa. Eles somavam “a riqueza do subsolo, as águas territoriais, as cores da bandeira, a soberania nacional, os partidos tradicionais, os direitos do homem, as liberdades dos cidadãos, o primeiro magistrado, a segunda instância, o terceiro debate” etc.

O funeral de ontem não foi o de Mamã Grande. Foi o de Vavá, estimado cidadão de São Bernardo do Campo, morador há 40 anos na mesma casa, que modesto viveu, modesto morreu. Esse legado de dignidade, ninguém quis reivindicar ou comentar. O que se disputou vorazmente foi de quem seria o maior vexame. Do Judiciário, da Polícia Federal ou do Ministério da Justiça? Nesse vale tudo, até rasgar a Constituição foi permitido. Em causa, porém, estavam, sim, “a riqueza do subsolo, as águas territoriais, as cores da bandeira, a soberania nacional, os partidos tradicionais, os direitos do homem, as liberdades dos cidadãos, o primeiro magistrado, a segunda instância, o terceiro debate”. A vida imitava a literatura.

O que parecia se pretender, naquela pantomima real e farsesca, era fazer um ser vivo de morto, e tornar seu tesouro legado daqueles sem seus méritos, sem seu brilho, a legitimidade das urnas, a competência e o apreço pelas causas brasileiras.

Gulosa pretensão daqueles que hoje desmandam e mandam, prendem e arrebentam, mentem e desmentem, vão em frente e voltam atrás, neste país pelo avesso, em que a marcha à ré vai pra frente, o errado virou certo, o herói se tornou vilão e versa-vice.

A respeito, Gabo escreveria novela mais mágica do que toda a sua obra reunida: “O funeral em que Mamã Grande não pôde ir”.

A comovente tentativa de todos de retribuir a Gisella Amaral o tanto que fez por todos

Em outros países, figuras dedicadas ao próximo e à sua comunidade, como Gisella Amaral, têm as cerimônias de sua despedida devidamente documentadas. Lamento aquelas que se foram e não tiveram esses momentos finais registrados para a memória futura. É a história e são os costumes de um tempo, de certo grupo social e de suas personalidades representativas.

As despedidas de quem morre merecem rituais em todas as religiões. Como se cumprindo um protocolo de desapego, fazem-se, na Igreja Católica, velório, missa, discursos, coroas de flores, féretros, enterra-se ou crema-se. Depois virão as missas de sétimo dia, de 30º, de 1 ano, e de sempre que o falecido é lembrado. Assim, os que ficam vão se acostumando com a inexorabilidade da ausência, com a falta, a saudade. Os católicos acreditam que suas muitas orações e velas iluminam os caminhos celestiais de quem parte para a vida eterna. Os espiritualistas creem na reencarnação da alma, e no poder de se comunicar com ela. Mas o que concretamente ocorre é um processo de adaptação e conformidade diante da ausência do ser querido.

CAMÉLIAS BRANCAS

A missa de corpo presente de Gisella Amaral foi missa de estadista. O cardeal dom Orani Tempesta oficiou, cercado por vários padres, que ministraram a comunhão. Os membros da Ordem do Santo Sepulcro compareceram, reverentes, com suas imponentes capas pretas (as mulheres) e brancas (os homens). Os testemunhos de amigos foram incontáveis. A irmã caçula, Monica, veio do Chile, onde mora, e fez preleção comovente. Mais de uma dezena de jovens, filhas e netas de amigas de Gisella, as netas de Gisella fizeram a coleta de esmolas. As coroas de flores enviadas decoraram, enfileiradas, lado a lado, as laterais da Igreja de São José, superlotada. Algumas pessoas de pé. Gisella, serenamente imóvel, em seu esquife diante do altar, coberta de camélias brancas (a sua flor), maquiada com o batom claro que costumava usar, o risquinho com lápis fazendo os olhos ainda mais amendoados. Estava linda.

De preto, na primeira fila, Ricardo Amaral, que na hora da comunhão se levantou e ficou junto ao corpo, enquanto as pessoas que comungaram passavam por ele e o cumprimentavam. As três netas, o filho Bernardo e a nora Alessandra, junto com ele. No outro banco da primeira fila, Rick Amaral com a tia, Monica, o marido dela, as filhas e maridos.

BONDADE SILENCIOSA

Aqui e ali, ouvíamos comentários sobre boas ações de Gisella. O que mais me impressionou foi o do cabeleireiro panamenho Ricardo de la Rosa. Antes de sair, cochichou em meu ouvido: “Serei eternamente grato a ela. Quando iniciei a carreira no Brasil, a primeira vez em que precisei ir ao Panamá, e não tinha dinheiro, Gisella pagou a minha passagem”. Ao meu lado no banco, Tereza Nunes Ferreira escutou e comentou comigo: “São esses os depoimentos que valem”. Nada mais significativo do que a bondade silenciosa.

PRESENÇA SOCIAL

Os nomes sociais do Rio estavam todos lá. Nos dois sentidos, os da vida social e os da assistência social. Freiras, presidentes de entidades de benemerência, médicos vários, damas da caridade. Os antigos frequentadores da noite carioca, no reinado de Ricardo, e os novos da night, amigos de Rick Amaral, que foi companhia permanente da mãe em seu tratamento. Assim como foram inúmeras boas amigas, como Iná Arruda, Kiki Garavaglia, Tereza Seiler, Regina Ximenes, Ana Luiza Nogueira. Difícil citar nomes ou destacar personalidades, quando a pessoa em pauta é unanimemente amada. Saíram de casa para a missa, aquelas que a gente raramente vê. Deixaram os escritórios, por algumas horas, aqueles a quem é impraticável conseguir acesso. Todas as portas deram passagem aos que desejavam chorar a perda dramática dessa amiga rara.

