EMERGÊNCIA MÁXIMA: O ESTADO E AS RUAS PRECISAM SENTAR-SE À MESMA MESA E PACTUAR A PAZ

Fui ontem ao MAR. Não gostei. Ao chegar, um PM queria impedir minha aproximação do museu, pois havia uma manifestação na porta, com inclusive pessoas de rostos cobertos, alguns black blocks, e muitos policiais militares em situação, indumentária e posição de combate.

O PM avisou: “Eles estão atirando pedras, já jogaram muitas pedras, podem atingir as senhoras”. Olhei ao redor e não vi sequer uma pedra no asfalto. O policial não devia estar dizendo a verdade. Fui em frente, com o broche espetado no tailleur preto, empunhando como escudo minha bolsinha e calçando meus scarpins. Eu e minha amiga. Rápidas, atravessamos manifestantes, batemos nas costas de mascarados para nos darem passagem, eles deram, desviamos de black blocs, tudo bem.

O que me deu medo foram os PMs, com seus elmos/capacetes a esconder os rostos, os coletes à prova de balas, o armamento, homens enfileirados lado a lado, formando uma parede impenetrável de escudos, lembrando um campo de guerra.

E eu lá, com minha bolsinha, meus scarpins, tailleur e broche, pedindo, “dá licença”, “dá licença”. Não tive medo dos vândalos, tive medo dos PMs.

Quando ultrapassei a barreira intransponível de escudos e capacetes, com meu look “mulherzinha confiável”, vi um homem jogado na calçada do MAR, cercado por policiais, parecia amarrado. Cena degradante. Minha amiga disse: “Acho que é um bêbado”. Não era, era um índio. Soube quando vi no YouTube que ele dizia palavras indígenas, no momento de sua prisão, não sei se de súplicas, de raiva, de protesto ou o quê.

Não sei também o motivo da violência contra ele. Sei apenas que isso precisa acabar. Sei que é emergencial sentar e fumar um cachimbo da paz com a sociedade. Sei que é preciso se firmar correndo um pacto com estes que invadem as ruas.

Sei que é preciso mais que depressa se designar representantes, de ambos os lados, que possam sentar-se à mesma mesa e conversar. Sei que precisamos discutir os pontos vários das reivindicações, definir quais são elas, traçar cronogramas e organogramas, pautas e calendários, promessas e dívidas. Objetivos e objetividades. Antes que tudo isso degringole para coisa nenhuma.

Temos, nós todos temos, independente do lado que frequentemos, uma prioridade comum: a Democracia. Bem precioso que precisa ser tratado com cuidado, delicadeza, atenção e zelo. Para que nenhum aventureiro lance mão. Está aí o mau exemplo egípcio como um alerta, depois do entusiasmo daquela exuberante Primavera Árabe.

Problemas, dramas, tragédias, erros a corrigir, temos sim, incontáveis, numerosos. Vamos resolvê-los. Pelo menos tentar.

Que o Estado do Rio de Janeiro seja o primeiro no país a tomar a iniciativa. Que as entidades civis se mobilizem. A Frente Pró-Rio, a Firjan, os sindicatos, OAB, Associação Comercial, universidades, academias em geral, associações de bairro etc. Que os cabeças dos gritos das ruas se apresentem, os Black Blocs, os Rafuckos, enfim, quem mostra a sua cara. E também quem a esconde. Os partidos políticos. Os poderes constituídos no Estado. Vamos sentar, conversar, fazer acordos.

E quem se negar a isso, que sejam divulgados os nomes. São eles, certamente, os manipuladores do caos em nome das conveniências próprias. Aqueles que desejam tirar proveito das indignações do povo em benefício de ambições políticas (ou outras) pessoais. Os “puxadores de tapete” profissionais. Os golpistas “sempre alertas”, em plantão permanente. Que sejam identificados e excluídos desse processo.

Mas, por favor, não queremos mais ver nem índio, nem branco, nem negro, nem estudante, nem policial, nem artista, nem ninguém machucado, humilhado, maltratado, amarrado ou jogado num canto de uma calçada cercado de meganhas. Em nome de nada.    

O evento de ontem no MAR era uma recepção aos participantes da 23ª conferência anual do Conselho Internacional de Museus – ICOM, órgão da Unesco, que desta vez acontecia no Rio.

Um evento de suma importância para a cultura do Rio de Janeiro, do Brasil. Um privilégio disputado por qualquer cidade do mundo, sediar esse encontro, que reúne entre nós os mais importantes nomes da museologia, da História, da Memória, em todo o Planeta.

O governador e o prefeito convidavam juntos, mas não foram. Os manifestantes julgavam que eles lá estavam. E gritavam graves desacatos, ofensas, palavras feias, que ecoavam lá em cima, na laje do MAR, onde os convidados, estrangeiros e brasileiros, testemunhavam o constrangimento.

A Secretária de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, Adriana Rattes, era anfitriã. Estavam presentes, o presidente do IBRAM, Angelo Oswaldo de Araújo Santos; do IPHAN, Luiz Fernando de Almeida; do ICOM, Hans-Martin Hinz; a diretora de Museus do Estado do Rio de Janeiro, Mariana Várzea; a diretora do IBRAM, Eneida Braga Rocha.

3 ideias sobre “EMERGÊNCIA MÁXIMA: O ESTADO E AS RUAS PRECISAM SENTAR-SE À MESMA MESA E PACTUAR A PAZ

  1. Sra. colunista,
    Obrigada por alertar as pessoas que não tem participado das manifestações sobre o que vem acontecendo desde o início de Junho: para reprimir e encerrar os protestos populares, a polícia alega que existem manifestantes agindo com violência e parte pra cima de todos os participantes (e até de pessoas que não tem nada a ver com o protesto) com extrema truculência e brutalidade.

    Assim como você viu ontem, todos nós vemos que a quantidade de força empregada pela PM tem sido vastamente desproporcional à suposta “ameaça” apresentada pelos manifestantes.

    Eu tenho participado dos protestos e assim como ontem você não viu pedras sendo atiradas, eu também não tenho visto as pedras, bombas caseiras e o comportamento violento narrado pela polícia e repetido à exaustão pela mídia tradicional.

    Nestes dois últimos meses, as poucas pedras que vi miravam pontualmente umas poucas vitrines de bancos privados – você pode achar esse tipo de ação condenável, violento; mas se for questionada e tiver que escolher entre Pessoas que quebram Coisas e POLICIAIS QUE QUEBRAM PESSOAS, acredito que você apoiaria o primeiro grupo, mesmo discordando de seu método de protesto.

    Acredito que ninguém, em sã consciência, diria que pra garantir a integridade física das vitrines dos bancos, os policiais devem atacar a integridade física dos manifestantes.

    O dever do Estado é garantir os direitos da população, e quando os direitos de diferentes grupos são confrontados, o dever do Estado é mediar esse impasse.

    Atualmente o direito de alguns de fechar uma rua em protesto vai de encontro ao direto de outros de passar pela rua em questão. A solução não é militar, não é policial, nem passa pelo uso da força. A solução vem da abertura dos governos federal, estadual e municipal à tríade da Revolta do Vinagre: mais Transparência, Diálogo, e Participação popular em todas as etapas das políticas públicas.

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