Sobre Hildegard Angel

colunadahilde@gmail.com Hildegard Angel é uma das mais respeitadas jornalistas do Rio de Janeiro. Durante mais de 30 anos foi colunista no jornal O Globo, quer cobrindo a sociedade (com seu nome e também com o pseudônimo Perla Sigaud), quer cobrindo comportamento, artes e TV, tendo assinado por mais de uma década a primeira coluna de TV daquele jornal. Nos últimos anos, manteve uma coluna diária no Jornal do Brasil, onde também criou e editou um caderno semanal à sua imagem e semelhança, o Caderno H. Com passagem pelas publicações das grandes editoras brasileiras - Bloch, Três, Abril, Carta, Rio Gráfica - e colaborações também em veículos internacionais, Hildegard talvez seja a colunista social com maior trânsito

Distraído pela pandemia e os roubos dos gestores da saúde, o Brasil sofre um golpe mortal

Hildegard Angel

O Governo quer e vai enfim privatizar a Petrobras. É uma ação contínua, desestabilizadora e demolidora contra a maior estatal do país, orgulho brasileiro em todos os aspectos – do econômico ao científico. Uma conquista de há 70 anos, desde a campanha “O Petróleo é nosso”. E há 70 anos hienas vorazes tentam privatizá-la, desmembrá-la, despedaçá-la. Uma delas, o senador José Serra, perseguiu obstinadamente esse objetivo de destroçar nosso maior orgulho nacional. Os governos do PSDB não conseguiram embutir tal meta no balaio de sua questionável “Privataria tucana”. Fracassado nas eleições e com essa ideia fixa em mente, o tucanato participou do conluio golpista de 2016 contra o Brasil.

E um fato histórico: o maior plano de Privatização da Petrobras foi o de US$ 57 bilhões de Aldemir Bendine, presidente no governo de Dilma, que foi salva pelo tempo, dada a sorte de sua derrocada, que a impediu de implementar esse projeto, preservando sua biografia de tal calamidade. O Governo Temer colaborou com esse processo, escalando Pedro Parente para fazer o serviço sujo, no que ele se esmerou.

A Lava Jato entrou feito um trator para cumprir o projeto destrutivo, lesa-pátria. A mídia corporativa apoiou, mentindo deslavadamente sobre uma suposta “Petrobras quebrada”. Pura ficção, com os jornalistas “economistas” de aluguel distorcendo resultados, inventando prejuízos, mentiras e mentiras e mentiras descaradas. Quanto essa mídia e esses mercenários da pena não botaram nos bolsos em prejuízo do nosso país?

O Ministério da Economia uiva de contentamento, estoura champagne, esfrega as mãos de cobiça, prenunciando o momento de passar o rodo geral. O que restou da empresa será 35% reduzido. Equipes técnicas, compostas por engenheiros, geólogos, cientistas, pesquisadores, formadas ao longo de décadas, serão desmontadas com um peteleco. Nunca mais teremos outras iguais. Essa redução de pessoal fará a empresa, que no Governo Lula chegou a empregar 80 mil, voltar aos 35 mil funcionários do tempo de FHC.

Contudo, o que esses grandes vilões do capitalismo pretendem mesmo é zerar a Petrobras. Terra arrasada. O objetivo é acabar com tudo, vender todos os ativos rentáveis, e deixar uma casca vazia. Restará um belo prédio ocioso, bonito por fora, oco por dentro. O popular “bambu florido”.

A Petrobras não pode ser toda vendida no balcão porque, do tamanho que ela é hoje, não há empresa no mundo nem consórcio com capacidade de compra. Por isso, esse seu fatiamento, como se faz com o filet mignon do açougue.  E o povo brasileiro nem informado é a respeito. O noticiário distrai a população com os desvios criminosos dos gestores da saúde, pseudo-licitações e superfaturamentos, que não passam de migalha inexpressiva, se comparados ao gigantesco escândalo que é o fim da Petrobrás.

Não vamos, porém, ser injustos. Todos os nomes aqui citados são meros peões de um grande xadrez em que o rei não usa coroa, usa uma cartola listrada de vermelho e branco, com estrelinhas no fundo azul.

Com as manifestações populares inviabilizadas pela pandemia, passa tranquila a revoada da águia e dos urubus. As aves de rapina de sempre. Ficará a carniça.

 

Thereza de Souza Campos e a Dinastia das Therezas da sociedade carioca

27 de junho 2020 – Instagram – da série “Memórias Sociais Brasileiras”

Thereza de Souza Campos posou com essas pantalonas de Mary Angelica para a coluna de Nina Chaves, O Globo, em 1969, em sua casa da Rua Mascarenhas de Moraes, em Copacabana

A homenagem à Thereza de Souza Campos, , que nos deixou recentemente, o grande mito da elegância brasileira, presença obrigatória em todas as listas das “10 Mais” do país nas décadas de 50, 60 e 70, a começar pelas de Jacinto de Thormes e, depois, as de Ibrahim Sued.

Thereza foi uma lenda, no tempo em que as mulheres da chamada “alta sociedade” eram as celebridades das capas das revistas (como esta aqui na página, da Manchete), e eram referências de moda, tendência, comportamento para todo o Brasil. Thereza era cantada em versos e canções populares. Qualquer etiqueta implorava para que ela usasse suas roupas, acessórios, joias, porque tudo que Thereza tocava virava ouro.