ESTREPOLIAS DE GISELLA

Gisella foi a última a baixar armas. Na quarta-feira da semana passada, desobedecendo todas as orientações, “fugiu” do tratamento para ir ao enterro de Dayse Mene, casada com seu médico, Rômulo Mene. E ainda fez mais estrepolia, esticando numa missa noturna na Igreja Nossa Senhora da Paz. Na sexta-feira passada foi compulsoriamente internada no Pró-Cardíaco e retirada de circulação pelos médicos e pelo Ricardo. Já era a pneumonia, como um arremate de todos os outros sofrimentos da doença. O outro filho, Bernardo, em Miami, retornou a tempo das cerimônias de ontem.

GRANDE DAMA

E fica a pergunta: quem serão as grandes damas sociais sucessoras desta geração de Gisellas, Carmens, Lillys e outras que se vão?

Foram mais de cinco décadas de seu casamento com Ricardo Amaral, e Gisella aconteceu sempre. Não falo dos seus eventos, viagens e festas cintilantes, que levaram seu fascínio a Paris, Nova York, Miami, Lisboa, o mundo afora, ou da sua beleza e do seu estilo particular e elegante. Falo da grande dama e benfeitora que foi.

Gisella tinha a fé de que quando morremos renascemos para a vida eterna. Amém!

Esta página documenta a missa de ontem na São José, com fotos de Marcelo Borgongino.

As damas da Ordem do Santo Sepulcro, Eliana Moura e Vera Tostes

“Giselinha, meu Amor Eterno, Ricardo Amaral”

Cardeal dom Orani Tempesta, padres Omar, Jorge e Sérgio

A reverência do cavaleiro do Santo Sepulcro

Na primeira fila da esquerda, Ricardo Amaral e o filho, Bernardo. No cortejo, Iná Arruda, Alessandra Amaral com as três filhas e as amigas de Gisella. No banco da direita, Rick Amaral e sua tia, Monica, irmã de Gisella, com o marido.

Maitê Proença

.Rick e seu pai, Ricardo Amaral

Mariza e Jair Coser com Ricardo

Dom Orani cercado de padres e sacristães, com a oficial do Santo Sepulcro, Isis Penido, ao fundo

 

Para sempre, Gisella Amaral

 

Minha querida amiga, madrinha duas vezes, parceira, pessoa muito amada, Gisella Amaral sucumbiu ao câncer que há anos retornou e a corroía por dentro. Lutou bravamente até o último momento, sem se queixar, sem reclamar da vida, mantendo o humor e a altivez, e ajudando os outros. Há duas semanas, conseguiu a hospitalização no Hospital do Câncer, da menina Vitória, filha de uma ex-empregada de uma amiga. Gisella era assim. Não se preocupava consigo, se preocupava com o próximo. Quando mudei para o novo apartamento, fiz uma sala toda azul e branca, e dediquei a ela, “Sala Gisella Amaral”. Nós a inauguramos juntos, os dois casais, com risadas, champagne e lembranças. Gisella adorava o azul e branco na decoração. Seu apartamento de Miami era todo blue & white. Certa vez, como sua hóspede, ao acordar a encontrei toda azul, o caftan longo, também o laçarote nos cabelos, toda combinadinha, e passando aspirador na casa. Isso, depois de ter corrido na praia e remado sei lá quanto tempo. E eu achando que acordava cedo, depois de chegar tardíssimo na noite anterior, do tour pelos restaurantes e nightclubs, e Gisella ainda prosseguiu com Ricardo. Sua pilha era interminável.

Chegamos, eu e Francis, a marcar com Ricardo, secretamente, a inauguração da Sala Azul, e fizemos uma lista longa de amigos. Ela pensaria que era para celebrar meu aniversário, e quando chegasse a festa seria para ela. Combinamos menu, organizamos a casa, redigimos os convites, mas, por fim, Ricardo, triste, me disse que Gisella não teria condições, havia sido hospitalizada. Foi uma das tantas hospitalizações nesses últimos quatro ou cinco anos. Gisella tinha enorme confiança em seus médicos, na excelência do Sírio e Libanês e na eficiência do novo tratamento à base de imunoterapia. Nunca mudou o seu ritmo. Chegou a quase desmaiar no elevador do Hippo, porque insistia em prestigiar os eventos da casa, mesmo com a forte oposição de Ricardo. Ela era a sua luz. A luz de todas as casas que ele abria. A luz para todos nós, que tínhamos o privilégio de sua amizade.

