Depois de longa temporada em Los Angeles, onde foi ser vovó pela primeira vez, Beth Winston está de volta. E com a amada Beth in town retomamos nossa rotina dos almoços semanais/quinzenais com a querida Carmen, no Satyricon (seu preferido), quando ela nos delicia com suas histórias e revelações.
E vamos à última de Carmen…
Carmen Mayrink Veiga está em seu “momento OLX”, aquele do “desapega, desapega” dos anúncios da TV.
Por uma série de motivos, a personagem principal da cena social brasileira decidiu se despojar de seu cenário precioso, cuidadosamente concebido, colecionado, garimpado, montado e construído por ela, ao longo dessas suas muitas décadas de majestade, soberania absoluta da elegância, posto que jamais perdeu, diga-se de passagem.
Sem fazer disso alarde, Carmen Mayrink Veiga, Primeira e Única, resolveu se desapegar de seus mais preciosos bens. A começar pelo apartamento glorioso da Avenida Rui Barbosa, que não vendeu mas pretende manter vazio e fechado, passando a viver no apartamento do prédio ao lado, menor, que foi anexado àquele apenas para ampliar a área das recepções.
Ali, no apartamento menor do prédio contíguo, Carmen vai passar a morar, num ambiente despojado, depois de reforma de uma arquiteta, cujo nome desconhece, contratada por seu filho, Antenor.
O novo ambiente será claro e “clean”, adaptado para suas necessidades especiais de cadeirante, exigindo portas amplas, batentes largos e ausência total de degraus. Carmen terá um living, para receber convidados, sua suíte e um quarto para o Tony.
Depois de perder seus melhores empregados, que a acompanharam por toda a vida, e todos por motivo de aposentadoria – a última foi a camareira de muitas décadas, que partiu há pouco menos de dois meses – Carmen não vê outra alternativa.
Não tem mais paciência, tempo ou saúde para treinar novos funcionários em ofícios e habilidades, que exige o serviço a pessoas de um círculo restritíssimo, já em processo de extinção, cujos hábitos e rituais pedem alta especialização.
Daí que, lá se foram, em São Paulo, na primeira semana deste novembro, ao bater do martelo, ao soar dos pregões do último leilão de Dag Saboya, ante uma plateia de abastados paulistanos, todos os móveis e objetos de valor que adornavam seu apartamento espetacular…
Privilegiados os compradores desse leilão, pois Carmen possui um senso raríssimo de qualidade, harmonia e beleza. Além de ser aplicada e muito bem informada sobre tudo que signifique luxo, sofisticação e elegância no altíssimo mundo aos que muito poucos têm acesso.
Foram-se o famoso biombo Coromandel de 12 folhas do século 18 com imagens lacustres e barra florida, a cômoda D. Maria de jacarandá, com frisos florais em marqueterie, a cadeira de canto portuguesa D. João V de jacarandá, século 18, que pertenceu ao convento de São Francisco de Paraguaçu, em Pernambuco, com uma cabeça de leão entalhada no espaldar.
O Coromandel de 12 folhas
Afinal, quem vai saber dar brilho à fabulosa e delicada coleção de bichos de prata maciça portuguesa, todos assinados pelo prateiro Luis Ferreira, com contrastes datados de 1938?
A escultura de cavalo de Tróia, com olhos de contas? O cisne-floreira riscado com penugem delicada e com o corpo articulado? O hipopótamo, que quando a gente tocava a cabeça mexia, olhos de gemas preciosas, dentes e unhas de marfim? Ou, o bicho que deles todos a mim mais impressionava: a tartaruga gigante, daquelas das ilhas Galápagos, com seu casco real envernizado sobre corpo de prata maciça, cabeça, patas, cauda balançante; e os olhos, parecendo vivos, em contas de vidro – ou de pedras, não sei.
O cisne floreira
A tartaruga de prata maciça portuguesa com casco real
Do mundo animal, também lá se foram, a cabeça de touro esculpida em granito e bronze por Mario Agostinelli; os vários Cães de Fó, um deles com a pelagem em cachos, cabeça móvel, século 19, de esteatita, outros, de porcelana chinesa, inclusive um “rouge de fer”, do século 19, o par de galos, também “rouge de fer”, dos quais eu não desgrudava os olhos quando decoravam a mesa dos almoços. Esmaltados no mesmo tom, os patos chineses realçados a ouro.
Cabeça de touro de Agostinelli
Cão de Fó “sang de boeuf”
Cão de Fó incensório, de esteatita, cabeça móvel
Carmen galos, “não dava para desgrudar os olhos”
O par de patos
Já as esculturas das fênix chinesas são num vermelho mais fechado: “sang de boeuf”. Séc. XIX. Mas foram-se…
As fênix “sang de boeuf”
Os bichos do “zoo” Mayrink Veiga não estarão mais juntos. Agora separados, donos diferentes, novos habitats.
De todos os animais de que se “desapegou”, Carmen há de sentir mais falta daquele mais discreto, escondido num cantinho do quadro de Di Cavalcanti “Menina com Gato”. Óleo, 100 x 80 cm, o gatinho é simples coadjuvante da tela estrelada pela menina exibida. Mas quem sabe do amor de Carmen pelos felinos já a imagina adquirindo o Di justamente por causa daquele gato quase imperceptível.
“Menina com Gato”…. escondido, Di Cavalcanti
Outros Di da coleção de Carmen, partiram no pregão de Dag: um harmonioso vaso de flores, entre eles.
Quadros de brasileiros e de estrangeiros, como o francês Bernard Buffet. Um “Orfeu” esculpido no bronze por Bruno Giorgi. O famoso par de “Candangos” do mesmo artista. Esculturas de Ceschiatti.
Bernard Buffet
“Orfeu”, de Bruno Giorgi
“Candangos”, de Bruno Giorgi
Tapeçaria francesa de Aubusson, século 18: paisagem no campo, com floresta, castelo e pássaros. Tapeçaria de Jean Lurçat. Tapeçaria espanhola antiga. Todas com selo de autenticidade no verso. Tocheiros austriacos, chocolateiras de prata. Tapete Meshed.
Tapeçaria de Lurçat
Tapete Meshed
A ventarola vitoriana posta na mesinha de centro ao fundo do salão, com que Carmen, charmosa, ocasionalmente se abanava, decorada com arabescos a ouro e com cabo torneado com detalhes de marfim…
Com ventarola vitoriana de Carmen, em visita que fiz a ela este ano