Era a grande “influencer” da época, ao lado de outras, como Lourdes Catão, Therezinha Muniz Freire, Guiomar Magalhães, Dolores Guinle. O bom gosto no vestir de Thereza se repetia na decoração. Depois de seu divórcio de Didu Souza Campos, ela se dedicou-se profissionalmente, e com sucesso, à decoração. Entre outros trabalhos, decorou o iate de Luís César e Glorinha (Pires Rebello) Magalhães. Mais tarde, casada com Sua Alteza Imperial, o príncipe Dom João de Orleans e Bragança, ela passou a ser chamada de “princesa dona Thereza”. Durante este casamento, ela decorou de modo magnífico a casa de Parati de Dom João, que ate hoje é referência dos editoriais de decoração. Além de ficar viúva de Dom João, Thereza sofreu a grande perda de seu único filho, Diduzinho, que desde jovem padeceu de uma doença nos olhos.

Nascida em Ubá, Minas Gerais, ela veio da Zona da Mata mineira para brilhar na nossa então Capital Federal e ensinar às mulheres como serem clássicas e originais ao mesmo tempo. Os Souza Campos eram a “primeira família” do glamour e da sofisticação. Depois daquele “reinado” do noticiário social, Thereza só poderia mesmo se casar com um príncipe de verdade, direto descendente de Dom Pedro. Ela soube enfrentar com dignidade e discretamente o declínio de sua situação financeira, e mesmo o físico, frequentando apenas pequenos grupos fechados da “aristocracia” social carioca. E sempre encantava. Espirituosa, inteligente, mordaz, enriquecia os ambientes com sua presença. Jamais abdicou da elegância. Ela figura na Coleção de Moda Grandes Personalidades, na Casa Zuzu Angel, Museu da Moda, com um conjunto preto de Ungaro, que bem expressa seu estilo.

Thereza, em capa da Manchete de 1958, com look clássico e severo, aparentando muito mais idade do que tinha na época

Thereza de Souza Campos enviou este seu terninho clássico do estilista francês de origem italiana Emanuel Ungaro, como doação para o museu da moda Casa Zuzu Angel, acompanhado de seu cartão brasonado de Princesa Orleans e Bragança.

R.I.P. Thereza, que nos deixou aos 93 anos, mesma idade com que partiu Lourdes Catão, morta pelo Covid. Aliás, a última vez em que encontrei Thereza foi no almocinho de Lourdes, pelo aniversário de Maria Alice de Araújo Pinho, todas elas amigas.

Eu costumo dizer que a sociedade carioca tem a “Dinastia das Therezas”. Algumas já se foram, como Thereza de Souza Campos, Thereza Muniz Freire, Thereza Castello Branco, Carmen Therezinha Mayrink Veiga. Outras ainda estão entre nós, encantando com seu bom gosto e a elegância. São Maria Thereza Williams, Therezinha Noronha, Thereza Muniz.

A força da beleza, do caráter e do temperamento de Martha Rocha

Hildegard Angel

Num tempo em que celebridades são desovadas por segundo, e não mais a cada 15 minutos, como previu Andy Warhol, o radar de quem é de fato famoso fica meio embrutecido pelo excesso de oferta de celebs no mercado. É quando morre uma celebridade de fato que a opinião pública se dá conta da força perene da fama quando é legítima. Assim acontece agora com Martha Rocha, cuja morte foi anunciada ontem, e a mídia não para de falar a respeito, nem há de parar tão cedo.

Martha foi uma famosa tão famosa, que tudo considerado extraordinariamente bonito no Brasil foi rebatizado com seu nome, a partir do título da Miss Brasil 1954. A água marinha escura, de melhor qualidade, aquela do colar que Assis Chateaubriand presenteou à Rainha da Inglaterra, era a “água marinha Martha Rocha”. A torta mais fotogênica das casas de Café Colonial de Gramado chama-se “torta Martha Rocha”. O mármore bege Travertino virou “mármore Martha Rocha”, até porque era tão baiano quanto a Miss Brasil das “duas polegadas a mais, e logo nos quadris, tem dó, seu juiz, tem dó” –  conforme a marchinha de 1956, que lamentava a perda do título de mais linda do universo pela baiana loura, de olhos translumbrantemente azuis. O Chevrolet 1957 era a “pick-up Martha Rocha”, com o mesmo arredondado dos quadris em sua carroceria. A faixa de Miss Brasil 1954, desfilada por Martha, se tornou um troféu que ombreava em carisma e importância com a Taça Jules Rimet, levantada por nosso Bellini no gramado da Suécia, na Copa de 1958, ao som de “A Copa do Mundo é nossa, com brasileiro, não há quem possa”.

Martha Rocha era um verdadeiro Midas para a mídia. Foram quatro décadas de capas de revistas. Na O Cruzeiro, só dava ela. A Manchete, quando queria aumentar a tiragem, punha Martha na capa. Uma dessas capas, aliás, lhe custou um grande amor, o empresário Chico Catão, casado, com quem Martha vivia romance proibido, muito discretamente, como era de seu perfil. “Ninguéns” sabiam. E um dos “ninguéns”, naturalmente, era esta colunista, que numa reunião na Av. Delfim Moreira percebeu o namorico de Martha e Chico, numa saleta contígua ao salão da festa. Até que, numa noite de estreia no Theatro Municipal, um jornalista afoito resolveu emplacar mais uma capa da Manchete com Martha, e a juntou com Carlos Nuzman para uma foto, e tascou a manchete: “O novo amor de Martha Rocha”. Chico não perdoou. Martha nunca mais conseguiu falar com ele, nem mesmo ante os apelos da melhor amiga da miss, Bebeth Freitas, emissária das explicações que Catão não quis escutar.

Foi só após esse rompimento que começou o namoro dela com Nuzman, envaidecida pela repercussão da revista e a diferença de idade – ele quase 10 anos mais jovem.

