Sobre Hildegard Angel

colunadahilde@gmail.com Hildegard Angel é uma das mais respeitadas jornalistas do Rio de Janeiro. Durante mais de 30 anos foi colunista no jornal O Globo, quer cobrindo a sociedade (com seu nome e também com o pseudônimo Perla Sigaud), quer cobrindo comportamento, artes e TV, tendo assinado por mais de uma década a primeira coluna de TV daquele jornal. Nos últimos anos, manteve uma coluna diária no Jornal do Brasil, onde também criou e editou um caderno semanal à sua imagem e semelhança, o Caderno H. Com passagem pelas publicações das grandes editoras brasileiras - Bloch, Três, Abril, Carta, Rio Gráfica - e colaborações também em veículos internacionais, Hildegard talvez seja a colunista social com maior trânsito

Despedindo de Paulo Henrique Amorim, o brasileiro indignado que chutava a canela do gigante adormecido

Morreu Paulo Henrique Amorim, o jornalista da democracia, luz nas trevas, coragem entre os pusilânimes, verdade nesta era das mentiras.

Paulo Henrique Amorim, no cenário de seu Conversa Afiada

Tempos atrás, assisti, no programa Domingo Espetacular, do jornalista Paulo Henrique Amorim, a uma reportagem muito curiosa sobre um corpo mantido a baixíssima temperatura, numa funerária de São Gonçalo, guardado num caixão de zinco. Tratava-se de um senhor morto, cujas filhas brigavam na justiça com a irmã caçula, que pretendia levá-lo para Michigan, nos Estados Unidos, onde repousaria numa empresa de criogenia, ao lado de milhares de outros cadáveres congelados anos a fio, aguardando para serem um dia ressuscitados. Paulo Henrique abria a reportagem, propondo: “Imagine morrer e voltar à vida graças ao avanço da ciência.”

Paulo Henrique Amorim se foi hoje, levando consigo o calor de sua luta emuladora. E nós aqui ficamos, condenados ao congelamento de uma crescente apatia, à ausência de expectativas e à paralisia diante do enredo de horrores do cotidiano brasileiro. Sem qualquer perspectiva de quando ressuscitaremos desse pesadelo.

O bravo Paulo Henrique, infatigável combatente contra o oligopólio da mídia e os mercenários da mentira, fidalgo das palavras, destemido sem limites, era o brasileiro indignado que chutava a canela do gigante adormecido; o infatigável ferrinho de dentista, escarafunchando o poço sem fundo das sujeiras do Brasil; o ferrenho defensor de causas boas, até o máximo limite da bravura.

Paulo Henrique dizia e escrevia com as tintas da indignação corajosa. Um ‘quixote’ embriagado pela lucidez, que o levava a desafiar, sem medo, moinhos poderosos. Isso lhe valeu incontáveis processos, sentenças duras e dispendiosas, ira, despeito, ressentimentos e perseguições. A última delas foi seu afastamento da Rede Record, onde há 10 anos comandava, com sucesso, o melhor programa daquela emissora, que como retribuição usou o valente Paulo Henrique como moeda de troca com o atual governo.

Foi o primeiro dos blogueiros independentes, abrindo caminho para os demais, que hoje se multiplicam na rede. Morreu em casa, de infarto, na madrugada em que os parlamentares negociavam na Câmara, sem qualquer pudor, seus votos para a nefasta Reforma da Previdência, que condena milhões de brasileiros pobres à miséria. Paulo Henrique morreu envenenado pelas indignidades desse Brasil de trevas.

O brilhante Paulo Henrique Amorim será para sempre lembrado com respeito e admiração. Um jornalista sensacional, um grande democrata! Foi-se um militante da verdade nesta era de mentiras.

“Cada ato desse desgoverno é uma pulsão de morte, é uma perversidade sádica…”

Os nervos nacionais alcançam temperatura máxima. O Maracanã vaia Bolsonaro; uma apresentadora de TV apoia o trabalho infantil; uma autora de novelas famosa aplaude o perfil de fake news Pavão Misterioso; o Ministro da Justiça anuncia férias com seis meses de governo; o deputado filho do Presidente da República é fotografado ao lado de Sílvio Santos com uma arma na cintura, e ninguém se espanta; a última divulgação da #vazajato traz procuradores e juiz cogitando provocar guerra civil na Venezuela; o presidente compara os países defensores do meio ambiente a tarados estupradores da “virgem” Brasil; moradores de rua morrem de frio nas calçadas de São Paulo e, na manhã seguinte, o prefeito manda recolher os cobertores dos sem teto sobreviventes; e a definição mais sábia desse momento é de Lucélia Santos em entrevista: “O Brasil é como estar n=tendo um pesadelo, e que quando a gente acorda se dá conta de que está dentro do próprio pesadelo, ele nunca acaba!”. E o epitáfio foi cunhado por Wagner Moura, também em entrevista: “A verdade acabou!”.

A novidade é que a fatia responsável da sociedade brasileira não se omite nesse contexto de intimidação violenta. Leiam o discurso, que ficará para a História, de Marcos Bagno, dos mais prestigiados linguistas do país, no encerramento do Congresso Nacional da Abralin (Associação Brasileira de Linguística)

GLORIFICAÇÃO DA IGNORÂNCIA

Marcos Bagno

“Fui solicitado a falar neste momento em defesa da ciência brasileira. E de fato, nós, que trabalhamos com a pesquisa, com a produção de conhecimento e com a educação, nos vemos agora numa situação que eu só consigo designar como apocalíptica.

Em 2016, forças políticas e econômicas derrubaram o governo democraticamente eleito da presidenta Dilma Rousseff por meio de uma farsa grotesca que foi de fato um golpe de Estado e abriram o caminho para que se instalasse no poder essa bestialidade desenfreada, movida por uma irracionalidade absoluta guiada por um único objetivo: destruir.

Destruir o ar que respiramos, destruir a água que bebemos, destruir o chão que pisamos, destruir tudo e absolutamente tudo, a começar pela destruição de milhares de vidas humanas. É um projeto de terra arrasada. O Brasil é um dos países mais desiguais e injustos do planeta, nossos indicadores sociais são apavorantes, mas essa quadrilha que assaltou o poder não está satisfeita: é preciso assassinar mais jovens negros, é preciso exterminar o pouco que ainda resta de populações indígenas, não basta uma mulher assassinada a cada hora e meia, não é suficiente ser o campeão de assassinatos de lésbicas, gays e transexuais, nem ser o país mais perigoso para os defensores do meio ambiente.

