Em Milão, no Palazzo Clerice, com tetos de Tiepolo…

Vocês sabem que minha recente visita à Itália, mais precisamente a Milão, teve um único objetivo: fazer uma palestra sobre o trabalho desenvolvido pelo Instituto Zuzu Angel, primeira Ong de moda de nosso país, e falar sobre a moda, a vida e a obra de Zuzu Angel, e também sobre seu filho militante político, Stuart, meu irmão, ambos mortos pela ditadura…

Fui a convite do Ibrit, Istituto Brasile Italia, um espaço de transmissão de conhecimentos e de discussão sobre o Brasil, belissimamente instalado no Palazzo Clerici, um prédio do século 18, na Via Clerici, com os tetos pintados por Tiepolo. Lá, mantendo uma programação intensíssima, além de biblioteca com títulos brasileiros, há espaços para aulas e conferências, cada vez mais concorridos, pois o interesse pelo Brasil só faz aumentar…

E, meus amores, confesso que fiquei surpresa, e também encantada, por encontrar a sala de conferência cheia, em torno de 50 pessoas. Pois, afinal, o que teria uma brasileira a falar sobre moda que despertasse interesse nos italianos, que desse assunto conhecem o direito, o avesso, a bainha e o cós?! E não eram quaisquer italianos. Estavam lá, para citar alguns, Anthony Saccon, diretor de negócios e projetos especiais da Armani; Rosane Chinarelli, do escritório de estilo da Gianni Versace, responsável pelas bijuterias da marca; Francesca Bianco, da Jean Paul Gaultier, marca que na Itália é ligada à Alberta Ferretti; a jovem jornalista de moda Delphine Hervieu, editora de moda da Grazia.it . Vi também estudantes de moda do Istituto Marangoni e do Ied, cineastas participantes do Festival Brasil Cinema Contemporaneo, que naquela semana acontecia em Milão, bem como o diretora do festival, Regina Nadaes, e o diretor do filme Elvis & Madonna, exibido com sucesso, Marcelo Laffitte. E isso para citar alguns…

Fui recebida com grande carinho pelo nosso cônsul-geral em Milão, Luiz Henrique da Fonseca, sua mulher, Solange, e pelo diretor executivo do Ibrit, Marco Antonio Ribeiro Vieira Lima, que, junto com o cônsul, me apresentou ao público com grande simpatia…

Aí, meus amores, foi aquele salto sem rede. Pois, depois de passar três meses tentando escrever a palestra, concluí, na própria semana de minha partida, que, como conheço essa história de cór e salteado (afinal, é a história da minha vida), o melhor era falar de improviso – e assim fiz. Peituda, não? Por isso, não posso nem dizer que foi uma conferência ou uma palestra. Foi tipo um desabafo, o relato de uma história pessoal, em que eu ora ria e gargalhava ora chorava, uma quase terapia de grupo, com todos ajudando, demonstrando seu visível interesse, silenciosos na sua participação, imóveis em seu envolvimento…

E fui lembrando de coisas do passado que há muito havia esquecido, fatos que considerava deletados, frases de minha mãe, episódios de sua vida, e tentando reproduzir para aquele grupo de amigos (pois àquela altura já via a todos dessa forma) alguns momentos dela que tão bem ilustram sua personalidade única…

Como, por exemplo, quando ela se deu conta de que estava sendo seguida, vigiada, fosse na calçada diante de sua casa fosse diante de sua loja, e ela, em vez de se atemorizar, fazia piada: “Acho que tem um homem apaixonado por mim. Em todo lugar que vou, ele me segue, vai atrás”, e dava uma boa risada, no que era acompanhada pelos que a escutavam. Todos sabiam, ela inclusive, do grande risco que corria, mas não resistiam ao inusitado daquela coragem alimentada com tanto humor…

Fotos de família, fotos da moda Zuzu, fotos dela, frases, tudo isso era mostrado na tela, enquanto eu falava. Ao final, fui cercada de carinho, uma transbordante afetividade geral e elogios que me vinham como afagos, além de comentários sobre a moda Zuzu Angel. Saccon, da Armani, disse: “Vocês têm que produzir essas camisetas, em muitas cores, elas têm o look do momento”…

Trocamos cartões, palavras, considerações e eu voltei pra casa livre, leve, solta e certa de ter cumprido, mais uma vez, minha missão de jamais deixar ser esquecida a história de Zuzu e Stuart Angel, mãe e filho, 35 e 40 anos de morte de cada um, completados neste ano de 2011…

Palestra Hilde 2 Em Milão, no Palazzo Clerice, com tetos de Tiepolo...

Palestra Hilde 4 Em Milão, no Palazzo Clerice, com tetos de Tiepolo...

Palestra Hilde 5 Em Milão, no Palazzo Clerice, com tetos de Tiepolo...

A palestra no Ibrit foi de modo descontraído, o relato de uma vida, como se eu simplesmente contasse uma história, a minha própria história…

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *