Um passeio pelas maiores coleções de arte do Rio de Janeiro, levados pela mão e a fala de Evandro Carneiro

A Academia Brasileira de Arte encerrou com mesa redonda no Pen Clube seu Ciclo de Conferências comemorativo dos 450 anos da Cidade do Rio de Janeiro. O tema Design, Coleções e Memória da Moda foi  abordado, respectivamente, pelos acadêmicos Victor Burton, designer considerado nosso maior capista; Evandro Carneiro, renomado colecionador, e esta Hilde dedicada à implantação da Casa Zuzu Angel de Memória da Moda do Brasil.

Burton discorreu de improviso, estabelecendo uma polêmica instigante em torno da comparação entre os símbolos do 4º Centenário do Rio de Janeiro e dos 450 Anos do Rio.

Evandro Carneiro levou uma interessante palesta escrita, servindo de guia a comentários de improviso, que eu confisquei após a apresentação e resumo aqui para vocês. E é óbvio que eu quero compartilhar com meus leitores esse mapa ilustrativo do colecionismo, muito bem comentado pelo grande especialista.

O Pen Clube situa-se em triplex em prédio antigo na Praia do Flamengo, legado à instituição por um antigo membro, em testamento. As paredes são revestidas com azulejos portugueses da primeira metade do século 20. Naquele último andar morou, em fase de dificuldade, o escritor, conferencista, tradutor e imortal das letras Antonio Carlos Villaça, personalidade de hábitos monásticos, que deixou registrado em uma de suas obras o fascínio que a bela vista da Praia do Flamengo exercia sobre ele: “E me debruço na varanda e olho o mar. Vejo Niterói, ao longe. Vejo a brancura de Icaraí. Vejo a ponte Rio-Niterói.”

Vamos à palestra resumida do colecionador Evandro Carneiro:

evandrocarneiro

Evandro Carneiro fala no Pen Clube sobre As Grandes Coleções de Arte Formadas no Rio de Janeiro nos Últimos 50 Anos

Avisando que vai ultrapassar as fronteiras de sua pauta – as grandes coleções de arte formadas no Rio de Janeiro nos últimos 50 anos – e falar sobre outras coleções de arte, Evandro discorre sobre o que motiva um colecionador de obras de arte. Ele lembra o marchand Thomas Cohn, que declarou: “Minha coleção reúne trabalhos que me incomodam e me desafiam, têm alguma coisa na qual eu não consigo penetrar”. Cita a visão de Sérgio Fadel, que declara: “colecionar obras de arte é uma questão afetiva, à medida que o colecionador se envolve e se relaciona com cada obra, numa simbiose de emoção, sentimento e amor” Já para Adolfo Leirner “colecionar é um prazer individual, uma relação de afetividade com as obras que fazem parte do meu espaço”.

Observa o também colecionador Evandro: “Colecionar arte é uma aventura que envolve prazer, afeto, desafios, mistérios, descobertas, emoções, investigação, critérios e, quando a coleção é apresentada em espaços culturais, envolve a dimensão da interação com o público”.

Evandro avalia que a afetividade é determinante na formação das coleções de arte brasileiras. As aquisições pressupõem, além do conhecimento da obra, o do seu autor, nascendo daí laços de amizade duradouros de colecionador e artista.

Sem esquecer que comprar uma obra de arte é  um investimento que, na grande maioria dos casos, oferece retorno para seu investidor. Ele discorre a respeito. As pinturas de Portinari dos anos 40, da melhor fase do artista, podem passar do milhão de dólares. O valor dos quadros de Di Cavalcanti dobrou nos últimos 10 anos. Um Guignard que valia 50 mil dólares no início dos anos 90 hoje está avaliado em 500 mil dólares. E mesmo uma artista mais recente, como Mira Schendel, já tem obras vendidas acima de 200 mil dólares nos EUA e na Europa. Trabalhos de Lygia Clark têm sido vendidos a 2 e 3 milhões de dólares.

Os valores milionários de obras de arte, afirma Evandro, projetam algumas coleções de arte, como a do colecionador argentino Eduardo Constantini, que comprou um autorretrato de Frida Kahlo e a famosa Abaporu, de Tarsila do Amaral.