É uma pulsão de morte que move cada ato desse desgoverno, é uma perversidade sádica, é o elogio da insanidade, do obscurantismo, é a glorificação da ignorância e a consequente criminalização de todas e de todos que promovam minimamente a liberdade de pensamento, o debate sadio das ideias, o avanço social e cultural por meio do conhecimento, da arte, da cultura, da ciência.

Aqueles grupos sociais que são chamados tradicionalmente de “grupos de risco” ou de “camadas vulneráveis da população” agora abarcam nada menos que a imensa maioria do nosso povo. Se você não é homem branco de classe média ou alta e heterossexual, você está na mira daqueles que odeiam tudo o que não é igual a eles.

Se você é nordestina ou nordestino, também é alvo desse ódio porque o chefe supremo do descalabro declarou: “não sou o presidente deles”. Essa é uma declaração que estimula, autoriza e incentiva nada menos do que uma guerra civil. Mas é sob o signo da guerra que se move esse desgoverno. Desde o dia primeiro de janeiro deste ano, todo e qualquer crime de ódio cometido neste país traz a autorização implícita de alguém que disputou as eleições usando como símbolo de campanha a mão que imita uma arma. E é nas mãos dessa milícia de mercenários que nós estamos agora.

Por isso é que eu peço a cada uma e a cada um de nós que deixemos de lado pelo menos nesta hora as diferenças de toda ordem e coloquemos à frente delas uma necessidade que é a própria essência da nossa humanidade: a sobrevivência. Não estamos sendo ameaçadas apenas por uma violência simbólica, que também existe e é aterrorizadora, mas por uma violência física mesmo, por uma ameaça aos nossos corpos, às nossas vidas. E nós, pesquisadoras e pesquisadores, professoras e professores, estamos agora na linha de frente dos ataques, cada uma e cada um de nós tem um alvo pintado nas costas.

Vamos então, formalistas e funcionalistas, foneticistas e fonologistas, semanticistas e especialistas em pragmática, sintaticistas e morfologistas, sociolinguistas e analistas do discurso, historiadoras e historiadores da linguística, especialistas em língua de sinais, em línguas indígenas, em ensino de segundas línguas, em tradução, lexicologistas, filólogas e filólogos, psicolinguistas, filósofas e filósofos da linguagem, vamos todas e todos reconhecer que o momento é grave, é crítico, é ameaçador e que é a nossa vida profissional e pessoal que está em jogo, e o jogo é desigual e desonesto. A demolição está em curso e se não fizemos nada as paredes e os tetos vão desabar sobre nossas cabeças.

A cada hora recebemos a informação de que a universidade X só vai poder funcionar até setembro, de que a universidade Y não tem como se manter funcionando depois de agosto, de que a universidade Z vai ter de parar antes de julho. É a asfixia da educação, é o bombardeio da ciência, é a rejeição pura e simples da civilização, nada menos do que isso. Eu não tenho notícia de ter existido jamais ao longo da história um governo que tenha feito da educação a sua inimiga primordial. Mesmo os governos que não se empenharam em favor da educação eram hipócritas e demagógicos e, pelo menos no discurso, faziam o louvor da educação. Mas o desgoverno atual é tão bisonho, tacanho, tosco e burro que não é capaz nem sequer de cinismo. É a brutalidade em seu estado mais insano.

Nós temos de aproveitar cada ato público, cada fala pública, cada manifestação pública para deixar muito claro que não vamos permitir, que vamos resistir de todas as formas que podemos e sabemos, que vamos principalmente nos unir pela preservação da vida, que está acima de todas as diferenças.

Me solicitaram que falasse em defesa da ciência. Mas quero repetir: sem vida não existe ciência. E o que nós temos não é nada que se compare a um governo de direita nem de extrema direita. O que se instalou no Brasil este ano foi uma proto-ditadura de lunáticos, uma república de assassinos. E é contra ela que temos de lutar hoje, amanhã e até que ela desmorone, não por si mesma, mas pela nossa luta.”

Uma das mais festejadas princesas do mundo foge de seu sheik em Dubai, se esconde em Londres e pede asilo à Grã-Bretanha

Princesa Haya, filha e irmã de reis, mulher de sheik

Nem a Disney conseguiria criar um conto de princesas tão palpitante quando o affair que se passa na vida real dos Emirados Árabes Unidos, com a fuga de Dubai da linda princesa Haya, deixando para trás o emir, sheik Mohammed bin Rashid al-Maktoum, um dos homens mais ricos do mundo.

O emir de Dubai é adepto do falconismo

Essa história vem sido contada, pelo próprio sheik, que é poeta, em versos como  “Oh querida, não há mais nada a dizer. / Seu silêncio mortal me esgotou” e “você não tem mais lugar comigo”, bem como “eu não me importo se você viver ou morrer.” Todos disponíveis no site oficial do governante de Dubai, em árabe e em inglês, para quem queira ler.

O sheik e a princesa nas corridas em Ascot

Loura, 45 anos, referência da moda e da benemerência, vestindo com grande elegância o melhor da alta costura internacional, Haya é a mais conhecida das seis esposas do xeque, e com todos os motivos para isso. Filha do antigo rei da Jordânia, Hussein, meia-irmã do rei atual, Abdullah II, ela estudou em escolas inglesas, cursou filosofia, economia e política em Oxford, representou a Jordânia nas provas de salto nas Olimpíadas de 2000, presidiu a Federação Equestre Internacional e, junto com o marido, mantém uma relação de amizade com a rainha Elizabeth II.

Com Kofi Annan

O casal com a rainha Elizabeth II

Porém, no início do ano ela fugiu para Londres, onde foi se abrigar numa casa avaliada em mais de 100 milhões de dólares, perto do Palácio de Kensington, onde moram seus dois filhos, de 11 e 7 anos. Haifa já teria solicitado asilo à Grã-Bretanha. Quem conta é uma pessoa ligada à família real. Não são incomuns as fugas nessa família. Duas filhas de outro casamento do sheik Mohammed, as sheikas Shamsa e Latifa, fizeram o mesmo. Latifa partiu num barco no Mar Índico rumo à Índia e aos Estados Unidos, onde foi localizada por um detetive e capturada por agentes do Emirado, sendo levada de volta para Dubai, a maior cidade dos Emirados Árabes Unidos.

