Um ronco surdo começa a incomodar os ouvidos que escutam…

De Hildegard Angel

Jornal do Brasil  12/08/2018

HOJE, SEGUNDO informes da Marinha do Brasil, teremos uma grande ressaca na orla do Rio, com ventos alcançando 2,5 metros de altura. Para os banhistas, a grande maioria dos cariocas, uma péssima notícia. Para os surfistas, minoria, ouro sobre azul. Talvez a maioria não se aperceba, mas o Brasil vive monumental ressaca institucional, que pode ser do gosto de uma minoria de ungidos pelos privilégios, mas que afeta em cheio a população do país. Uma calamidade nacional! Ela prospera sob os narizes dos brasileiros, sem que eles se apercebam. Ou não querem perceber. Urge que seja debelada o quanto antes, pois compromete nosso presente e o futuro dos nossos… Trata-se do colapso da Democracia brasileira, que vem ocorrendo desde o pré-impeachment…

NO CONGRESSO, COM a impensável e imoral “pauta bomba” do ex-deputado Eduardo Cunha, que, na liderança de uma Câmara mercenária, cumpriu o papel de inviabilizar e fragilizar um governo no início de seu segundo mandato. No Judiciário, em conjunto com o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, na condução de uma operação que parece ter lado. O que nos preocupa é a análise que se faz, repetidamente, de uma Justiça sem venda nos olhos, de um martelo da Lei com cor partidária, que escolhe a quem condena e a quem sequer investiga ou julga, em que o dolo é mero detalhe. O terceiro vértice desse “Triângulo das Bermudas” em que submerge nossa Democracia é a mídia corporativa, formada por algumas empresas familiares, no domínio da opinião pública segundo seus caprichos pessoais e os interesses do mercado. Uma abdução sistemática, empenho notável e continuado para manter sob seu controle as mentes da nação, impingindo verdades embaladas em versões fantasiosas, contaminando o pensamento, promovendo a desarmonia nacional, criminalizando a vida republicana de modo perverso e inconsequente…

SABEMOS O CUSTO de uma ruptura constitucional, como a ocorrida por ocasião deste último golpe de Estado, que defenestrou uma legítima representante do povo por atos de gestão apenas questionáveis, mas não criminosos, que os governantes anteriores também praticaram. Bastou afastá-la para sacralizarem as antes demoníacas “pedaladas”, tornando-as legais. Não se preocuparam sequer em disfarçar. O objetivo principal ainda estava por ser alcançado: inviabilizar o retorno do ex-presidente Lula ao Palácio do Planalto, o que seriam favas contadas dada a admiração que lhe demonstra a vasta maioria do povo, e estão aí as pesquisas para confirmar…

ESSE AMOR de que Lula desfruta não advém de notícias manipuladas ou de propaganda elogiosa massiva pelos grandes grupos de comunicação. Este domínio da opinião pública quem o tem é quem não está ao lado das causas sociais, da soberania, da grande causa do povo. Assim, chegamos ao clímax, ao ápice do desespero, quando, a três dias do prazo final de inscrição das chapas, Lula da Silva se mantém “prisioneiro político”, segundo a grande mídia internacional, as instituições de direitos humanos mais respeitadas do planeta, e centenas de juristas ilustres de todo o mundo, preocupados com a atuação de nosso Judiciário nessa questão…
Movimentos, abaixo assinados, manifestos, flash mobs e eventos vários se multiplicam às dezenas, centenas, aos milhares, pedindo pela legalidade democrática em nosso país. Porém, como se sob o efeito de algum gás paralisante, nossos poderes permanecem impassíveis, surdos ao povo a que deveriam servir, às leis que juraram obedecer, aos princípios éticos básicos profissionais…

QUE PODER será este que faz congelarem diante dos fatos aqueles homens e mulheres, tantos deles antes alvo de nossa confiança e de nossas admirações, e que agora se comportam como vassalos? Que poder maior? O dito “Império”? O mercado? O preconceito de classe? Ou todos eles juntos?… Aos desesperados, só restam
medidas extremas. Em Brasília, desde o último dia 31/7, sete militantes da Via Campesina, do Levante Popular da Juventude e da Central dos Movimentos Populares estão em greve de fome, cobrando justiça ao Supremo Tribunal Federal. Já hoiuve hospitalizações, mas os militantes da fome se recusam a interromper o jejum, enquanto não alcançarem seu objetivo. São os “bonzos brasileiros” do Terceiro Milênio, a exemplo daqueles de Saigon nos anos 60, submetendo-se a uma morte talvez mais sofrida, porque mais lenta do que pelo fogo, em que a obstinação confirma seu heroísmo, o martírio e o compromisso com nosso Brasil. Entre eles, um frei recorre à própria fome, “para não ter mais que enterrar crianças que morreram de fome”. O sacerdote franciscano fala de sua experiência nos anos anteriores à Bolsa Família, quando morrer por falta de comida era corriqueiro no Nordeste. Esse tempo ruim, que havia passado, agora retorna à região, como um vaticínio…

MAS VOCÊS veem as televisões falarem sobre isso? A mídia se manifesta? Temos sete bonzos brasileiros em uma autoimolação pela fome, em Brasília, e o noticiário os ignora. O noticiário brasileiro, pois o do resto do mundo se manifesta escandalizado. Quem acompanha a mídia estrangeira sabe do que falo. Desde ontem, às 6h30 da manhã, mais de cinco mil trabalhadores rurais de vários movimentos organizados, dos quais o mais conhecido é o MST, saíram em marcha de três pontos diferentes rumo a Brasília, onde chegarão no dia 15, para exigir do Tribunal Superior Eleitoral a inscrição da chapa de Lula, permitindo ao povo votar em quem acredita. A Marcha Nacional Lula Livre só merece da mídia hegemônica o silêncio, o que também é um escândalo. Esta parte da cidadania do Brasil não existe para ela, é invisível, não há interesse em mostrar. São três colunas, cada uma com mais de 1.500 defensores dessa causa, que percorrerão de 50 a 90 km, a partir de Formosa, Luziânia e Engenho das Lages.
“Estamos passando por um momento crítico em que há uma prisão arbitrária do presidente Lula, há mais de 120 dias. Estamos imersos em uma crise política e nos aproximando das eleições presidenciais e a Marcha é um momento para dialogar com a população brasileira sobre o que está acontecendo no nosso país”. Quem fala não é um analista político, é um camponês Sem Terra do Paraná, Ceres Hadich…

O QUE EU quero dizer, meus amigos, é que a tendência, ao longo desse percurso de cidade em cidade, é de a peregrinação engrossar. É de que essas pessoas de pés e mãos calejados, ao passarem com suas bandeiras tremulando, os rostos marcados pela luta cotidiana, impressionem a muitos mais, movidos pela fé de que a união de muitas vozes poderá romper a blindagem dos ouvidos de Brasília. À medida em que cresce essa onda indignada, crescem as desavenças sociais, aumenta o rancor da cidadania anônima, aquela que tem a apoiá-la apenas a força de sua convicção… E isso não é bom para a sociedade como um todo. Os potes de mágoa transbordam. A paciência não é eterna. Um ronco surdo e crescente de insatisfação começa a incomodar os ouvidos de quem escuta…

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