Martha casou-se duas vezes. A primeira, com o banqueiro português Álvaro Piano, dono de casas de câmbio em Buenos Aires e Lisboa, um verdadeiro cavalheiro. O casamento na Candelária foi um acontecimento nacional. Tudo gerou comentários, até o fato de ela ter usado um relógio com o vestido de noiva. E no pulso errado, o direito. O que deve ter sido mais pela inversão da foto na diagramação da revista do que por erro de Martha. Mas isso rendeu.

Viúva de Álvaro, Martha se casou com outro milionário, Ronaldo Xavier de Lima, proprietário de uma grande seguradora, que foi um ótimo pai para os dois filhos de Martha com Álvaro, e a filha que tiveram. Eles brilharam nas festas da sociedade carioca, ao lado de outros casais de homens bem sucedidos com misses Brasil, como Alberto Pittigliani com Terezinha Morango, e Jackson Flores com Adalgisa Colombo.

Apaixonada, Martha não admitia infidelidades de Ronaldo, e seu temperamento forte falou mais alto quando surpreendeu o marido em pleno ato de adultério com a empregada doméstica, no quarto de serviço. Ela foi lá dentro, pegou um revólver e deixou a marca de sua personalidade na nádega direita do marido. Não houve registro policial, mas em sociedade tudo se soube.

O sorriso iluminado, com dentes perfeitos, levou a imprensa a afirmar nos obituários que Martha Rocha era uma mulher feliz. Não era. Foi uma sofredora. Vítima de décadas de adulação à sua beleza, ela se tornou impositiva e inflexível. Não abria mão de suas posições. Isso lhe valeu muitos rompimentos e desgostos. Entre seus maiores e mais fiéis amigos, estavam o cabeleireiro Jambert e seu companheiro, Martin Trinchant, espanhol milionário, com título de nobreza, apaixonado por ópera. Eles tomaram a si os cuidados e as despesas de Martha, quando ela se viu desprotegida e sem recursos, após uma puxada de tapete que levou de seu antigo cunhado, Jorge Piano.

Martha confiou à casa de câmbio de Piano todo o dinheiro que guardava para seu sustento, proveniente da venda da cobertura na Av. Atlântica, para ser transformado em dólares e depositado no banco de Piano em Nova York. Um dos filhos de Martha era casado com uma filha de Jorge, e tiveram filhos. Na véspera de Jorge Piano fechar a loja no Rio, e embarcar para Nova York fugindo dos correntistas, eles jantaram todos numa confraternização familiar, Martha, Jorge, filhos e netos. Jorge não deu um pio sobre a viagem que faria, até marcaram um novo jantar. No dia seguinte, Martha se viu pobre. Isso não é segredo, Martha Rocha, com a franqueza que era a sua marca, relatou o dissabor a todos os amigos.

A última vez em que estivemos juntas foi quando ela veio em minha casa e trouxe sua faixa de Miss Brasil 1954, as últimas peças de roupa que considerava apresentáveis, seus troféus e um belíssimo portrait pintado no ano do concurso de miss, com um vestido verde enfeitado com galhos de café, produzido para divulgar nossa indústria cafeeira. Eram suas doações ao Museu da Moda do Instituto Zuzu Angel. Sabendo de sua condição difícil, fiz de tudo para remunerá-la, Martha não aceitou. Era uma mulher de caráter.

Vestido de festa doado ao acervo do Museu da Moda/Casa Zuzu Angel, por Martha Rocha, com a faixa de Miss Brasil, de 1954, já exposta pelo Instituto Zuzu Angel em mostra no Centro Cultural Banco do Brasil (mostra de Lilian Pacce)

Almoçamos, ela, nossa amiga comum Chica Dutra e eu, e passamos a tarde, as três, em conversas, risos, lembrando coisas boas e ruins, como amigas de fato. Martha já estava vivendo em Niterói. Ela contava e contou com o apoio de seus dois filhos homens, até o fim. Não foi abandonada, mas não pôde manter o padrão da diva que sempre foi. Talvez por isso, não convidava nem recebia em sua casa modesta.

Os últimos tempos, já debilitada, precisando de cuidados contínuos, passou numa casa para idosos em Icaraí. Ela fumava e, como consequência, tinha enfisema pulmonar.

Foi sincera sempre, foi imperiosa sempre, foi verdadeira sempre, foi linda sempre.

   Martha Rocha e seu grande e generoso amigo Jambert (Foto Cristina Granato)

Duas louras estonteantes que marcaram a vida brasileira: Tônia Carrero e Martha Rocha (Foto de Cristina Granato)

BRASIL SÓ VAI MUDAR SE SUA ELITE MUDAR

Hildegard Angel

 

Escrevo sob a inspiração das recentes e magníficas entrevistas de Lula em liberdade, único líder brasileiro de primeira grandeza vivo, em plena lucidez e vigor para a luta.

Apesar de todas as mazelas que se multiplicam a cada dia e pesam sobre nosso cotidiano, somos abençoados por ter um Lula, que nos fala à consciência, ao coração, à alma. Um farol. O maior Presidente da República de nossa História, e que, justamente por ser tudo isso, sofreu a maior campanha já movida contra um político em nossa vida contemporânea.

Lula é perigoso, sim, porque é revolucionário. Tudo o que fala, pensa, faz é transformador. Como foram seus dois governos, retirando do Mapa Mundial da Fome um país atavicamente indigente, onde a fome está tão entranhada e normalizada, que, em vez de escândalo e dor, suas representações nas artes são saudadas pela beleza pictórica, não pela agonia que deveriam inspirar.

Nas paredes dos salões da opulência, os retirantes de Portinari, com suas crianças esqueléticas, contrastam com naturalidade, e sem causar escândalo, com os tapetes persas.

O Brasil caminhou um longo percurso de sofrimentos e dificuldades, desde o seu Descobrimento. Séculos em que apenas os da elite puderam descansar a cabeça nos travesseiros com tranquilidade, sabendo que no dia seguinte teriam um teto, alimento para os filhos, condições para as despesas básicas. Os miseráveis, os pobres e mesmo a classe média sempre provaram o amargo pão dos obstáculos e injustiças sociais.

Um país em que a ignorância foi ardilosamente cultivada para que os mesmos poderosos de sempre prevalecessem, controlando o domínio do saber. Um país em que ser analfabeto era até há pouco tempo visto com naturalidade. E não possuir sequer certidão de identidade, um lugar comum. Um país que historicamente demonizou seus mártires e incensou seus demônios.

Elite racista, age como restrita sociedade de escolhidos, sem qualquer responsabilidade sobre o que lhes acontece ao redor, ungidos que mal enxergam as pessoas que os servem, olham através delas, como se não existissem. O pobre brasileiro é transparente. Seus nomes e rostos não são lembrados por aqueles a quem prestam zelosos serviços, mesmo que por longo tempo.

E é atravessando esta fase tenebrosa pandêmica, com os mortos se amontoando nos corredores dos hospitais e nos gráficos das estatísticas, que essa deformação comportamental dos donos do dinheiro e do poder, seu alheamento sobre o que parece não lhes dizer diretamente respeito, mais inspira nosso desprezo. A economia sempre à frente da vida humana. Esta é a pandemia à brasileira.

Elite que sempre ignorou e normalizou a corrupção, quando esta lhe serve, e que se faz de chocada e ofendida quando os corruptos não são os frequentadores de seu mesmo clube.

Sempre ouvimos que atrás de grandes fortunas há grandes crimes. Crimes contra o erário, impostos não pagos, poluição de águas e terras antes semeáveis, em nome de seus empreendimentos econômicos; poluição do ar que respiramos; devastação das florestas que purificam o ar, para fazer delas pastos ou contrabandear sua madeira; bancos que falem, evaporando junto economias de vidas inteiras. Até mesmo na caridade, obras, que se dizem generosas com os pobres, não sem antes drenarem para suas contas pessoais parte dos quinhões arrecadados com festas, convescotes, rifas, boletos.

Não basta o povo adquirir consciência sobre nossa realidade, como agora ocorre. Nada se modificará, todo progresso voltará a ser retrocesso, se não houver mudança radical e estrutural no comportamento da elite brasileira. Caso contrário, recorrendo ao tão explorado Giuseppe Lampedusa, estaremos sempre andando em círculos, no exercício de mudar para não mudar, andar para não caminhar, conquistar para em seguida capitular.

Uma trepidante aventura da diplomacia brasileira que merecia ser seriado do Netflix

O *Embaixador Marcio de Oliveira Dias abre seu arquivo de memórias diplomáticas, e faz aqui um relato pitoresco sobre as peripécias, envolvendo a colaboração de um contrabandista americano, que propiciaram trazer ao Brasil a espécie de carneiro Merino australiano. E hoje o embaixador é chamado pelos pecuaristas do Rio Grande do Sul, onde a espécie prospera, de “o padrinho de todos os merinos brasileiros”.

“Em 1969, fui transferido do meu primeiro posto, Nova York, onde consegui ser meu próprio chefe, à frente do Setor de Promoção Comercial do Consulado-Geral. Como gostei muito da experiência, busquei um pequeno Consulado, onde pudesse continuar a sê-lo. E fui designado Cônsul em Sydney, na Austrália.

Serviço monótono, pouco que fazer, vida sem sobressaltos, mas também sem graça. Apesar das excelentes ostras e das mulheres fisicamente interessantes (eram como as inglesas, mas com um visível toque calipígio), a distância do Brasil e a falta de interesses recíprocos não emprestavam maior substância ao trabalho do posto. Assim, pensava em lá não quedar-me por mais do que um mínimo de tempo aceitável.

Entretanto, houve um episódio extremamente interessante e digno de nota, sob e o qual mantive silêncio público por muito tempo, mas que hoje, passados já mais de 50 anos, parece-me até didático recordar. Começarei pelos antecedentes.

Convidado por um vizinho para jogar pôquer, um dos parceiros, simpático mas algo peculiar, era um americano, proprietário de um velho avião DC3. No dia seguinte, o vizinho esclareceu-me que o americano vivia de trazer, com seu avião, cigarros para a Austrália. Como não me pareceu que um contrabandista fosse companhia ideal para um cônsul estrangeiro, não mais aceitei convites para jogar.

Nesta altura, já em meu segundo ano na cidade, realizava-se a “Sydney Spring Fair”, evento anual de importantes transações na área agro-pecuária. E os jornais faziam fortes referências ao fato de que, neste ano, a Austrália permitiria a exportação de reprodutores merino, raça de carneiros famosa pela qualidade de sua lã. No ano anterior também haviam feito idêntico anúncio, mas os adquirentes dos carneiros não
puderam depois tirá-los do país.

O merino australiano tem alta reputação mundial pela qualidade e quantidade de sua lã. Basta dizer que o recorde mundial de preço por um dos seus reprodutores foi de 450.000 dólares australianos (então de valor superior ao americano) pagos em 1988. E o recorde de produção de lã da raça é de mais de 40 quilos de lã numa só tosquia.