Alguns a chamavam de “Santa Gisella” e, garanto, não era exagero. Talvez eu tenha sido uma das primeiras a saber da volta de seu câncer. Estávamos juntas no carro, voltando de Cabo Frio, e ela comentou sobre um carocinho que lhe apareceu na área das axilas, e poderia ser uma recidiva do câncer, mas que ela iria fazer o exame. E era. Para Gisella não bastam uma crônica ou um obituário. Sua importância como ser humano transcende palavras. Seus feitos são inúmeros. A preocupação permanente em fazer o bem. Criou a SorRio, para levantar recursos para as obras de caridade. Inventou o Arraial do Jockey Club, para arrecadar fundos para a Cúria. Saiu Brasil afora, fazendo palestras de prevenção do câncer de mama, usando seu exemplo pessoal, e estimulando as mulheres a se cuidarem.

Tratava a todos igualmente, ricos e pobres, jovens e velhos, brancos e pretos, humildes e arrogantes, pois nem estes últimos resistiam ao seu carisma de bondade, compreensão e tolerância humana. Frágil, muito magra e linda, com os cabelos presos em coques de grandes volumes, e que deixou ficarem grisalhos depois que voltaram a crescer, Gisella era sempre a grande presença. Tinha um probleminha com o horário. Como assumia múltiplas obrigações com todos, e não queria falhar com ninguém, estava sempre atropelada pela sua agenda “onipresente”. Sabíamos que ela seria a última a chegar no almoço, na festa, no jantar. E chegava com sorrisos, explicando de onde vinha, algum hospital ou algum asilo de velhos, ou o aniversário de uma amiga idosa. Não faltava aos que contavam com ela.

Outra coisa carinhosa era sua relação com as netas, e vice-versa. E assim como Gisella cuidava dos outros, as netinhas olhavam por ela. Como vi uma vez, no Shopping Leblon, quando a neta pequenininha insistia para Gisella comer alguma coisa, pois estava “fraquinha”, e Gisella pediu um sorvete. Era absolutamente frugal. O que preocupava a todos.

Seu automóvel, ela chamava de “escritório”. Tinha tudo que uma executiva precisa. E seu grande instrumento de trabalho era seu poderoso caderninho de telefones. Gisella era várias. Samaritana, relações públicas, executiva social, cumpridora dos protocolos todos e muito criativa. Tinha sempre uma ideia extraordinária para fazer o bem, e levava adiante.

Para dar conta de sua programação puxada, ela chegava a mudar de roupa a bordo do automóvel. Era de um preciosismo raro. Quando recebia em sua cobertura simpática do Leblon, “redecorava” o hall de entrada do prédio, com flores brancas degrau acima, e vestia os móveis e poltronas com tecido bege e branco e grandes laços. Ficava lindo.

Era duas vezes Amaral. De solteira e de casada. Ricardo Amaral vinha em primeiro lugar em sua vida, em todas as situações e em todos os momentos. Sua dedicação a ele era absoluta. Por isso sei como Ricardo precisará agora do conforto dos amigos. Mas não sei se terá forças para receber a torrente de carinhos que há de abater sobre ele.

Dias atrás, antes de partir para mais uma fase do tratamento em São Paulo, ela ligou para algumas amigas. Com quem não conseguiu falar, deixou mensagem gravada. O tom era de despedida. Gisella foi internada na sexta-feira no Pró Cardíaco, no Rio. Ela teve a oportunidade de se despedir de todos e escolheu padre Túlio para lhe dar a extrema unção. O velório começou às 10 da manhã de hoje, na Igreja de São José, foi seguido de uma missa, pelo cardeal dom Orani Tempesta, ajudado por vários outros padres, e em seguida houve a cremação, íntima, no Caju.

Perder Gisella não estava em nossos planos. Ela era imortal em sua fé.

 

Um dia de Coréia do Norte para a imprensa em Brasília

A jornalista Monica Bérgamo, postou esta tarde no site da Folha de São Paulo uma descrição dos surpreendentes novos procedimentos com a imprensa numa posse presidencial na República Brasileira, como foram os da posse do presidente Jair Bolsonaro, em Brasília. Vale a transcrição.

Hildegard Angel


UM DIA DE CÃO

Mônica Bergamo 

É uma posse diferenciada e todos têm que entender isso.

Com essas palavras, a assessora do Palácio do Planalto que acompanhava jornalistas num ônibus rumo ao Congresso Nacional, na manhã desta terça (1º), procurava acalmar veteranos da profissão (esta colunista entre eles) que não conseguiam, digamos, entender os novos tempos — e o tratamento reservado à imprensa na posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República.

Foi, de fato, algo jamais visto depois da redemocratização do país, em que a estreia de um novo governo eleito era sempre uma festa acompanhada de perto, e com quase total liberdade de locomoção, pelos profissionais da imprensa.

O sufoco começou dias antes, no credenciamento.

Os jornalistas foram informados de que não poderiam ter acesso livre, por exemplo, ao salão nobre do Palácio do Planalto, onde o presidente sobe a rampa, dá posse aos seus ministros e recebe cumprimentos de autoridades internacionais.

Na posse de Lula, em 2003, repórteres chegavam a se aglomerar em torno dele e de Fernando Henrique Cardoso, misturando-se entre a equipe recém-empossada e a que deixava o governo.

Um dos repórteres lembrava, no ônibus, que chegou a subir no elevador do Planalto com Lula, furando um esquema nada rigoroso de segurança.

A colunista chegou a entrar em salas privadas com o então vice-presidente dos EUA Joe Biden na posse de Dilma Rousseff, em 2014.

Desta vez, tudo seria diferente. 

Apenas um jornalista de cada veículo poderia entrar no palácio, e com acesso restrito às autoridades.