A história das coleções no Brasil, explica o orador, começou com a Missão Artística Francesa, no reinado de Dom João VI, que trouxe com ela obras adquiridas por Joachin Lebreton na França, que ainda podem ser vistos no Museu Nacional de Belas Artes, somadas àquelas deixadas por dom João VI, quando voltou para Portugal.

Pode-se dizer que foi dom Pedro II quem deu início à atividade de colecionar no Brasil, como grande patrono das artes, visitando salões oficiais e exposições de artistas, adquirindo obras, conferindo bolsas de estudos na Europa para nossos talentos.

Do imperador coroado, Evandro passa aos coroados do dinheiro: as grandes organizações financeiras que abrigam suas próprias coleções de obras de arte, e exemplificou com a Brasiliana Itaú, iniciada na década de 70, tornando-se “a mais abrangente coleção de quadros e objetos de cunho histórico, livros raros, desenhos, aquarelas, gravuras, mapas, documentos, manuscritos e fotografias do Brasil”.

Um acervo com mais de cinco mil peças, além da coleção de mestres modernos.

O grupo Moreira Salles também demonstra “uma postura responsável”, patrocinando e colecionando acervos memorialísticos, como fotos e discos da MPB. Bem como o Banco Central, que na condição de credor de instituições falidas ou extintas do sistema financeiro, tornou-se, desde os anos 70, guardião de suas inúmeras obras de arte. O acervo mais importante reunido pelo Banco Central é o da Galeria Collectio que reúne Tarsila, Bonadei, Ismael Nery, Volpi VRM, Mary Vieira, Di Cavalcanti, Portinari. O destaque do acervo do Banco Bozano Simonsen, formado a partir da década de 70, é a coleção ECO ART, de obras de latino-americanos dedicadas à temática da Ecologia e preservação da natureza. Evandro faz um raio X completo das artes em nosso mudo financeiro.

E enfim Evandro Carneiro chega “às importantes coleções formadas em terras cariocas”. Dá prioridade à coleção de Hecilda e Sérgio Fadel, de 1.500 obras. Relata que ela “ocupa três apartamentos no bairro do Leme, incluindo o chão e os banheiros e é a única que cobre nossa História da Arte, com talvez o mais importante conjunto do Século XIX”.

“A coleção abrange peças da época do Brasil Holandês até o Século XXI. Sua guarda tornou-se muito custosa e por isso seu proprietário busca um local para ambientar esse valioso acervo”, relata, lamentando que “as tratativas com o MAR, ainda na fase de implementação do museu, não prosperaram”.

No entendimento de Evando “sem dúvida, o destino desta magnífica coleção são as paredes de alguma instituição que venha a ser oferecida pelo poder público para receber acervo de tal importância”. E cita o marchand Jean Boghici: “Homens como Sérgio Fadel, que tornam públicas suas coleções através de edições e exposições, merecem incentivos por parte do Estado, em vez de ameaças de impostos castradores como, vez por outra, se vê nos jornais, mas que felizmente nunca se concretizaram”.

Passsemos à coleção de Roberto Marinho, “que, como a maioria das coleções particulares, reflete as preferências individuais do colecionador”.

“Apesar de existir desde as décadas de 30 e 40, a coleção começou de fato a crescer nos anos 70, quando foi iniciado o processo de expansão do conteúdo e do volume do acervo. Nessa coleção, o fator mais relevante é a concentração de obras de arte moderna nacional, figurativa e abstrata, do período que vai dos anos 30 até o final da década de 70. Roberto Marinho chegou a reunir 1.400 obras de arte, que foram divididas, certa vez, em 12 núcleos temáticos, para uma mostra no Paço Imperial do Rio de Janeiro: Abstratos, Flores, Paisagens, Retratos, Naturezas-mortas, Infância, Trabalho, Esportes, Fauna, Tapeçaria, Esculturas e Religião. A abrangência da coleção de Roberto Marinho vai felizmente permanecer exposta em sua antiga residência no Cosme Velho, onde deverá em breve funcionar o instituto Roberto Marinho, a ser dirigido por nosso confrade Lauro Cavalcanti”. Lauro, novo membro da Academia Brasileira de Arte, assiste à palestra na primeira fila.