Um parêntesis para explicar a situação. Na política australiana, alguns partidos eram verdadeiros “lobbies” de interesses. Assim, havia um partido ligado aos criadores dos carneiros, que tinham grande empenho em vendê-los ao exterior. Outro partido representava os interesses dos fabricantes de lã, que não queriam concorrência externa. O governo buscava atender ora a uns, ora a outros, se possível a ambos. Como a proibição de exportação dos reprodutores adquiridos com a garantia do governo tinha sido mal vista pela opinião mundial, os compradores internacionais
voltaram à “Spring Fair” para uma vez mais tentar levar os carneiros garanhões.

Dentre os estrangeiros que vieram à feira, estava um grupo brasileiro, ligado ao então Ministro da Agricultura, o gaúcho Cirne Lima. Explicaram-me a situação e expuseram seu receio de que, depois de investirem uma quantia nada desprezível, não pudessem tirar os carneiros da Austrália.

Lembrando-me do episódio do pôquer com o contrabandista de cigarros, ocorreu-me uma ideia, que lhes expus, dizendo que poderíamos tentar uma saída caso as autoridades australianas, como suspeitávamos, fugissem uma vez mais às garantias de exportação dos animais. Entusiasmadamente recebida a hipótese, expliquei que eu teria inicialmente de buscar a aprovação do Itamaraty, para o que contribuiria uma pressão do Ministério da Agricultura brasileiro. E, naturalmente, a concordância do americano contrabandista.

Mandando às favas minhas restrições à “profissão” deste último, chamei-o e diretamente perguntei se, assim como ganhava a vida “bringing in” para a Austrália, não estaria disposto a faturar, “taking out” carga de nosso interesse. Acedeu com o maior gosto.

Aí começou um trabalho paciente, que teria de ser feito com rapidez, pois diz-se que os reprodutores merino não costumam conservar sua potência por muito tempo, aparentemente fatigando-se do seu agradável mister.

A dificuldade inicial era a de que o Consulado, por não lidar com assuntos confidenciais, sequer dispunha de código para comunicações. Tive de expor o esquema ao Itamaraty por telegrama secreto a ser enviado via Embaixada em Camberra, e receber a resposta pela mesma via. Para isso fui duas ou três vezes à capital, distante pouco mais de 200 quilômetros (o que fiz com prazer ao volante da minha querida Alfa Romeo Duetto Spider, certamente chegando perto do recorde de tempo para viagens entre as duas cidades).

O esquema era o de mandar os carneiros para Noumea, na Nova Caledônia, donde embarcariam imediatamente num vôo da Air France para o Brasil. Os contatos com a Air France foram providenciados, confidencial e rapidamente, pelas autoridades brasileiras.

A área competente do Itamaraty, dirigida pelo excelente profissional Embaixador David Silveira da Motta, aprovou o plano e deu-me sinal verde para implementá-lo.

Como desconfiávamos, o lado australiano tinha suas idéias para barrar a saída dos carneiros. Assim, embora o Governo mantivesse que permitiria a exportação, o Sindicato de Carregadores do aeroporto anunciou que não permitiria o reabastecimento dos aviões que fossem transportar os animais. E com a
distância da Austrália, nem pensar em não reabastecê-los.

Comprados os reprodutores a peso de ouro, preparei a documentação para exportação e a submeti às autoridades locais. Advertido de que a exportação poderia não ocorrer, devido à ação do sindicato, insisti (com minha melhor aparência inocente) na legalização dos documentos de qualquer maneira. O que foi finalmente conseguido com a oferta amigável de uma caixa de “whiskey” ao claramente incrédulo agente.

Procurei, por discrição profissional, não inteirar-me dos demais detalhes da operação, deixando-os às competentes mãos do Itamaraty e do Ministério da Agricultura.

Tudo funcionou muito bem. Com os carneiros já no Brasil, sou um belo dia convocado pelo Governador. Recebido friamente, pergunta-me a autoridade, sem maiores rodeios, se eu havia contribuído para a saída dos reprodutores da Austrália. Respondi tranquilamente que sim. Subindo o tom, pergunta-me o Governador se eu não sabia que a exportação dos animais estava proibida pelo sindicato. Respondi-lhe, com a mais deliberada tranquilidade, que eu era acreditado junto ao seu Governo, em cuja palavra
publicamente difundida. acreditara, e não junto ao Sindicato dos Carregadores de Kingsford Smith (o aeroporto de Sydney).

A expressão de ódio e frustração do Governador é das melhores lembranças que tenho da carreira…

Furioso, disse-me que soubera que eu estava viajando em férias ao Brasil e que não pretendia voltar. E acrescentou raivosamente que era bom que não voltasse. Concordei com grande prazer e despedi-me, sem que ele se dignasse a estender-me a mão. O que só fez aumentar minha satisfação com a entrevista…

Na volta para casa, não consegui conter o riso. E até hoje dou boas gargalhadas ao lembrar-me do episódio. Anos mais tarde, já Cônsul-Geral em Buenos Aires, tive a satisfação de, numa passagem por Uruguaiana, ser efusivamente saudado por criadores gaúchos como “o padrinho de todos os merinos brasileiros”…

*Márcio de Oliveira Dias é embaixador aposentado, tendo representado o Brasil em vários postos importantes no exterior, com sua competência e seu apurado senso de humor e de observação, o que proporciona aos que o conhecem acesso a relatos espirituosos e palpitantes sobre a vida de um diplomata de carreira. Aqui no blog, ele nos premia com uma dessas suas interessantes experiências.

Vaidade flexibiliza isolamento no Rio

A pandemia ainda preocupa no Rio de Janeiro, com números crescentes, e contabilizando 274 mortes, a cada 24h, e total de 8,4 mil óbitos (dados de 18/06). Contudo, a vaidade feminina carioca já saiu do isolamento. A flexibilização começa pelos salões de beleza do Rio antecipando-se à sua liberação pela Prefeitura.
Tudo acontece discretamente. Alguns cobrem as vitrines com papelão, para que da calçada não se perceba o movimento no interior. Em um dos salões mais caros, em Ipanema, as clientes entram por uma porta lateral, têm sua temperatura conferida, álcool in gel nas mãos, ingressam num túnel de desinfecção, até chegar ao grande salão, que se abre para um jardim ao ar livre, e se instalam em poltronas, obedecendo ao necessário afastamento, onde borbulham cabeças coroadas, tingindo os cabelos, fazendo novos cortes, depilando as sobrancelhas.
Depois de quase quatro meses sem dar um trato no visual, as damas da sociedade tiram o atraso. Elas se preparam para o retorno ao convívio social. Nesse novo normal, consta que dia 2 de julho o exclusivo Country Club reabrirá as portas para os sócios. Inicialmente, devendo ser  liberada só a área externa: a grande varanda-restaurante, o gramado e a área esportiva das quadras de tênis.
O Country, como se sabe, foi epicentro da pandemia carioca de Covid-19, com dezenas de sócios contaminados, e infelizmente várias mortes muito sentidas.

Chega ao fim o casamento do Chanceler

Hildegard Angel

Este governo Bolsonaro, tão pródigo em metáforas em torno de casamentos, acaba de ver esticar a corda de um enlace não metafórico, que já se rompeu: o casamento do Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e Maria Eduarda Seixas Corrêa.

Tudo leva a crer que a primeira-dama do Itamaraty, chamada Duda pelos próximos, se cansou do cotidiano terraplanista, sujeito a tantas esquisitices. Afinal, ela é filha de um dos mais respeitados diplomatas do país, o embaixador Luiz Felipe Seixas Corrêa, que ingressou na Casa de Rio Branco, obtendo o primeiro lugar no concurso, e é considerado uma das grandes cabeças da instituição.
Ex-professor de Relações Internacionais e de História Diplomática do Brasil no Instituto Rio Branco, Seixas Corrêa era reticente sobre a política  externa empreendida pelo genro, preferindo se abster de comentar, quando provocado pelos colegas. Ele foi Chefe de Missão no México, na Espanha, na Argentina, na Delegação do Brasil em Genebra (ONU e OMC), na Alemanha, na Santa Sé e no Consulado Geral em Nova York, além de Conselheiro Internacional do Presidente da República José Sarney e, por duas vezes, Vice-Chanceler.
Ah, Seixas Corrêa também foi presidente do Órgão Intergovernamental da OMS, e certamente jamais iria propor ou endossar que o Brasil cogitasse romper relações com aquela Organização.
Se Bolsonaro, em vez do genro, tivesse mirado no sogro, teria pelo menos um ministério respeitável para chamar de seu.
Maria Eduarda Seixas Corrêa também é diplomata, e trabalha como chefe da Divisão de Treinamento e Aperfeiçoamento, setor administrativo responsável pelo aprimoramento de funcionários do Itamaraty.
Provavelmente por todos esses vínculos com a Casa, o rompimento do primeiro-casal da nossa carrière virou notícia no Boletim do Ministério distribuído hoje aos diplomatas.
O casal na cerimônia de entrega da Ordem do Rio Branco – Jornal o Expresso/Google

Zuzu Angel, Crime e Castigo

Hildegard Angel

Com o título “Crime e Castigo”, a coluna de Ancelmo Góes, de O Globo, publicou hoje, 15/06/2020, que o Judiciário reconheceu o assassinato de Zuzu Angel, e caberá à União pagar uma indenização às suas filhas – eu e minha irmã, Ana Cristina – não cabendo mais recurso.

Sabemos que indenização alguma paga uma vida, compensa a ausência do afeto, da compreensão e dos cuidados que só podem ser proporcionados por uma mãe. E uma grande, imensa mãe, como foi Zuzu. No entanto, cansadas de ler nas referências à morte de mamãe quase sempre a mesma frase “acidente por causas desconhecidas”, minha irmã e eu decidimos buscar providência que pudesse dar um basta nessa insistência em desinformar.

A grande imprensa sabia, os jornalistas sabiam, os formadores de opinião sabiam, os artistas, os políticos, os empresários, os juristas, todos sabiam. Teses foram escritas a respeito, livro foi publicado, canção de Chico e Miltinho composta, filme, dramatizações na TV, balé, exposições várias, encenações, ruas com seu nome inauguradas, escolas, Túnel, monumentos, prêmios… Homenagens que, enternecida e para sempre, agradeço.

Até mesmo no atestado de óbito de Zuleika Angel Jones já consta, como causa mortis, o assassinato pelo Estado brasileiro. Todavia, basta ligeira pesquisa no Google, e lá está, na Wikipedia e em inúmeras outras referências à morte de Zuzu Angel, a frase: “acidente por causas desconhecidas”.

Sempre fiz por agradecer aos muitos que repercutiram os fatos com fidelidade. Bem como agradeci aos que reconheceram os méritos e a coragem de Zuzu, porém omitiram no texto a verdade histórica de seu assassinato.

A fim de tornar indelével na memória brasileira essa realidade trágica indiscutível, ainda tratada de forma ambígua por alguns, nós, filhas de Zuzu Angel, após muitos anos de sua morte, resolvemos recorrer ao reconhecimento da Justiça, através do competente advogado dr. Ivan Nunes Ferreira.