Os outros ficariam do lado de fora, na portaria ou num corredor aberto no meio da população. 

E a assessoria alertava: neste local, era preciso evitar movimentos bruscos. Fotógrafos não deveriam erguer suas máquinas. Qualquer movimento suspeito poderia levar um sniper [atirador de elite] a abater o “alvo”.

Uma jornalista voltou apavorada para a redação. 

Avisou à chefia que preferia não cobrir a posse. Não queria morrer. Foi convencida do contrário.

Os organizadores da cerimônia também distribuíram orientações por escrito à imprensa: os jornalistas credenciados deveriam chegar ao CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), no dia 1º, às 7 horas da manhã.

Como é que é? 

Era isso mesmo: embora a posse no Congresso estivesse marcada para as 15 horas, os jornalistas teriam que se concentrar desde cedo, embarcar nos ônibus às 8 horas, chegar no Congresso pouco depois e esperar, sem fazer nada, por mais de seis horas, para ver Bolsonaro entrar no parlamento.

Era preciso levar lanche pois não haveria comida. 

Tudo precisava ser embalado em sacos de plástico transparente.

“Garrafas não são permitidas. Haverá água potável disponível nas áreas de imprensa”, dizia o comunicado.

Os veículos providenciaram kits de sobrevivência para seus profissionais. 

No caso da Folha, bolachas Club Social, biscoitos Bis, castanhas de caju, barrinhas de cereal, gomas de mascar, um sanduíche de queijo e salame e suco de caixinha.

Na terça (1º), logo cedo, os jornalistas, seguindo as regras, chegaram cedo ao CCBB.

Foram todos divididos em grupos, em cercadinhos com grades de ferro: os que iriam para o Congresso sairiam primeiro, depois os do Palácio do Planalto e, por fim, os do Itamaraty.

“Pessoal, vocês vão em 13 ônibus. Às 17 horas, nós traremos vocês de volta”, gritava um assessor que se apresentou como Tiago.

E quem quisesse ficar mais?

“Pessoal, [os seguranças] não vão deixar vocês passarem [nas ruas]. O direito de ir e vir dos jornalistas tá assim!”.

Os repórteres caíram na risada.

Apesar da situação, considerada um tanto surreal, havia motivo para risos. 

Um deles era a proibição de levar maçã inteira na merenda. Só picada, em pedacinhos.

“Razões de segurança: acham que alguém pode jogar uma delas na cabeça do Bolsonaro. E maçã machuca”, explicava um dos profissionais.

Em fila, todos começaram a embarcar nos ônibus.

“Bem-vindos à rodoviária do CCBB”, dizia o assessor que iria em um dos veículos.

Os alertas eram muitos. 

“Não tentem subir na Esplanada [dos Ministérios, avenida que leva à Praça dos Três Poderes]. Não tentem passar de uma área à outra. E, mais importante: não tentem pular uma cerca. Não façam isso!”

“A gente tem que avisar. Porque depois alguém toma um tiro…”, completava outra assessora.

“O que nós viramos?”, questionava um veterano jornalista. 

“Fizemos tudo o que já fizemos para terminar aqui?”

Pouco depois das 8 horas, o comboio de ônibus sai até o Congresso, onde novas surpresas nos esperavam. Ao chegar no parlamento, os repórteres passaram por detectores de metais.

E foram levados ao salão verde da Câmara dos Deputados, na entrada do plenário.

“É surreal!”, reagiu um jornalista ao ver a cena: todas as cadeiras e poltronas do local haviam sido retiradas. Não havia onde sentar. Os profissionais tinham que se acomodar no chão.

Eram centenas de jornalistas, mas só havia um banheiro disponível.

Alguns se dirigiram ao setor do cafezinho. 

Um segurança logo orientou as copeiras: “Não é para servir nada à imprensa”.

Os profissionais foram convidados a se retirar do local.

Teriam que ficar confinados no salão, separados por um cordão da passarela com tapete vermelho por onde passariam as autoridades. 

“É preciso um pouco de dignidade!”, reclamava um repórter.

Um deles conseguiu um banquinho para se sentar. E logo começaram as brincadeiras: era preciso fazer rodízio para que todos pudessem descansar um pouco.

Na mesma situação no Itamaraty, correspondentes internacionais chegaram a se retirar do prédio.

Jornalistas com larga experiência em coberturas de governo prognosticavam: essa postura do governo durará pouco. Até a primeira crise.

Mônica Bergamo
Jornalista e colunista. 

FSP 1.1.2019


Agora, é observar os dias que virão. Fato é que, diante do quadro, os correspondentes da China e da França escalados para a cobertura desistiram da tarefa e se retiraram. Desconfia-se que essas novas determinações do trato com a imprensa tenham sido inspiradas nos procedimentos da Coréia do Norte…

H.A.

CARTA PARA MINHA MÃE

Hildegard Angel / Jornal do Brasil  / 28 de Outubro de 2018

Com minha mãe, Zuzu Angel, que cantou suas alegrias e sua tragédia em roupas singelas e coloridas (Foto de Mauricio Hora)

Minha mãe amada. Sua coragem e seu espírito de luta nos fazem muita falta nesta hora, neste dia. Imagino como a senhora estaria empenhada, batendo de porta em porta, distribuindo santinhos e mensagens, abordando as pessoas nas ruas ou onde quer que estivessem, para repedir a ladainha de seu sofrimento e de nossa tragédia, nos anos da ditadura no Brasil.