A próxima coleção lembrada por Evandro é a do casal Maria Cecília e Paulo Geyer, que “reúne mais de 4 mil peças, entre livros, álbuns, pinturas, gravuras, litografias, desenhos, mapas móveis, trabalhos em marfim e objetos decorativos, como 200 pinhas de cristal e vidro, além da lanterna de prata que adornava a carruagem cerimonial do imperador Dom Pedro II”.

“Essa coleção, inclusive, foi tombada como bem patrimonial federal no ano passado, durante a 77.ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio e foi doada ao Museu Imperial de Petrópolis, incluindo a mansão de ambos no Cosme Velho, que será transformada em uma subunidade do museu petropolitano. Os dirigentes do Museu trabalham para que a coleção e a casa do Cosme Velho estejam disponíveis para visitação pública em abril de 2016” – Evandro dá a boa notícia para júbilo da plateia. A casa dos Geyer é vizinha à de Roberto Marinho, serão dois magníficos centros culturais, lado a lado.

Ele lembra o admirável Raymundo Castro Maya, “que, além de seu acervo, doou suas duas residências, com tudo que nelas havia: pinturas, gravuras, desenhos, aquarelas, livros, móveis, tapetes, arquivos, documentos, esculturas e toda a prataria”.

Dá o exemplo do Museu Casa do Pontal, que abriga coleção de arte popular brasileira mais significativa do país, “um museu inteiramente concebido e construído por seu proprietário, o designer francês Jacques Van de Beique, com cerca de oito mil peças de 200 artistas brasileiros, produzidas a partir do século XX, garimpadas por Jacques em 40 anos de viagens e pesquisas por todo o Brasil”.

Entusiasmado, Evandro rompe a barreira dos 50 anos pra trás de sua pauta e discorre sobre acervos de artistas importantes de outros países: “A maior coleção individual de obras do pintor francês pré-impressionista Eugène Boudin pertenceu ao barão do café de São Joaquim, José Francisco Bernardes, que comprou 20 telas doa artista em leilões em Paris e depois a doou ao Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Trata-se do maior conjunto de obras de Boudin reunidas numa instituição fora da França, bem como o Museu Castro Maya possui a mais completa coleção de Debret”.

Ele revela que algumas coleções já nascem com critérios mais rigorosos, evitando a necessidade de fazer reformulações no futuro. “Esse é o caso da coleção de gravuras de Monica e Georges Kornis, da coleção de arte incomum de Guilherme Guttman e da coleção de fotografias de Joaquim Paiva, esta também em sistema de comodato no MAM – RJ”.

Animadíssimo, o palestrante também ultrapassa os limites do Rio de Janeiro, destacando “a grande novidade da coleção de Bernardo Paz, que criou, na cidade mineira de Brumadinho, o Inhotim, maior museu de arte contemporânea do mundo, onde Bernardo abriga magnífico acervo de grandes instalações e obras contemporâneas”.

Vai ao Pernambuco, onde está a coleção de Ricardo Brennand, “empresário dono de fábricas de vidro, aço, cerâmica, cimento, porcelana e açúcar, ele vendeu suas fábricas de cimento em 1999, utilizando parte dos recursos para fundar o Instituto Ricardo Brennand, que foi inaugurado no segundo semestre de 2002”. Relata que “o acervo do Instituto inclui objetos históricos e artísticos de diversas procedências, abrangendo o período que vai da Baixa Idade Média ao Século XX, com destaque para a documentação histórica e iconográfica relacionada ao período colonial e ao Brasil Holandês. O acervo inclui uma importante coleção de pinturas de Frans Post (1612 – 1680), que foi um dos artistas integrantes da comitiva do conde Maurício de Nassau, fundador da colônia de Nova Holanda em Pernambuco”.

A conclusão de Evandro é de que o destino inexorável das grandes coleções de arte são os grandes museus públicos, “o que transforma o patrimônio individual em patrimônio de toda a sociedade”. Dá como exemplos “a magnífica coleção de Gilberto Chateaubriand, doada em comodato ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro desde a década de 80, e a coleção de Arte Construtiva, Moderna e Contemporânea de João Sattamini, cedida à guarda do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, instalada no belo prédio de Oscar Niemeyer”.

