
Neo-pentecostais chiaram, conservadores católicos endossaram e o obscurantismo que assola o Brasil apedrejou o desempenho de duas de nossas maiores atrizes, magníficas e sublimes, Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro – “Globo de Ouro” nos Estados Unidos. A arte imita a vida e vice-versa. A função é esta. E poucos como Gilberto Braga o fazem com tal nobreza e sensibilidade. Tem sido enxovalhado. Este é o retrato do novo Brasil do retrocesso cultural, social e político.
Criticar a novela Babilônia até já saiu de moda. Como se as pessoas tivessem se cansado de chutar o cachorro morto ou se já tivesse passado a temporada de malhação do Judas. Ficou decidido que a novela é ruim, não tem salvação e, pior, que o autor, Gilberto Braga, é promissória vencida.
Com a mesma velocidade com que uma perua fútil troca de bolsa Louis Vuitton a cada estação, a mídia especializada em TV e dramaturgia praticamente concorda com as premissas acima, sem refletir sobre sua própria responsabilidade diante do cenário monstruoso que se delineia para a cultura brasileira, sob o beneplácito de sua passividade cega.
Cegos e desmemoriados aqueles que ignoram o talento extraordinário e a sofisticada sensibilidade do autor de novelas como Dancin’ Days, Água viva, Brilhante, Louco amor, Corpo a corpo, O dono do mundo, Pátria minha, Força de um desejo, Vale tudo, Celebridade, Insensato coração e Paraíso tropical, que lhe valeu um prêmio Emmy. Autor dos seriados Anos dourados e Anos rebeldes.
Não há como um artista desse nível de refinamento criativo, já demonstrado, provado e comprovado, da noite para o dia despir-se de sua conhecida aptidão de se identificar com seu público, testá-lo, cativá-lo, exercer sobre ele domínio pleno, através de suas tramas irresistíveis, talentos que Braga sempre exerceu com maestria.
Não, não foi Gilberto quem mudou. Ele permanece íntegro e preservado em sua sensibilidade. Afinal, o escritor Gilberto Braga é uma espécie de Maria Bethânia das novelas. Seu ritual de vida é tal e qual o da cantora, que permanece anos a fio encaramujada em sua casa do Joá, sem dar as caras nos eventos sociais, sem dar entrevistas, sem dar pinta na TV, sem dar opiniões na mídia sobre isso ou aquilo, para ressurgir fabulosa no momento certo de uma nova temporada de shows ou no lançamento de novo CD.
Gilberto, que não sai quando está escrevendo os capítulos das novelas, é visto ainda menos entre um e outro trabalho. Sua vida é se abastecer com livros, filmes e músicas, alimentando ininterruptamente sua sensibilidade de escritor, convivendo com amigos poucos, na maior parte das vezes em suas próprias casas, no Rio e no exterior. Não há como ele desgastar o talento na muvuca social. É espartano.
O que mudou foi o país, que no último ano ou um pouco mais, da última campanha eleitoral para cá, tornou-se retrógrado, obscurantista, conservador, falso moralista, preconceituoso. Caindo por terra, em tão pouco tempo, as conquistas sociais que levaram décadas para serem construídas: nas questões da mulher, da homofobia, dos preconceitos raciais e sociais, da liberdade de expressão.
Retrocessos do pensamento e da discussão política, quando não se permite a diversidade, quando se exige o pensamento único.
Quando o voto diferente distancia amigos, parentes, vizinhos.
Um Brasil estranho, sem luz, sem cor, sem felicidade. Que apedreja saias brancas por girarem o nosso tão inspirado sincretismo ao som dos atabaques. Que destrói tumulo de Chico Xavier, tortura e mata médiuns, incendeia terreiros.
Um Brasil que louva mulheres sem decote, com mangas e saias longas, roupas escuras, sem maquiagem, coque pra trás. O Brasil do obscurantismo.
Então, rejeitam o beijo de duas das maiores atrizes que há na cena brasileira! Mas será que rejeitam mesmo ou a rejeição foi da mídia imediatista e manipuladora? Que precipitação, quanta tolice e falta de personalidade, submeter-se ao estardalhaço de feicebuquis. Falta fez um executivo experiente e de pulso num momento desses.
Então, uma Glória Pires ninfomaníaca vira casta. E a Dira Paes “você não vale nada mas eu gosto de você”, a Norminha de Caminho das Índias, no Brasil de hoje certamente seria retirada da trama.
E a Isis Valverde, maravilhosa como Maria Chuteira de Avenida Brasil, tirando a roupa dia sim, dia também? Hoje, seria apedrejada por alguma seita neo-pentecostal de nome esquisito. A novela teria que ser modificada. Ora, façam-me o favor!
E por que a Sophie Charlotte não pode ser prostituta? Qual o problema? Prostituta é leprosa da Idade Média por acaso? Tem que andar com guiso nas pontas dos dedos?
Que novo Brasil horrendo é esse que a campanha eleitoral despejou em nossas vidas? Com suas marchas vestidas com camisetas da CBF, uniformes de exército camuflados, caras velhas pintadas e as ditas seitas evangélicas – mais bem articuladas politicamente, ocuparam hoje os espaços do retrocesso religioso, antes dos radicais católicos, porém com um nível de intolerância jamais praticado.
Que filme de terror é esse, que os objetivos políticos de alguns, usando inclusive a fé alheia (boa fé) e o projeto de dominação de terceiros inseriram em nossa terra com palmeiras onde cantavam sabiás?…
Não cantam mais…
Voltem a cantar, eu lhes peço.
Menos atraso e mais futuro. Mais liberdade. Mais Gilberto.
O insucesso de Babilônia é o retrato do novo umbigo do Brasil: disforme e retalhado pelo obscurantismo
Obrigada.