A princesa Latifa em fuga gravou vídeo em local não identificado, nos Estados Unidos

Sempre vista, junto com seu marido, no Royal Ascot, no Epsom Derby e em outros eventos top do calendário equestre inglês (ele é dono de um Haras importante, chamado Godolphin), a princesa Haya é uma das celebridades mais cultivadas pela imprensa britânica. A mídia dos Emirados a cobre de elogios por seu trabalho humanitário e por seu casamento “de sonhos” com o xeque Mohammed, 69 anos, que foi celebrado em 2004, com uma cerimônia em Amã.

Princesa Haya e seus principezinhos, Jalila e Zayed

O primeiro ministro, vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos, emir de Dubai, sheik Mohammed bin Rashid al-Maktoum, com os filhos

Os maiores escritórios de advocacia londrinos já estão de olho nessa complicada causa bilionária de divórcio, que deverá envolver a tutela dos filhos, o que pela lei islâmica costuma ser do pai, bem como é o controle da educação e das finanças dos filhos. Outro complicador é que se trata de um casamento polígamo. Não seria, porém, o primeiro casal internacional super-rico a se separar em tribunal em Londres, devido às proteções de privacidade do sistema legal. Como o casamento foi na Jordânia e a cidadania do casal é dos Emirados, as negociações de divórcio poderão ter prosseguimento em Londres, caso a princesa Haya estabeleça residência lá.

Príncipe Charles, em Dubai, recebido pela princesa

O rei Hussein, da Jordânia, com a filha, Haya

O sheik Mohammed, governante de Dubai, primeiro ministro e vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos, não deverá criar dificuldades para o divórcio. Seus poemas dizem sobre o casamento: “Temos uma doença que nenhum remédio pode curar” e que “nenhum especialista em ervas pode remediar.”

O casal de sheiks Haya e Mohammed bin Rashid al-Maktoum, em foto postada por ela em seu Facebook, assim como as demais aqui

Haia ainda não deu entrevistas, não se sabe o que a levou a fugir de Dubai, mas uma das princesinhas capturadas de volta, Latifa, alegou que sua vida lá é sufocante. Há rumores de que a partida de Haifa está ligada a revelações graves sobre o que levou à fuga de Latifa, que na época divulgou um vídeo nas redes sociais dizendo-se em perigo. Hoje se fala que Haifa também temeria por sua vida.

Princesinha Jalila cavalgando no deserto

Pai e filha em Ascot

O pequeno príncipe Zayed brinca de “amarelinha” nas areias de Dubai

A sheika de Dubai em audiência com o Papa Francisco

O curioso caso do TCC da Petrobras no Cade

Caso abre um precedente que talvez não tenha sido bem calculado
Mário André Machado Cabral
03/07/2019 06:04
No último dia 11 de junho, o Tribunal do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) homologou por maioria um Termo de Compromisso de Cessação (TCC) com a Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobras). A Petrobras se comprometeu a alienar oito de suas treze refinarias, o que equivaleria a 50% da sua capacidade de refino.
TCC é instrumento utilizado para cessar um suposto ato concorrencialmente ilícito mediante acordo com o Cade. Se um TCC foi celebrado, a Petrobras estava sendo acusada de prática abusiva no âmbito do Cade. Certo? Curiosamente, não.
Entre os “considerandos” constantes do TCC, reconhece-se: “O Inquérito Administrativo não imputou uma conduta ilícita por parte da Petrobras”. A Conselheira Paula Azevedo, voto vencido, afirmou: “não há nos autos do presente processo qualquer conduta – entendida aqui no sentido de comportamento ou ação – imputada à Petrobras que seria passível de tipificação como uma infração à ordem econômica”. O Conselheiro João Paulo de Resende, também vencido, ponderou: “pouco se avançou na investigação sobre se houve de fato uma conduta e se essa conduta seria considerada uma infração concorrencial”.
O que o Cade tratou como potencialmente anticompetitivo foi o alegado poder de mercado da Petrobras ou, ainda, a estrutura do mercado de refino no País. Ocorre que a competência repressiva do Cade, nos termos do art. 173, § 4º, da Constituição, é para a repressão do abuso do poder econômico, não para a repressão do poder econômico em si.
Se a mera detenção de poder de mercado é motivo para uma intervenção tão drástica e estrutural como a que se deu nesse caso, o Cade precisaria intervir em diversos segmentos altamente concentrados (por exemplo, o minerário, lembrado pelo Conselheiro Resende), de modo a negociar uma alienação de ativos que reduzisse o domínio de mercado por grupos monopolistas ou oligopolistas.
Esse caso abre um precedente que talvez não tenha sido bem calculado.
A celeridade atípica do processo também chama a atenção. O trâmite somou aproximadamente seis meses. Outros casos de abuso de posição dominante passaram anos no Cade – alguns chegando a cerca de uma década. Evidentemente, a morosidade não é desejável; no entanto, uma tramitação tão apressada pode se mostrar incompatível com a complexidade das condutas unilaterais.
Adicionemos outros aspectos curiosos. Dois processos foram apensados ao principal. Um dizia respeito a normas da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) que estariam mitigando a concorrência. Outro se referia a uma denúncia da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) contra a Petrobras por preço predatório.
O primeiro caso era uma imputação à ANP, não à Petrobras. Quanto ao segundo, costuma-se dizer que nunca houve, em toda a história jurisprudencial do Cade, sequer uma condenação por preço predatório. Os parâmetros de prova para essa prática são tão altos e rigorosos, que as condenações se mostram improváveis. Ou seja, mesmo que a alegação contra a Petrobras fosse especificamente de preço predatório – o que não restou claro nem no julgamento do dia 11, nem nos documentos do caso – haveria grandes chances de a companhia não ser condenada.
Antes de decidirem negociar um TCC, empresas e seus advogados avaliam, entre outros fatores, os riscos de condenação. Caso esses riscos sejam baixos, os incentivos para negociar um acordo dessa natureza se reduzem, notadamente se o TCC envolver remédios tão expressivos, como a alienação de ativos.
Seja pela mera detenção de poder de mercado, seja por preço predatório, um processo similar, em condições normais, dificilmente acarretaria condenação para a Petrobras. A despeito disso, a companhia decidiu celebrar um TCC que firma remédios agressivos, de magnitudes inéditas e que lhe retiram metade da capacidade produtiva para entregar a concorrentes. Parece curioso.
No que concerne à análise concorrencial, apesar da dimensão dos compromissos pactuados, o Cade não ofereceu à sociedade uma apuração minimamente detalhada sobre (i) a suposta infração à ordem econômica, (ii) o mercado relevante afetado, (iii) a estrutura do mercado ou (iv) os efeitos líquidos da conduta. Em se tratando de empresa estatal, isso se torna ainda mais indispensável, pois ativos públicos estão em jogo.
Questões importantes não foram respondidas nesse caso.
De uma perspectiva antitruste, o mercado de refino de petróleo é, de fato, monopolizado pela Petrobras?
Resende ponderou que a dimensão geográfica do mercado seria internacional. Havendo possibilidade de importação, caberia ter apreciado a efetiva aptidão da Petrobras para exercer de forma abusiva posição dominante.
Observou-se que o Cade, inclusive, já arquivou uma investigação contra a Petrobras com base nesse argumento.
Por fim, é de extrema sensibilidade a discussão sobre os limites constitucionais da atuação do Cade.
Primeiro, como já arrazoado, a competência do Cade é para reprimir o abuso, não o poder de mercado em si. Segundo, se há monopólio no refino do petróleo, encontra-se legitimidade para tanto no art. 177, II, da Constituição. Pode o Cade fazer um “controle de concorrencialidade” de dispositivo constitucional? Seria curioso.
Em linha com o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre a política antitruste brasileira, é preciso que o Cade avance no exame de práticas de abuso de posição dominante.
Contudo, para isso, algumas cautelas são fundamentais. Uma delas é a permanente observância de sua estrita missão constitucional. Assim, o Cade manterá sua justa boa reputação.
* Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Direito Econômico pela USP e advogado na Advocacia José Del Chiaro.