Grandes coleções pedem grandes espaços e pessoal especializado para sua manutenção. “Alguns dos mais importantes museus do mundo, foram criados justamente para abrigar coleções de arte doadas por seus proprietários, como o Whitney e o Guggenhein em Nova Iorque, o Museu Hirschhorn em Washington, o Museu Picasso de Paris, e o nosso Museu de Arte Contemporânea, da USP, formado pelas coleções de Ciccillo Matarazzo e Yolanda Penteado”, informa.

A aula de colecionismo prossegue: “À medida que uma coleção se desenvolve, a qualidade do acervo reunido se confirma pelas constantes solicitações de museus e instituições culturais para a realização de exposições. Surge então a percepção de que a coleção é um bem cultural do país – e não apenas o patrimônio de um indivíduo. E assim nasce a ideia de que a coleção deve ser vista por um público cada vez maior”.

“Esta consciência do valor cultural de uma coleção inaugura um processo de revisão e de reformulação dos critérios que deram origem à sua formação. Começa então um novo ciclo de aquisições de obras, destinado a cobrir lacunas, relacionadas com os diversos períodos da história da arte ou relacionadas com as diferentes fases da trajetória específica de um artista. Quando a coleção passa a ser considerada completa, digamos assim, é natural o impulso de doá-la para um museu ou instituição, e neste processo pesam inclusive os custos de manutenção física do acervo, que não são pequenos”.

Ficamos sabendo que a coleção de Gilberto Chateaubriand, que está em comodato no MAM do Rio, tem sido hoje a principal fonte da programação daquele museu, pela sua diversificação, permitindo exposições que fazem recortes de diversos aspectos, como o corpo humano, a arte concreta e neoconcreta, a busca de uma identidade brasileira e os conflitos urbanos, para mencionar apenas alguns deles, explica Evandro. “Diversos outros museus, instituições culturais e empresariais também promovem exposições de recortes da coleção de Chateaubriand, confirmando seu valor histórico, artístico e cultural”.

Segundo dito por Gilberto Chateaubriand, prossegue Evandro em seu relato, “as apresentações públicas da sua coleção cumprem “a importante função de educar o olhar brasileiro para a arte contemporânea”. Ainda segundo Gilberto, “a arte é um dos instrumentos mais eficazes de aprofundamento do ser de um país, um dos termômetros da sua virtualidade e das suas potencialidades”.”

Evandro encerrou sua fala e guarda a conferência num envelope pardo (posteriormente devidamente confiscado, como sabem). Aplausos para ele, logo cercado pelos que queriam cumprimentá-lo.

A  tarde no Pen Clube do Brasil começou na varanda, com vista para o Parque do Flamengo – e que bela vista! – e terminou com cafezinho e petit fours, conversa amiga, de modo mais civilizado impossível. O convívio dos acadêmicos da arte é cordial e sempre enriquecedor. São discretos, opinativos, atualizados. Um privilégio estar perto.

2 ideias sobre “Um passeio pelas maiores coleções de arte do Rio de Janeiro, levados pela mão e a fala de Evandro Carneiro

  1. Prezada Hildo,Prezado Evandro,
    fiquei muito feliz encontrar esta site com informaçao sobre o Pen Clube.
    Sou Holandeiro (como Brasileiro) vivendo já mais que 20 anos em Brasil,que
    acho o melhor país do mundo.Nao me posso chamar colecionador , mas já
    tenho um boa coleçoa de pinturas,principalmente Brasileiros que me dao
    diariamente muito prazer.Tenho uma boa razao para fazer contato com o
    amigo Evandro,que imagino e especialista em reconhecer obras originais de
    obras falsos. A razao escrivendo isto sendo que tenho um numero de obras
    assinados Ismael Nery ,desenhos,aquarelas,nanquins e ost’s impressionantes
    que gostaria verificar com ele,para depois ver que posso fazer para resgatar
    se sao originais.Sera possivel marcar com ele para que venha a minha casa
    no Praia do Flamengo,tao pero do Pen Club ? Aguardo a sua resposta esperando
    uma noticia positiva. Desde já agradeço , cordialmente, Ernest Kretz.

  2. Prezada Hilde,
    obrigada pelo relato. Recentemente descobri que vc voltou a escrever seu lindo e interessante blog. Espero que de agora em diante teremos sempre as noticias do Rio, que tanto amo, aqui em Sao Paulo.
    Atenciosamente, Aurelia

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