Aproveito aqui para informar aos que inadvertidamente negarem o assassinato de Zuzu Angel, acontecido numa emboscada covarde pelos agentes da ditadura, que não se trata mais de simples omissão ou negligência, mas de um crime contra a memória de nosso país.

 

Obrigada.

Brasil, depois da queda, a putrefação

Hildegard Angel

O Brasil está na UTI, em estado terminal. Não adiantam mais cloroquina nem tubaína. Sequer cabe uma tentativa de ressuscitação. Estamos já em tratamento por médico paliativista, sob doses de morfina, na infrutífera tentativa de morte sem dor.

Chegamos ao estágio máximo da impossibilidade. Um país é seu povo. Um país é sua natureza. Quando a vida do povo, muito menos a da natureza importam, muito ao contrário o Estado é o promotor de sua destruição, só nos resta orar por uma passagem serena e indolor.

É como se o Brasil já tivesse se atirado do alto de um prédio de 30 andares, caindo em velocidade proporcional ao seu peso de país continente. Não há mais como impedir o impacto da queda, com o esfacelamento de todos os membros. A próxima missão será juntar os pedaços, limpar a área da catástrofe, inventariar os danos e expurgar os responsáveis, submetendo-os a uma Corte Internacional. Como acontece nas guerras, em que o inimigo é levado à expiação pública.

No Brasil, o inimigo é o próprio governante com seus asseclas. Resta a eles como alternativa trancarem-se em seu bunker e injetarem nas veias doses massivas e letais de cloroquina.

Brasil, um corpo já em estado avançado de decomposição, em que o tom esverdeado não é o de nossas matas, mas produzido pelos gases mal cheirosos das bactérias do intestino, e sua grandeza não é a territorial, e sim do inchaço do abdômen putrefato, atraindo moscas, que aceleram a decomposição e incomodam os convidados do velório, enquanto vermes gulosos se alimentam da podridão.

Parasitas, sem ideais, se multiplicam, se locupletam, penetram por todos os orifícios, ocupam todos os espaços, cargos, funções, centrões. Deglutem os privilégios, benesses, mordomias e jetons.

Um governo composto por quem não tem nome a zelar, nada a perder e a oferecer. Fritada, manipulada e humilhada, a sem noção Regina Duarte é agora substituída por um ator da última fila do coro, cuja única memória que guardamos de seu rosto é de um anúncio de cuecas. Perfeito para um cargo em que sua única tarefa será não executar coisa alguma, a não ser cabeças. Em vez de gestor, guilhotinador cultural. Assim como, no meio ambiente, no lugar de sementes, multiplicam-se as serras elétricas, e, na saúde, mortes são geradas em progressão geométrica.

Intrigados, só nos resta o conforto de, num jogo do contente, imaginar que os militares ali estejam apenas em patriótica força tarefa para, antes que seja tarde demais, tentar despertar o gigante entorpecido, sob os efeitos de um “boa noite Cinderela” bem ministrado, dopado para que lhe sejam perpetrados todos os tipos de abusos – o estupro de nossa soberania, da ciência, da cultura, da educação e, como objetivo principal, da Constituição.

A Covid-19 leva Lourdes Catão, última diva dos anos dourados ‘na ativa’

Lourdes Catão, no jardim de seu apartamento, no Edifício Biarritz (Foto de Sebastião Marinho)

Lourdes e Alvaro Catão, anos dourados

Hildegard Angel

A Covid-19 acaba de dar um amargo golpe na alta sociedade brasileira. Morreu, vítima da doença, a diva social Lourdes Catão, aos 93 anos. E ela não estava mesmo fazendo projetos de partir. Dias antes de ser hospitalizada, combinamos ao telefone um almoço em minha casa, depois da epidemia, para reencontrar as amigas. Ela não fazia planos de ficar doente. Falou-me: “Estou aqui bem quietinha, isolada. Eu não quero ir para o hospital”. E todos os cuidados foram tomados nesse sentido. Sequer delivery era pedido, para Lourdes não correr risco de se infectar. O jornal também não entrava na casa, pelo mesmo motivo. A única presença externa eram as duas acompanhantes, que se revezavam a cada dois dias. Ela sentia falta das amigas, que, também em isolamento, não podiam ir vê-la.

Lourdes jamais aposentou o cetro da elegância. Era vaidosa. Em qualquer momento, em casa, em qualquer lugar, estava sempre impecável, penteada, com arco ou fita nos cabelos, usando colar, anéis – e ela ultimamente exibia uma grande safira no dedo, e dizia: “Este anel foi da minha avó”.

Legítima representante da época dourada, não do Brasil, do mundo. Ao lado de Thereza de Souza Campos, compôs o par das Mais Elegantes. Ainda viva, Thereza abdicou do título de “10 Mais”. Talvez porque tenha adquirido outro título, o de princesa, por seu casamento com sua alteza imperial, o príncipe dom João de Orléans e Bragança, e talvez porque não seja tão vaidosa e preocupada com a aparência quanto Lourdes. Não, não incluo Carmen Mayrink Veiga junto às duas, apesar de várias reportagens fazerem isso. Havia uma pequena diferença de idade entre elas – Carmen era um pouco mais jovem – e trajetórias sociais diversas.

Lourdes era um escândalo de bonita. Vê-la entrar num daqueles restaurantes da moda de Nova York, como o La Grenouille ou o Caravelle, era sempre um acontecimento. As mesas silenciavam à visão da loura, quase platinum, cabelos em ondas e bem tratados, envolta em peles ou nalgum tailleur, que poderia estar numa vitrine da Bergdorf Goodman ou da Lord & Taylor. Ela sabia o que era qualidade.