Novo nome brasileiro desponta no Grammy

Um novo nome brasileiro desponta entre os indicados a concorrer ao Grammy. Ele é compositor e cantor. É o Mario Winston, que os amigos chamam de Kid Winston, que acaba de lançar sua música Além do Pensamento, que impressionou os organizadores do Prêmio. De família mineira, Winston é carioca da República da Barra da Tijuca, um gataço, e filho da anfitriã 5 estrelas Beth Winston.

Confiram o artista nas fotos do também artista Antonio Guerreiro.e confiram a música:

https://music.apple.com/br/album/al%C3%A9m-do-pensamento/1465937424?i=1465937848

 

E, abaixo, com sua mãe, Beth Winston, e o queridinho deles, Gucci, o Lulu da Pomerania

As fotos de Gabriel Diniz

O fotógrafo Fred Pontes, famoso por cobrir os shows e eventos de música sertaneja em todo o Nordeste, acaba de compartilhar em seus grupos de What’s App as fotos do cantor Gabriel Diniz realizadas no início e no decorrer de sua carreira.
Aqui estão, juntamente com um comunicado dos produtores do artista.

Houve quem julgasse que o produtor do cantor, conhecido como Cuíca, também estivesse a bordo com Daniel, porque não conseguiam acessá-lo ao telefone. É que Cuíca desligou o telefone e partir de Feira de Santana rumo a Sergipe, para acompanhar os trabalhos de resgate e o velório do cantor.

Uma Furtiva Lágrima, o livro de Nélida Piñon

Uma Furtiva Lágrima, o livro de Nélida Piñon, é para se ir sublinhando a lápis, uma a uma, as passagens de retorno obrigatório. Seu precioso Estatuto do Amor é um libelo na defesa da mulher e na louvação ao amor – segundo ela “o melhor gesto na terra”. Escolho um parágrafo: “Esfrega as costas da mulher com a espuma do amor. Cuida para que a pele da companheira não se fira jamais por força da tua impaciência, desatenção. Vigia, atento, a tua violência. Ela é a parte obscura e sórdida da tua alma.”

A lágrima furtiva brotou como um exercício de entrega da escritora, deixando-se sucumbir “sem protesto”, depois de ouvir do oncologista a sentença de apenas mais três meses para viver.

Dando conhecimento do fato a poucos amigos, Nélida se recolheu em casa ao longo de meses para iniciar seu “Diário de morte”, acompanhada apenas do cão, Gravetinho, que, segundo diz, percebeu sua “vulnerabilidade”, e da cadelinha, Suzy.

Mas a morte não a inspira, e Nélida evita “traços poéticos e salpicos metafóricos”, enquanto enfileira palavras, encadeia sentimentos e frases, com o auxílio de uma companheira desde a infância: a imaginação.

Deixa-se levar a Nélida pelo imaginar, “negando as versões oficiais”, dourando a vida, embelezando até “os Campos Elísios”, em eventuais visões noturnas, o que não deve ser difícil para quem tem ao alcance da janela a mais bela das lagoas, a Rodrigo de Freitas. Isso ela nos conta no capítulo Estrelas e Quimeras.

A autora, que prega que “nada (em seu ofício) deve ser esquecido, deixado ao relento”, é integralmente fiel a tal princípio. De mãos dadas com o leitor, certa de sua discrição, segue Nélida, página por página, generosa, confiante em suas afinidades. Reveladora, ela se desdobra aos olhos de quem a lê, despetalando experiências, sentimentos, emoções. Testemunhar suas vulnerabilidades, junto com Suzy e Gravetinho, é o grande prêmio que a escritora nos confere nesse livro, em que faz “o melhor gesto da terra”: Nélida ama.

Nélida Pinon no lançamento de seu livro, ao lado do embaixador Marcos Azambuja, seu confrade na Academia Brasileira de Arte  Com Dalal Achcar

Com Aparecida Marinho, autografando Uma Lágrima Furtiva, que, segundo a coluna de Ancelmo de Góes, bateu recorde de vendas na primeira semana, deixando para trás até os mais bem vendidos livros de auto-ajuda do momento

Com a embaixatriz Laís Gouthier

Nélida e Paulo Henrique Cardoso

Sonia Machado, da Editora Record, uma entre os muitos donos de editoras presentes. O comentário era de que as apoteóticas noites de autógrafo de Nélida são únicas.

