Eu, que respirara aliviada quando vi que, apesar das demolições à sua volta e dos tapumes e placas indicando obra grande prestes a começar, a “casinha de bonecas” histórica da Lagoa Rodrigo de Freitas, na esquina da Maria Quitéria com Epitácio Pessoa, mantinha-se ‘impávido colosso’, acabo de constatar que o tapume agora a cerca também, numa clara indicação de que, em breve, ela também cairá por terra!
Triste a sina deste Rio de Janeiro em que sua História vai ao chão ao golpe das marretas.
Talvez as marretas não saibam que aquela casinha com ar tão inocente e singelo foi cenário e ponto de encontro dos bastidores e das articulações políticas da Era Vargas.
Por ela passaram, não só as baforadas dos charutos do próprio Getúlio, como também ali praticamente dava plantão seu irmão, Lutero Vargas, amigo dileto e íntimo do professor Roberto Accioli, proprietário do imóvel.
Accioli, que foi secretário de Educação, era um tradicional getulista, saudoso historiador e latinista, professor emérito do Colégio Pedro II, que por várias vezes dirigiu, e diante de sua casa emblemática de Ipanema há a minúscula pracinha que guarda o nome de seu pai, Professor José Accioli, bem como uma ânfora preciosa esculpida em mármore de Carrara.
Essas reminiscências da História do Brasil, as idas de Getúlio àquela casinha, que se manteve sempre branca, as vigílias de Lutero, varando madrugada, articulando e discutindo política com o professor Accioli, os passeios do professor do Pedro II e uma das personalidades mais populares de Ipanema dos anos 50, 60 e 70, dando suas voltas de mãos dadas com a mulher, Maria, ele sempre de calção, chinelos e com seu chapéu de palhinha, isso tudo se perderá.
Assim como ninguém entenderá por que aquela pracinha ali, com aquele nome… Nem saberá que os Accioli eram os clientes mais antigos e assíduos do Bar Lagoa, com mesa cativa lá, todas e todas as noites, ao longo de décadas e décadas. Os dois apenas, apaixonados sempre, vez em quando levando a filha única, Lucia Marina, e a Maria José, a cria da casa, amiga, funcionária, um tudo deles, mais do que família.
Ao som da marreta, aos golpes violentos dela, será partida, demolida, destruída, a história do bairro, da cidade, um pedacinho da memória da nossa República, que ficará perpetuada apenas nos pensamentos do professor Roberto Accioli registrados em seus livros de História.
Que pena!
Espero que o prefeito Eduardo Paes, apesar de jovem, sensível; apesar da vivência pouca, atento aos fatos; tenha tempo de segurar, mesmo que no ar, mesmo que no ato, esta marreta destruidora de nosso passado, e impeça esse prejuízo para a doce Ipanema a caminho do mar.
E a Secretária de Urbanismo, Maria Madalena Saint Martin de Astácio, o Patrimônio, o Instituto Pereira Passos, também se apiedem da “casinha de boneca” em cujo canteiro da calçada o professor de chapéu Panamá plantou, cultivou e cuidou do mais lindo dos bouganvilles da Lagoa…





















