O segredo de Lourdes foi sua enorme capacidade de se reinventar. Quanto seu casamento com Álvaro Catão terminou, ela se mudou para Nova York, com breve passagem por Paris, onde teve um namorado, e se tornou uma decoradora bem sucedida. Seu “abre-te Sésamo” profissional foram as boas relações sociais, como Beatriz Patiño, que lhe entregou o apartamento de Park Avenue para decorar. E vieram outros trabalhos, e mais outros. Lourdes se firmou também nos negócios imobiliários em Nova York. Comprava o imóvel, reformava, decorava, e vendia com lucro. Sua melhor credencial era seu próprio apartamento em Manhattan, ou a casa de Connecticut.

Sempre morou bem. A casa da Urca era um luxo, e quem quiser conferir a sua fachada neoclássica, o imóvel ainda está lá intocado, depois de ter sido vendido. Em Santa Catarina, onde foi morar depois de retornar ao Brasil, fez um paraíso particular na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, para onde levava as amigas queridas do Rio de Janeiro, que retornavam embasbacadas diante do cenário montado por ela, cercado de jardins, flores, arvoredo.

Quando morreu Lucia Stone, viúva do diretor da Motion Pictures, Harry Stone, Lourdes não perdeu tempo. Lucia morava num dos mais emblemáticos e cobiçados endereços do Rio, o Edifício Biarritz, na Praia do Flamengo. Seu apartamento térreo tinha direito ao uso do jardim ao fundo, com fontes e esculturas Art-Déco, topiarias, paisagismo francês clássico muito bonito, onde os Stone deram festas memoráveis na cidade. Lourdes pediu ajuda à irmã, Helena Gondim, que telefonou fazendo uma proposta de compra do imóvel para a herdeira e sobrinha de Lucia Stone, Loreta Burlamaqui. Venda imediatamente fechada. Quando os outros candidatos à compra abriram o olho, as chaves já estavam com Lourdes, que fez do duplex uma joia preciosa, com móveis ingleses, chinoiserie, ares de refinamento e até cheiro de Central Park South, New York.

Com a morte de Helena, Lourdes passou a editar o livro Sociedade Brasileira, iniciativa de décadas da irmã. Coube à Lourdes, filha pródiga que retornava ao cenário social, passar a ditar “quem era quem” na sociedade. O livro era um catálogo exclusivo, um clube fechado, em que ser verbete significava passe livre para a vida em sociedade, praticamente uma condecoração. Depois de três edições, ela interrompeu a publicação. E isso foi para sempre. Não tinha temperamento para sofrer tanta pressão dos que, a todo custo, desejavam ingressar naquelas páginas.

No apartamento do Biarritz, e naquele jardim, ela passou a receber para jantares e almoços, sempre preparados pela própria cozinheira, e disso ela se orgulhava, o que evidenciava seus requintes de grande anfitriã. Sim, Lourdes foi da geração de mulheres que se destacavam por saber receber com classe, as melhores louças, pratas, cristais, o requinte de um menu bem elaborado, e bastante pessoal. Até os arranjos de flores eram dela.

As amigas de Lourdes completavam o cenário. A verdadeira “aristocracia social”. Na minha cabeça revejo, lado a lado, naqueles sofás de damasco, poltronas de veludo, Maria Thereza Williams, Thereza Muniz, Thereza Castello Branco, Thereza de Souza Campos, Therezinha Noronha – as Therezas com H, chancelas de uma época em que tudo era, foi e sempre será elegância.

A última vez em que as amigas de Lourdes foram reunidas foi dia 12 de março, aniversário dela. Naquela data, iniciava-se a quarentena. Sua filha, Bebel Klabin, promoveu um almoço em sua casa de tijolos vermelhos, no Cosme Velho, pelos 93 anos de Lourdes. Foi tudo perfeito. Nós nos cumprimentamos encostando os cotovelos, não mais apertos de mãos nem beijocas. Havia uma orquestra de chorinho, que, a horas tantas, fez algumas de nós dançarem. Lugares marcados à mesa, Lourdes exultante à cabeceira. Jogo americano grifado por Lygia Mattos e bolo de aniversário, enfeitado com miosótis, de Regina Rodrigues, a boleira que marca RR em seus bolos e docinhos. Não faltou, à sobremesa, o discurso da aniversariante, declarando felicidade pelos filhos sensacionais que teve, afirmando não guardar arrependimentos de qualquer espécie – e concluindo com um brinde à Bebel, e a frase: “Minha filha, eu amo muito você!”.

Bebel retribuiu: “Mamãe, você foi o grande exemplo de minha vida, que eu procurei sempre seguir”. Aplausos.  A grande revelação da tarde foi o anúncio, por Bebel, de que sua mãe trocaria o duplex do Biarritz por um apartamento “sem escada” em Ipanema. Assim, Lourdes ficaria mais confortável, Bebel mais descansada, e o Biarritz perderia sua diva.

Sabíamos que Lourdes não desejava abandonar sua “obra prima”, que seu desejo era morar ali naquele cenário para sempre. Mas ela jamais contrariaria a filha. Nem precisou. O destino se encarregou de atender ao seu último desejo.

PS: Nesses últimos dias, o coronavírus levou outra grande dama da sociedade dos anos 50/60, grande dama mesmo, Gilda Saavedra, viúva do Barão de Saavedra, linda e refinada, padrão das mulheres perfeitas da época, morreu no dia em que completava 100 anos. A Covid-19 está fazendo um estrago na memória social brasileira.