Com o professor Carlos Alberto Serpa

Com Luiz Carlos Ritter, que também foi anfitrião da noite, fazendo jorrar o bom champagne Taittinger, buffet de Adriana Mattar, decoração de Leo Araújo, cerimonial Stambowski

Com Antonio Rodrigues dos Santos, namoro de sua juventude, e Fernanda Basto

Ladeada  por Roberto Halbouti e Paulo Arguelles

O advogado Sérgio Bermudes, a juíza escritora  Andréa Pachá e o jornalista Roberto D’Ávila

Laura e Cícero Sandroni, companheiro de Nélida na Academia de Letras, enfrentaram a longa fila, que se estendeu desde as seis da tarde até 11 da noite

Com o escritor Victorino Chermont de Miranda, secretário-geral da Academia Brasileira de Arte, emoldurados pelas flores de papel crepon de Flavia Carrano que decoraram a livraria da Travessa Leblon, no lançamento trepidante, desde a entrada

Carlos Andreazza, editor do livro, rindo e não era à toa

Fernanda Montenegro e Fernanda Basto

Domício e Rejane Proença

Karla Vasconcellos, Suzy e Cora Rónai

Os imortais

Fotos de Marco Rodrigues

A CASA ZUZU ANGEL E A COLEÇÃO CARMEN MAYRINK VEIGA

Palestra realizada por esta jornalista, por ocasião do II Seminário Moda Uma Abordagem Museológica, realizado pela Casa de Rui Barbosa e o Instituto Zuzu Angel, no dia 23 de maio de 2019

O acervo da Casa Zuzu Angel se divide em cinco grupos:

1 – A Coleção Zuzu Angel, da criadora pioneira em suas propostas da moda com brasilidade e da moda como instrumento de denúncia e protesto político.

Grupo 2 – Mosaico da Vida Brasileira, que reúne várias peças, de criadores brasileiros e estrangeiros, usadas por diferentes personalidades, de setores e extratos sociais diversos, abrangendo dos anos 40 aos dias de hoje. Aí temos vestuário desde as Cantoras do Rádio, Marlene, Emilinha, a Cauby Peixoto, a Adelaide Chiozzo do acordeon, ao velho guerreiro Chacrinha, roupas do vice-presidente José Alencar, das meias de fio metalizado de dona Neusa Brizola ao smoking de posse de Ivo Pitanguy na Academia Nacional de Medicina.

3 – Grupo de marcas e criadores brasileiros, com as coleções de Isabela Capeto, Glorinha Paranaguá, Luís de Freitas, Marco Ricca, Lucília Lopes, Heckel Verri, Glorinha Pires Rebello, Guilherme Guimarães, José Ronaldo, Moda Rio etc.

4 – Os Colunáveis, no qual se destacam Coleção Monteiro de Carvalho, Coleção Paulo Fernando Marcondes Ferraz, Coleção Tereza Chateaubriand Alkmin, Coleção Severiano Ribeiro, Coleção Martha Rocha, Coleção Ibrahim Sued, a estrela deste grupo é a Coleção Carmen Therezinha Solbiati Mayrink Veiga, que vamos focalizar.

Iniciamos o acervo que hoje ocupa a Casa quando vimos a necessidade de resgatar as criações de Zuzu Angel ainda existentes e reuni-las numa Coleção, preservando a obra que julgamos importante, assim como a coletividade da moda também a considera. Essa ação de garimpo nos levou à percepção da pouca ou nenhuma importância atribuída à moda no Brasil àquela época, primórdios dos anos 90, quando não era vista como expressão de arte e bem cultural… e hoje começa a ser. Começa.

Verdadeiras preciosidades se perdiam nos brechós e nas reformas domésticas singelas, que descaracterizavam a criação, para seu reaproveitamento por outras pessoas ou sua adequação aos padrões de cada época, quando as roupas eram ora curtas ora longas, ora largas ora estreitas, ora fechadas ora decotadas, motivando infinitas adaptações.

Assim, nesse processo de garimpo das peças de Zuzu, produzidas desde a década de 50, percebemos a necessidade de captar e preservar também a obra de outros artistas brasileiros.

Nesse processo, passamos a receber também doações de peças de alta costura e de pret-à-porter de importantes marcas estrangeiras, como Christian Dior, Balenciaga, Pierre Cardin. Culminando com a fantástica doação de Carmen Mayrink Veiga, até a aquisição de um vestido de baile da princesa obra da inglesa Catherine Walker, sua preferida para roupas de gala.

Nossa responsabilidade tornou-se maior, e nossa necessidade de espaço também. Por diversas vezes tentamos parcerias com o poder público na busca de um imóvel para o Museu da Moda. Foram acordos, negociações, promessas e decepções, em vários níveis governamentais, desde os anos 90.

Até que decidimos, há quatro anos, ceder uma casa pertencente à família de Zuzu Angel, isto é, de minha propriedade, uma residência apalacetada que data do século 19, na Usina da Tijuca, e lá estabelecemos a Casa Zuzu Angel, numa parceria inicial de um ano com o Banco Itaú e a Light.

Tal parceria nos possibilitou colocar no ar o Portal da Coleção Zuzu Angel, montar quatro reservas técnicas, sendo três reservas têxteis e uma reserva documental, e realizar a conservação da Coleção Zuzu Angel. Tudo de acordo com padrões museológicos internacionais, controle de umidade, temperatura, iluminação, fungos, isolamento contra insetos.

Os trabalhos hoje se expandem pela casa inteira. Temos três salas de exposição, uma sala reservada para a remontagem do quarto de Zuzu Angel, duas salas de conservação, biblioteca, além de três outras salas de guarda de acervo têxtil, chamadas de Salas de Quarentena. É onde vem sendo feito um inventário minucioso de todas as peças ainda não catalogadas, que, devido ao nosso desconhecimento inicial, obedeceram a diferentes métodos de organização ou à ausência de métodos, o que enfim conseguimos normatizar.