Sei o quanto a senhora prezava a democracia, a liberdade de se expressar, de ir, vir e se reunir. De pensar e de estudar. De criar. Tudo que nos foi negado por aqueles anos de escuridão, que também nos negaram as vidas de Stuart, seu filho, meu irmão, de Sônia, sua nora, minha cunhada, e sua própria vida.

Nada mais disso, no entanto, é lembrado e lamentado por grande parte dos brasileiros. Os que não viveram e muitos dos que viveram aquele período assustador. Tenebroso. Nosso país adorado, e que a senhora tanto louvava em suas roupas, se desumanizou. As pessoas não valorizam e prezam a vida como antes. Elas assistem à espetacularização da violência real, pelos noticiários da TV, como assistem aos filmes com psicopatas na programação das noites de segunda-feira.

Tudo passou a ser trivial em nosso país. Decepar, enforcar, asfixiar, estuprar, toda e qualquer forma de violência, as mais perversas, se tornaram trivialidades.

O pensamento solidário, aquele de olhar a todos como irmãos, que Jesus Cristo trouxe à Terra, se extinguiu, também e principalmente, entre os próprios cristãos. De nada adiantam os apelos quase diários do Papa contra o fascismo. Não o escutam. E os que ouvem sua voz, o criticam. Ser caridoso e piedoso é visto como fraqueza e impostura. Cada um recria o cristianismo de acordo com as conveniências pessoais. Até os religiosos de batina.

Olho em minha volta e não vejo pessoas. Não são humanos os que se deixam dominar pelo desprezo ao próximo. Os que aplaudem e uivam ao chamado do ódio, da perversão, da indignidade.

Como se o grupo de torturadores e assassinos daquele tempo nefasto tivesse se replicado e multiplicado em milhões de brasileiros. Todos sedentos por sangue, cada um de arma na mão. Com um fuzil AR-15 pra chamar de seu.

Ligo a televisão e vejo, chocada, um tresloucado invadir uma sinagoga em Pittsburgh e fuzilar inocentes. O atirador gritou “todos os judeus devem morrer!”. Assim como agora gritam “30 mil devem morrer”, e que o estado brasileiro não deve gastar com os pobres, pois eles não servem pra nada, só pra votar.

O massacre foi no país do armamento liberado, os Estados Unidos da América, onde as crianças levam armas aos colégios e dizimam seus colegas de turma. Modismo bárbaro, que vemos, aos poucos, introduzido em nosso Brasil, ainda com pequena frequência, ainda sem as armas liberadas. E serão até para as crianças, esse é o plano.

Tínhamos uns vizinhos de prédio, praticantes de tiro exímios, campeões, que por descuido ou distração deixaram uma arma ao alcance do filho pequeno. E vimos o dia em que chegou a caminhonete fúnebre para levar o corpo do amiguinho, assassinado por disparo involuntário da criança. A família fechou-se em luto e grande sofrimento. Não era esse o seu objetivo, mas foi essa a sua consequência.

Minha mãe, meu desolamento e minha aflição são tão grandes que me fogem a coerência e o raciocínio. Ah, se você estivesse aqui, para se vestir de preto e sair por aí, clamando seu infortúnio, exibindo o desespero da mãe que perde um filho e nada pode fazer. Nem reagir, nem denunciar, nem implorar por seu corpo. Pelo menos isso, nós conquistamos nesses últimos 30 anos, e às custas das mortes de tantos nos 21 anos que os precederam.

Naquele tempo em que sequer se podia chorar os mortos, você foi se juntar a eles, por desobedecer a “ordem de comando” do silêncio geral. Morta por chorar, por implorar e por fazer seu grito repercutir até ser escutado no estrangeiro.

É esse tempo que querem de volta. Movidos pelo temor da violência, votam para institucionalizar essa mesma violência, dando a ela poder de matar a todos, indiscriminadamente, sem processo, sem controle. Com medalha de honra espetada na farda.

Mãe, não tenho a sua capacidade. Tenho procurado fazer o que me é possível, escrever, informar, debater. E sempre chorando muito, pressentindo a tragédia que está prestes a se abater sobre todos nós.

Fui ontem à gruta de São Judas Tadeu. Hoje é aniversário do santo. Acendi uma vela, não pelos meus doentes, pelo Brasil. Ele está mais precisado. Por favor, reze por ele. Quem sabe aí onde está suas preces sejam mais escutadas do que as nossas. Do que as do Papa Francisco.

Te amo, mãe,

Hilde

 

Nomes mais influentes da França fazem apelo pela nossa democracia

Essa onda pega. Está pegando. Jamais se viu numa eleição brasileira tantos movimentos, depoimentos, manifestos com o objetivo comum de combater o perigo fascista. Veículos internacionais de mídia, de esquerda, direita, centro; personalidades notáveis, brasileiras e estrangeiras, saem de sua zona de conforto, ou de sua conveniente neutralidade, para se colocar com firmeza. São pequenos, fracos, minorias, artistas, intelectuais, jornalistas, cientistas, que espontaneamente criaram grupos no what’sapp e páginas na internet e saíram de suas casas para bradar “Ele não!”.

Uma emergente resistência brasileira, que, nesses dias finais do embate, reage ao medo e espana a apatia atenta ao clamor vindo lá de fora.

Acabo de receber, e transmito a vocês, o manifesto “Apelo aos brasileiros pela democracia”, assinado por políticos influentes de todos os matizes, artistas, escritores, arquitetos, professores, a síntese do pensamento da França.   A iniciativa foi de uma brasileira de sucesso na França, várias vezes premiada, a arquiteta Elizabeth de Portzamparc, casada com um arquiteto igualmente importante, Christian de Portzamparc, que também aderiu ao manifesto.

APELO AOS BRASILEIROS PELA DEMOCRACIA    

Informados pela imprensa brasileira e internacional, estamos acompanhando preocupados o risco real da perda das liberdades fundamentais no Brasil representado pela eventual vitória do candidato da extrema direita, Jair Bolsonaro, no segundo turno das eleições presidenciais no país. 

Motivados pelos laços que unem os dois países, gostaríamos de manifestar a nossa imensa preocupação, nos dirigindo em particular aos eleitores brasileiros indecisos, para que se posicionem a favor da democracia no Brasil.

O candidato de extrema direita, ex-capitão do exército, denigre as forças armadas ao elogiar publicamente a prática da tortura, assim como a eliminação física de oponentes políticos (1). Sua trajetória e seu discurso político traduzem um desprezo aos direitos humanos, aos princípios básicos da democracia e ao debate eleitoral, do qual ele se recusa a participar. Sua campanha, elaborada por Steve Bannon, ex-conselheiro de Donald Trump, é baseada em declarações provocadoras, notícias falsas, e “tweets” postados em redes sociais (2). 

O ex-militar sustenta publicamente um discurso homofóbico, sexista e racista em relação aos negros e aos índios, incitando à violência física e política contra as minorias.

Desde que começou esse discurso do ódio, ele já tem sido traduzido de forma concreta: na primeira semana que seguiu à votação já foram registrados em todo o País cerca de 50 casos de agressões físicas de caráter político, sexista ou homofóbico realizadas por alguns de seus seguidores (2), e um assassinato em Salvador (3).

A história do século XX nos ensinou muito quanto às consequências da ruptura do pacto democrático: a onda de ódio, a perseguição às minorias e o uso da violência. Se essa ruptura seduziu parte das populações em tempos de crise econômica e política, foi uma ação irreversível, com consequências humanas desastrosas, sem, contudo, solucionar os problemas sociais e econômicos como preconizava. 

Tal opção política poderá ter consequências nefastas não apenas para a democracia brasileira, mas também para o continente latino-americano e para as relações com a comunidade internacional – notadamente com a França. 

Nossa preocupação diz respeito ainda aos discursos desse candidato sobre o meio ambiente. Caso seja eleito, ele afirma extinguir o Ministério do Meio Ambiente e retirar o Brasil dos acordos internacionais sobre o clima, incluindo a COP 21 (4). Seu apoio declarado aos lobbies do agronegócio nos permite entrever, caso ele seja eleito, uma aceleração sem precedentes do extermínio dos índios, da destruição da floresta amazônica e do meio ambiente no Brasil, que teriam um impacto global inegável sobre clima mundial, com consequências negativas nas negociações comerciais internacionais. 

O candidato extremista representa a negação de valores básicos, como a tolerância e a proteção em relação às minorias e diferenças, às liberdades individuais, à preservação do meio ambiente e do nosso planeta. Ele renega as conquistas democráticas que foram duramente conquistadas após a ditadura militar.

Ao contrário, Fernando Haddad, o outro candidato que concorre à presidência no segundo turno, tem mostrado em diversas ocasiões que representa o campo democrático. O Partido dos Trabalhadores, ao qual é afiliado, cometeu faltas graves, mas segue firme em seu compromisso com a democracia.

Brasileiros, brasileiras, não se isolem! Não abandonem os seus valores. O medo não justifica tudo. Queremos poder continuar ao seu lado. A França e o mundo precisam de um Brasil democrático. Agora mais do que nunca.

Brasileiros, vocês são um grande povo que se emancipou da colonização e que aboliu a escravidão. Vocês sofreram uma feroz ditadura militar da qual se libertaram. Rejeitem a tentação de uma cólera justa nas suas motivações, porém cega nas suas consequências. Caro povo-irmão, filhos de uma grande nação que deve permanecer independente: nós, fiéis amigos do Brasil, admiradores de sua cultura, apelamos à sua lucidez.

Até agora assinaram:

Elizabeth de Portzamparc, arquiteta, socióloga, Presidenta de 2Portzamparc  

Michel Wieviorka, Sociólogo, Presidente da Fondation Maison des sciences de l’Homme

Edgar Morin, Sociólogo

Antoine Hennion, Sociólogo

Alain Touraine, Sociólogo

Amy Dahan, Diretora de Pesquisas do CNRS (Centro Nacional francês de Pesquisa Científica) 

Jean-Louis Cohen, Professor de História da Arquitetura, Institute of Fine Arts, New York University, Professor do Collège de France

Christian de Portzamparc, Arquiteto, urbanista, Pritzker Prize & Praemium Imperiale