Temos um cronograma a cumprir de seis meses, para deixar todo o acervo de cerca de seis mil peças em ordem. Para isso contamos agora com o museólogo Rubens Ramos, nosso colaborador de primeira hora, que como bom filho à casa retorna depois de um período no Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

Começamos aprendendo e continuamos a aprender. Nossa primeira providência foi estabelecer uma parceria com o Musée de La Mode, Palais Galliera, em Paris, onde tivemos uma arquiteta estagiando, pelo período de oito meses, enviada por nós, com auxílio do Consulado da França no Rio e apoio da Air France. Como consequência, a arquiteta Paula Kierulf produziu um dossiê precioso, bem ilustrado e detalhado, que auxiliou a arquiteta Luisa Bogossian no processo de adaptação dos espaços, na montagem de nossas reservas técnicas e na aquisição de materiais. Para isso, contou a criatividade e o espírito de improviso dos profissionais do Estúdio Guanabara, adaptando mesas de conservação, recriando luminárias e arquivos, atendendo aos nossos recursos sempre limitados. Hoje providos pessoalmente por mim – pessoa física.

A Coleção Carmen Mayrink Veiga foi outro desafio enfrentado por nossa conservadora Manon Salles, e é comovente ver o que ela conseguiu realizar com suas assistentes, e posteriormente com as estagiárias da Unirio e da UFRJ.

A Coleção Carmen Mayrink Veiga é preciosa, pois reflete a profunda sensibilidade para a alta moda e o bom gosto da consumidora e colecionadora, o que é reconhecido inclusive internacionalmente, tendo sido incluída no Hall of Fame da Eleição das Mais Bem Vestidas do Mundo, que anualmente podemos conferir na revista norte americana Vanity Fair.

São quase 200 roupas cuidadosamente escolhidas e pinçadas por ela, que relata em manuscritos a história de cada peça. Isso pudemos conferir por ocasião da Exposição Carmen Mayrink Veiga, que ocupou todos os espaços da Casa Julieta de Serpa, no ano de sua fundação, em 2003.

Com uma linda direção de arte do cenógrafo Colmar Diniz e nossa concepção e curadoria, a exposição de moda abrangeu as várias faces de Carmen, suas coleções de arte, seus álbuns de festas, suas joias, as viagens, sua presença na mídia.

Havia uma sala particularmente original, que era o Instituto Médico Legal da Moda. Toda branca, simulando azulejos, a sala era um laboratório de pesquisa, onde, numa grande mesa, repousavam tailleurs e vestidos preciosos da colecionadora Carmen, de modelagem elaborada, todos de alta costura. Eles eram virados pelo avesso, para que os visitantes tivessem um acesso único aos “bastidores” da roupa e fizessem sua autópsia. Para que conhecessem segredos e truques, praticamente inacessíveis aos comuns mortais, da alta moda, em que os preços podem alcançar centenas de milhares de dólares.

Eram fornecidas a todos luvas para manipulação das peças, e em alguns casos pinças.

Tivemos a alegria de alguns anos depois ver uma exposição no Victoria and Albert Museum, em Londres, repetir essa ideia, relatada por nós a um dos diretores daquele museu quando esteve no Rio de Janeiro.

Nossa caminhada nos fez ver que, para lidar com um acervo de moda, não basta deter os conhecimentos teórico de catalogação, conservação, restauração, acessíveis em poucos cursos de escolas brasileiras.

Não basta sequer o dinheiro, que sempre nos falta. É preciso dominar um saber que só um centro de pesquisa, como é a Casa Zuzu Angel, pode proporcionar, e sob a orientação daqueles que viveram o universo dos grandes ateliês de alta costura.

É o conhecimento de um perito da moda que permite identificar, a partir de sua prática acumulada, com um único olhar, um toque, a idade da peça, sua origem, seu criador. Poucos são os que reconhecem um forro de benberg, tecido usualmente utilizado para isso nas décadas de 50 e 60, um fecho éclair Corrente de metal e algodão e não os de silicone, a partir da década de 70. Os ganchos forrados de seda ou com linha. As bretelles, que impedem a roupa de correr nos ombros. Uma bainha feita à mão ou à máquina, alinhada ou torta. Uma costura reta ou franzida. Botões de osso, madrepérola, baquelita ou plástico. Identificar um plissado montado a mão, milimetricamente, preguinha por preguinha. As contas de cristal de um bordado, e a delicadeza dos pontos minúsculos à mão. Identificar o criador pelo estilo, o corte da roupa, a estrutura da forma.

Essas pessoas são os antigos profissionais, as antigas consumidoras que amam a moda, criaturas como eu, que desde criança perambulei entre alfinetes e fiapos das oficinas de costura de minha mãe ou especialistas internacionais convidados para participar, transferindo conhecimento e tecnologia nos vários saberes que envolvem um acervo de moda.

Conhecimentos que, em nosso país, se tornam preciosos, se pretendermos levar avante o projeto de preservar as obras de arte da moda.

A criação do Instituto Zuzu Angel e da Casa Zuzu Angel é uma longa e até penosa trajetória, que se destinou a fazer uma convergência dessa experiência a outros profissionais, e juntos estamos construindo, acredito, um novo momento para a memória da moda no Brasil.

A Casa Zuzu Angel, além de ser depositária, preservadora e expositora de moda, tem a missão de servir de laboratório de pesquisa e de educação continuada.

Além dos brasileiros, reunimos criações dos estrangeiros renomados. Do tempo em que a moda não era fast fashion descartável, desatenta à qualidade e aos detalhes. Era uma slow fashion, produzida com vagar, cada peça exigindo pelo menos três ou quatro provas, quando não se tratava de um vestido do saudoso Jerson, o brasileiro rei dos drapeados, que obrigava a clientela a pelo menos 7 a 8 provas diante do espelho.

Moda praticamente perene, master pieces dignos de museus, legados para a história.

Assim é a Coleção Carmen Mayrink Veiga, onde pontificam o que de melhor produziram Valentino, Saint Laurent, Givenchy, Ungaro, Mme. Grès e outros preferidos dela.

A poesia de Chico Buarque às claras, sem voz nem melodia, com lupa, luvas, uma radiografia

Abaixo transcrevo o prefácio que escrevi para o livro Quem É Essa Mulher – A Alteridade Do Feminino na Obra Musical de Chico Buarque de Holanda,do pesquisador Alberto Lima, sua dissertação de mestrado feito na Sorbonne, publicado em 2017 pela Companhia Editora de Pernambuco.

PREFÁCIO – E Chico criou a Mulher

Hildegard Angel

Do entusiasmo ao encantamento. Da revelação à euforia. A leitura de Quem É Essa Mulher – A Alteridade Do Feminino Na Obra Musical de Chico Buarque de Holanda inspira um jorrar de sentimentos intensos e múltiplos, o que não seria de se esperar de um texto acadêmico, mesmo sendo ele merecedor de honrosa menção na conclusão do mestrado do autor na Université Paris III, Sorbonne Nouvelle.

Imagino que o très bien da menção concedida tenha sido com o mesmo ânimo com que agora me debruço para escrever a respeito. Inicialmente o autor Alberto Lima, cuidadosamente e por várias fontes e caminhos, nos insere nos diversos cenários que levaram a mulher até onde hoje está. Acompanhamos, no anoitecer de 13 Brumário Ano II, em seu cárcere na Conciergerie, Olympe de Gouges, precursora dos sonhos igualitários femininos, ouvir sentença de pena de morte pelo Tribunal Revolucionário e depois seguir engaiolada pelas ruas escuras de Paris até o cadafalso, onde entregou sua cabeça brilhante, corajosa, especial, à guilhotina, cumprindo ironicamente o Artigo X de sua própria Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã: “Uma mulher tem o direito de subir ao cadafalso. Ela deve, igualmente, ter o direito de subir numa tribuna”. Seus textos libertários desagradaram aos jacobinos, naquele momento dando as cartas na França revolucionária. O ruído do baque da guilhotina abafou suas últimas palavras: “Filhos da Pátria, vocês vingarão minha morte!”.

Olympe mereceu lâmina afiada porque “abandonou os cuidados do lar, quis fazer política, instituiu sociedades de mulheres”. Foi por isso chamada na sentença de “virago”, “impudente” e “mulher-homem”. Era 1793.

O autor nos leva mais longe, aos anos 300 AC, na Grécia de Aristóteles, quando “cidadão” era palavra sem feminino, a honra da mulher era um modesto silêncio e a força da mulher consistia em vencer a dificuldade de obedecer. Apresenta a mulher do Período Romano mais senhora de si, coproprietária dos bens do marido, dirigindo educação dos filhos, comandando escravos, indo às festas e ao teatro, alegria que durou pouco, até a reação masculina, com a criação de uma lei em que a mulher passou a ser disposta como um bem pelo marido e o pai, e o Estado a privá-la de quase toda a capacidade civil.

A popularização da Bíblia, com a invenção de Guttenberg, trata de jogar por terra qualquer bom conceito que se pudesse ter sobre a mulher, essa melíflua, que induz Adão a comer o fruto proibido. Com isso, Eva tem como castigo as dores do parto e a sina de sempre desejar o marido e ser dominada por ele por todos os tempos. E segue a mulher eternamente maldita, até nos vocábulos que exprimem sua fisiologia, com os franceses chamando gravidez, parto, aleitamento e menopausa de malédiction.

Com a Inquisição, bruxas são as mulheres, personificação de Satanás. Período de trevas em que mulheres sequer tinham instrução, e só em 1592, enfim, fiat lux, abre-se nesga clara para elas, com o registro da primeira aparição num palco de uma mulher. No Renascimento, nasce a mulher influente na Corte francesa, para incômodo de Montesquieu expresso em palavras. No século 17, a ascensão da burguesia revela mulheres na literatura. Vem a Revolução Industrial e o uso da força masculina perde lugar para a máquina, sendo requisitada também a habilidade manual feminina. As mulheres são submetidas à opressão daquele capitalismo emergente, trabalhando em locais insalubres, sem hora para começar, terminar ou descansar, subnutridas, sub-remuneradas, em condições de miserabilidade e ainda com casa e filhos para cuidar. Essa panela cheia de revoltas e reivindicações negadas alcança o ponto de fervura máxima em 1857, num 8 de março, quando 129 operárias são carbonizadas dentro de fábrica em Nova York, retaliação dos patrões e da polícia contra uma greve delas. Data jamais esquecida, é o Dia Internacional da Mulher, motivador de infindáveis ações e movimentos pelos direitos das mulheres, desde sempre e para sempre.

Bem, vieram as conquistas, ralas, mas reais. Vieram as sufragistas, veio o voto, veio Simone de Beauvoir, num alvorecer de ideias, sacolejando as mentes femininas em despertar luminoso. Veio o conceito de gênero construído por mulheres, uma antropóloga e uma historiadora, e, nos anos 90, detonado por outra mulher, filósofa – todas elas ilustres. Reanálises, reavaliações, re-opiniões, entre barrancos e trancos, a mulher desembarca no século XXI ainda por se resolver, por se situar, por se fazer perdoada pelos estigmas que milenarmente lhe pesam, de leviana, infiel, mistificadora, traiçoeira, interesseira, devassa, pecadora, insubordinada, inconfiável, desde Eva, desde Aristóteles, desde a Inquisição, desde Montesquieu, desde os Jacobinos, desde as sufragistas – a mulher permanece a Deus dará.

E onde entra nisso tudo o Chico? É aquele que não se basta a cumprir, junto à sociedade, seu papel de artista difusor de valores. Vai muito além. Assim como seu personagem em Teresinha, chegou sorrateiro, avassalador e, antes que percebêssemos, instalou-se, posseiro, em nossas mentes, vidas, reuniões, fossas (ele é desse tempo), retomadas, decisões. Reinventou-nos mulheres. Ligou a luz. Alimentou a fogueira. Acendeu o lampião. Acalentou fantasias, despertou tesões, aliviou tensões. Compôs 190 canções poemas tendo a mulher como inspiração. Foi menino filho da gente, frágil como nós, outrou-se em nós (e aprendi que outrar é invenção de Pessoa, o Único), e nós nos outramos nele.

Também outra-se o autor Alberto Lima. O escritor se outra em Chico Buarque de Holanda e nas mulheres brasileiras, que, a partir dessa obra, têm a oportunidade de se verem inteiras, pelos olhos verdes do Chico, pelos olhos da perversidade dos conquistadores salteadores, que se apossaram do Brasil, pelos ingênuos olhos das índias, possuídas e violentadas, pelos olhos tristes das africanas, sacrificadas, coisificadas, pelo olhar mortiço das brancas despersonalizadas.