 Jean Nouvel, Arquiteto, Pritzker Prize & Praemium Imperiale

Dominique Perrault, Arquiteto, Praemium Imperiale

Patrick Bouchain, Arquiteto

Yannick Jadot, Deputado Europeu, ambientalista

Vincent Capo-Canellas, Senador

Edith Cresson, Antiga Pimeira-Ministra francesa

Jack Lang, Presidente do Instituto do Mondo árabe, ex Ministro

Yves Dauge, Antigo Senador, c da ACCR / Pierre Mansat, Político francês

Thierry Mandon, Antigo secretário do Estado Francês responsável do Ensino Superior e da Pesquisa

Alain Dinin, Presidente-Diretor Geral da Nexity 

Laurent Dumas, Presidente-Diretor Geral da Emmerige 

Jean-Philippe Adam, Diretor Geral do Crédit Agricole Immobilier

Robert Lion, Presidente de diversas associações e ex-Diretor Geral da Caisse des Dépôts et Consignations

Daniel Chabod, Presidente-Diretor Geral da Sacicap de l’Anjou  

Bruno Mantovani, Director do Conservatório Nacional Superior de música e de dança de Paris / Philippe Sollers, Escritor

Laure Adler, Jornalista

Benoit Jacquot, Diretor de cinema 

Catherine Deneuve, Atriz 

Roberto Cabot, Artista

Gérard Fromanger, Pintor

Miguel Chevalier, artista

Christian Boltanski, Artista

(1) https://www.revistaforum.com.br/jair-bolsonaro-erro-da-ditadura-foi-torturar-e-nao-matar/

(2) https://m.oglobo.globo.com/mundo/estamos-indo-para-brasil-diz-diretor-da-cambridge-analytica-22510961

(3) https://apublica.org/2018/10/apoiadores-de-bolsonaro-realizaram-pelo-menos-50-ataques-em-todo-o-pais/

(4) https://www.lemonde.fr/ameriques/article/2018/10/11/au-bresil-le-triomphe-attendu-de-bolsonaro-dechaine-les-violences-homophobes_5367697_3222.html

https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-perde-recurso-e-condenado-pagar-150-mil-fundo-de-defesa-lgbt-22045884

https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-e-condenado-por-comentario-racista-contra-quilombolas-leia-a-integra

(5) http://www.diretodaciencia.com/2018/10/11/plano-de-bolsonaro-poe-meio-ambiente-em-perigo-dizem-servidores-do-ibama-e-icmbio/

ou

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marceloleite/2018/10/a-amazonia-no-bolso.shtml?fbclid=IwAR2MhXoOMtpKNg0NkTW1svIDZEF7V8ddp-FJIxGYiYriY79w0-NGJ33omUI?loggedpaywall

Carta aberta à presidente do Supremo Tribunal Federal

Coluna Hildegard Angel – JORNAL DO BRASIL- www.jb.com.br – 

Carta aberta à presidente do Supremo Tribunal Federal

22/09/2018

Presidente Cármen Lúcia,

Pretendia fazer esse pleito pessoalmente, por ocasião da visita a Vossa Excelência do sr. Adolpho Perez Esquivel, na pequena comissão de representantes da sociedade brasileira. Mas isso não foi possível. Resta-me faze-lo por esta carta, animada por suas demonstrações de solidariedade à luta e à memória de minha mãe, já feitas publicamente e diretamente a mim. As mulheres mineiras, como são ambas vocês, têm tradição em nossa História de bravura e compaixão. Assim foram, na Inconfidência, Hipólita Jacinta Teixeira de Melo e, na Revolução de 1930, Tiburtina Alves, que, em suas épocas, na defesa de causa maior, desafiaram o medo e o senso comum. No momento, a causa extrema é a da nossa Democracia. Faz-nos aflição nos sentirmos na iminência de perde-la, abalada pela disseminação de um ódio que contamina e torna violenta a nossa sociedade, pela primeira vez na História republicana dividida radicalmente. Amigos rompem relação, parentes não se falam, vizinhos deixam de se cumprimentar. Não houve precedentes em nossa sociedade, a não ser nas ditaduras, quando o temor de retaliações e estigmas levava pessoas a evitarem umas às outras.

Felizmente, lá se vão mais de trinta anos do último período de exceção. Contudo, os ares da excepcionalidade voltam a nos sufocar, confundir e separar. Urge que a Constituição Brasileira volte a ser cumprida em sua integralidade o quanto antes, o tempo atropela o desenrolar dos fatos, e as consequências são imprevisíveis. Peço a Vossa Excelência e aos demais membros da Corte que ouçam as vozes, não as que lhes são mais próximas, mas as das ruas. Que atentem para o clamor popular, que se faz revolta pelo descrédito que agora inspiram ao povo as nossas instituições. Vemos manifestações em lugares públicos, marchas, movimentos, até greves de fome ocorrerem, na esperança de lhes atrair a atenção. De lhes merecerem um olhar ou até mesmo a preocupação.

Por favor, sra. Ministra, Deus lhe deu esta missão importante de apaziguar a Nação com seus atos, conduzindo este momento da História. Sei que o Supremo de nosso país tem sido capaz de atos de coragem que desafiam o próprio tempo. Como o do saudoso ministro Adauto Lúcio Cardoso, outro mineiro. Primo-irmão de minha mãe, em família divergiam no pensamento político, mas eram convergentes na causa comum das liberdades democráticas.

Ministra Carmen Lúcia, lhe rogo que paute as Ações Declaratórias de Constitucionalidade, que colocam em questão o entendimento firmado pela Corte de autorizar o cumprimento de pena após condenação em segunda instância. Esta é a reivindicação que temos percebido no clamor das ruas, levando até sete militantes de movimentos populares a completarem hoje 22 dias de greve de fome no Distrito Federal.

Vamos apascentar os corações deste país, antes que tenhamos que verter lágrimas por esse sacrifício em seu momento extremo, que parece estar próximo.

Sei de sua bravura, peço-lhe, também, a compaixão.

Muito respeitosamente,

Hildegard Angel

Projeto Novo Brasil segue firme em seu propósito de voltar ao tempo colonial

DEZOITO entidades representativas de diversos segmentos da indústria audiovisual do Brasil lançaram um manifesto de surpresa e preocupação com a notícia veiculada na sexta-feira sobre a morte do Departamento de Economia da Cultura do BNDES, comunicada aos funcionários pelo presidente do banco, sr. Dyogo Oliveira… ELAS ESTRANHAM que a presidência do banco, ao extinguir o departamento de cultura, demonstre desconhecer que a empresa de consultoria PricewaterhouseCoopers coloca a indústria do entretenimento e lazer cultural entre as três maiores cifras de negócios do mundo – quase US$ 2 trilhões… LEMBRAM QUE a cultura brasileira, mesmo nesse quadro gravíssimo de crise econômica, é um dos setores mais dinâmicos da economia nacional, está em franca expansão, gera quase 1 milhão de empregos e sua participação no PIB é de 1,2% a 2,6%. Sem esquecer sua dimensão simbólica… OS SIGNATÁRIOS concluem, expressando sua confiança de que o BNDES esclarecerá essa notícia e que o Departamento da Economia da Cultura do banco continuará promovendo o desenvolvimento da indústria… EM SUA RESPOSTA, o sr. Dyogo Oliveira só fez acentuar a impressão de desinformação sobre esses fatos, confundindo política de Patrimônio Histórico com política de financiamento à Industria Criativa Cultural… O QUE ISSO SIGNIFICA? Que o BNDES está apenas sendo coerente com o Projeto Novo Brasil – vamos chamá-lo assim – que desmonta o país e aniquila qualquer possibilidade de desenvolvimento intelectual do povo brasileiro, e faz estagnar toda iniciativa que promova a inclusão social… UMA ANIQUILAÇÃO de terra arrasada, um retrocesso, não ao tempo do Governo Getúlio Vargas, com essa “releitura” grosseira de suas CLT, mas à própria Abolição da Escravatura, pois torna os pobres, negros na maioria, reféns do capital e totalmente escravizados pela ausência de instrumentos que promovam alguma justiça social… ESSE PROCESSO vem se desenvolvendo desde o início deste governo, quando foi anunciada a extinção do Ministério da Cultura, ato que só foi revertido após forte posicionamento da classe artística brasileira, em uníssono, ocupando instalações do ministério e exigindo respeito para o setor. Assim, o MinC foi mantido, aos barrancos e trancos, com o atual orçamento pífio… CONCOMITANTE A ISSO, lançaram, logo nas semanas pós impeachment, e aprovaram, uma reforma do ensino básico, em que inicialmente só eram obrigatórios o português e a matemática!… OS ESTUDANTES REAGIRAM, ocuparam escolas públicas, e a nova grade curricular passou a incluir inglês (antes podia-se escolher entre ele e o idioma espanhol, agora, não mais), filosofia, sociologia, artes e educação física, com o foco maior de preparar para o ensino técnico… SEM DISCUTIR com a sociedade, com um conteúdo didático prejudicado, para a revolta e o protesto da sociedade civil, pais, alunos e professores, que pediram a rejeição da Medida Provisória, enquanto antigos ministros da Educação previram, com essa reforma, um grande risco de se ampliarem as desigualdades de oportunidades… DEPOIS, VEIO o corte drástico de recursos para toda e qualquer pesquisa científica. Veio a campanha contra as universidades públicas, reduzindo-se drasticamente seus recursos, e até criminalizando reitores… AGORA, O BNDES, tido c omo “a mãe da cultura brasileira”, tradicional impulsionador da nossa indústria criativa, sai de campo e deixa o setor desguarnecido de patrocínios e financiamentos… FAZ REFLETIR que o que se pretende são novas gerações de brasileiros com nível raso de informação, sem interesses culturais abrangentes, reduzidas à perspectiva de um futuro ensino técnico, quando muito… NADA A ESTRANHAR. Apenas estão sendo sinceros em seus objetivos de desconstruir o Brasil, pois é sabido que “a cultura constrói uma Nação”. Sem cultura, sem ciência e com uma instrução incipiente, o que esperar do Brasil?… ELEMENTAR: UM PAÍS com poucas cabeças pensantes, país vassalo, sem deter patentes, 100% dependente do conhecimento importado… UM BRASIL consumidor da produção cultural estrangeira. Com o setor de audiovisual totalmente dominado por produções em inglês (daí a serventia de falar o idioma?)… E VOLTANDO AO BNDES, colocar na mesma “caixinha” as suas políticas para a preservação do Patrimônio Cultural e as de uma pujante indústria criativa é, perdoe-me dizer, falta de cultura. Ou ojeriza a ela…