Conhecer as mulheres de Chico através da visão analítica de Alberto é redescobri-las. Despidas de sua melodia, nuas da voz do artista e das vozes de outros artistas, elas nos aparecem em sua inteireza, com seus petits signes de beauté mais recônditos, as estrias mais discretas, os pneuzinhos indisfarçáveis. Tudo à mostra. Perfeições e imperfeições. Ler este livro é sair dele certa de que separar o artista da obra é uma tremenda tolice.

O livro de Alberto Lima não deverá esquentar prateleira.

E minha alma lavada por perceber que, entre esses 190, há dois poemas canções in memoriam de Zuzu Angel, que se outrou mãe de todas as outras, não só de mim.

 

Fog londrino e carinho sem ter fim, no casamento de Paula e Fábio

Margot Pitombo tem três grandes amores: Paulinha, a filha única, Volney Pitombo, o marido único, e a Inglaterra, um país único. Na Grã-Bretanha, Margot estudou, fez amizades para toda a vida e assimilou forte influência cultural, que a inspira em todos os seus momentos. Da decoração de suas residências à clínica de Pitombo, ao estilo de vestir, tudo em Margot é very british. Daí que, mesmo quando se dispõe a fazer um casamento campestre para a filha, os convidados se sentem no campo… na Inglaterra.

Algumas convidadas atenderam ao pedido de Margot para ir de chapéu, e lá estavam elas, com seus chapéus e fascinators, na Igrejinha de Nossa Senhora da Conceição. De fato uma capela singela, de 1897, que Margot se deu ao trabalho de pintar de branco e cinza azulado, e contou com a ajuda de um artista inglês radicado naquela região de Secretário, para realizar os afrescos e assessorá-la no décor da igreja.

Os nichos dos santos e o teto ganharam sancas, o piso do altar foi coberto de granito, a parede de fundo revestida de pedra. Todas as madrinhas se vestiram da mesma cor lilás, com o mesmo tecido, como vemos fazerem as jovens bridesmaids nos casamentos ingleses. Os padrinhos, de cinza e flor branca na lapela, assim como o pai da noiva, o cirurgião plástico Volney Pitombo, num terno jaquetão de abotoamento duplo, com botões brancos, totalmente country suit.

Margot, além de trazer de Londres o tecido azul hortênsia de seu vestido, encomendou uma réplica de um broche de pérolas e brilhantes da rainha Elizabeth II, que já foi usado pela Rainha-Mãe, Mary, e originalmente pertenceu à rainha Vitoria. Coube à joalheira Adriana Quattroni fazer a reprodução idêntica. Quanto ao look, parecia ter sido inspirado no de Meghan Markle, a duquesa de Sussex, em seu primeiro compromisso oficial depois de casada. Confiram abaixo:

Foi um sábado de fog londrino. Com ameaça de chuva forte. Marcada para as duas da tarde, a cerimônia só começou depois das três. O que deu tempo a quem estava na igreja para observar cada detalhe da mãe de noiva caprichosa. Os arranjos de flores brancas em grandes vasos neo-clássicos, a estonteante Angelita Feijó, sentada na primeira fila, com o marido e a filha, daminha, que anunciava que iria levar as alianças; Inah Arruda e a joalheira  Adriana Quattroni, na segunda fila do lado oposto; o oftalmologista-escritor Almir Ghiaroni e Georgia Wortmann, levando um xale de pele nas mãos e com um fascinator nos cabelos presos.

O otorrinolaringologista imortal da Academia, Jair de Castro, com Tília. A médica Gisela Pitanguy, chegando pontual com Raul Chamma. Márcia Duvivvier, também pontualíssima, mas sem Eduardinho, que ficou gripado em casa, e enviava mensagens pelo zap para saber como iam as coisas. Dora Cortez, Karmita Medeiros, a empresária mineira Virgínia Bartolomeo.

Médicos, ainda, os cirurgiões plásticos Rawlson de Thuin, Luiz Haroldo Pereira e Claudio Cardoso de Castro, outro imortal da Academia presente. Tantos médicos e, sobretudo, tantos cirurgiões da mesma especialidade do anfitrião, Volney, demonstram a personalidade afável que ele é, multiplicando amizades e admirações em todos os campos, do trabalho à profissão à vida em sociedade.

Finalmente, chegam a noiva e os pais, pouco depois  das três, desculpando-se, preocupados: uma barreira despencou na estrada de sua Fazenda Paraíso até a capela, e foi preciso chamarem reforços, escavadeira, empregados, para limpar a passagem totalmente interditada. Ficaram ilhados em casa, até haver uma brecha para o carro.

Paulinha, muito bonita, coberta de rendas francesas guipure, com um véu que se estendia até um terço da passarela central, tule e rendas aplicadas, e um véu sobre o rosto, que o noivo, Fábio Saraiva Monteiro, levantou para lhe dar um beijo. Ohhhhhh, a audiência adorou!

Cerimônia clássica, toque de clarim à entrada da noiva, Marcha Nupcial, uma soprano afinadíssima interpretando a “Ave Maria” e se houvesse cristais eles teriam se partido. Homilia breve, mas tocante, as alianças, o “até que a morte os separe”, as fotos no altar, e todos nos preparamos para partir para o almoço na fazenda…

Eis que um convidado alertou: “A estrada está interrompida, vamos esperar”. Ninguém obedeceu. Lá fomos nós, desafiando barrancos e barreiras, esperando a vez da passagem de cada carro, patinando sobre a lama, e enfim chegando à residência magnífica, onde tudo foi bom, bem servido, gentil, encantador. Dos detalhes da decoração à música ao vivo, do início ao fim. Das delícias preliminares servidas – e bem servidas – ao buffet e às bebidas, que jorravam de interminável fonte de Taitinger.

Foi o casamento com que as noivas sempre sonham: aquele em que os convidados amam ter ido, o noivo fica orgulhoso, e todos os cuidados atestam o amor infinito dos pais por sua filha.

Paula Pitombo, renda de seda guipure francesa

Sonia Regina Vianna Saraiva Monteiro e o filho noivo, Fábio

Virginia Bartolomeo, O anfitrião Pitombo, esta colunista e Karmita Medeiros

André Maranhão e Volney Pitombo

Ghiaroni e Georgia Wortmann

Raul Chamma e Rawlson de Thuin sobre a pista de dança com plotagem de imensos azulejos portugueses

Régis e Priscila Ramos, um dos casais de padrinhos, com o filho, Pietro

Fotos de Cristina Granato