Imagem brasileira representando o Cordeiro de Deus, vista logo à entrada do apartamento da Rui Barbosa, datada do século 19…
O mais lindo Espírito Santo, “Cordeiro de Deus”, que já vi
O leiloeiro alardeava: “Antigo par de cadeiras de braços javanesas em madeira ricamente entalhada e realçada a ouro apresentando. Espaldar em vazados sinuosos e pés em arco. Estofamento em tecido”. A cara de Carmen. Como será a cara da nova proprietária dessas belezuras?
As famosas cadeiras javanesas antigas de braço de Carmen, em que suas amigas gostavam tanto de estar, pela beleza, o conforto e a sofisticação, pois são a síntese da elegância de sua antiga dona, e de sua ousadia: a cara de Carmen! Aqui, Carmen é vista junto a uma delas e Mariza Coser na última reunião promovida por Carmen: o birthday party de seus gatos.
O par antigo de banquetas orientais onduladas, de madeira, com ponteiras e cantoneiras de metal dourados, em que ela tratou de colocar uma almofada persa, tão antiga quanto as peças. E lá se iam elas, logo levadas por um comprador, tão pomposas…

A Imagem de Nossa Senhora da Conceição, século 18, que ela mantinha sempre florida, no pequeno oratório brasileiro em jacarandá D. João V.

Um dos highlights do cenário de Carmen: a imagem de São Miguel Arcanjo, quase um metro, século 18, realçada em ouro, com as vestes entalhadas em elegante movimento, que ficava sobre o piano Steinway, que também se foi.

O piano Steinway e o São Miguel Arcanjo
O par de tronos espanhóis do século 18, madeira tão nobre quanto a dona, com saia ricamente entalhada em profusão de volutas, encosto e assento em couro de época, tacheado, com ponteiras em forma de pinhas esféricas. Metro e meia de altura. Só mesmo a Carmen para tê-los em casa. Impressionavam. Adorava encontrá-los a cada visita feita. As cadeiras preferidas de Carmen, antes da definitiva capitulação às cadeiras de rodas, por serem altas e muito confortáveis.
Par de Tronos espanhóis do século 18, próprios para Sua Majestade Dona Carmen I e Única
Foi-se também a credencia portuguesa, século 18, com pernas levemente recurvas com entalhes de abacaxis estilizados, “pés em garras unidas por travessão inferior”, explicava o catálogo.
Partiu a Importante mesa de apresentação italiana, belo exemplar do estilo palaciano italiano século 19, elementos clássicos e barrocos, patinada e dourada, tampo de mármore verde rajado, apoiado em saia reta esculpida com friso de florões, medalhões de volutas, arranjos florais. Peça de coleção.
O biombo chinês de quatro folhas de laca “rouge de fer”, século 18; o serviço de jantar Companhia das Indias, Família Rosa, 91 peças, as sopeiras “Chinese Imari”, tocheiros serafins portugueses, colunas barrocas em torsade, caixas chinesas de charão do século 18
O biombo de laca “rouge de fer”
A Sant’Ana Mestra com Nossa Senhora de pé ao seu lado.
Extraordinária cômoda D. José I de jacarandá do século 18 com pegas modeladas em carrapetas e espelhos das fechaduras esculpidos em belíssimos florões de marfim.
O leiloeiro anunciava os lotes, lances feitos, martelo batido, e o mundo encantado da alta sociedade brasileira mudava de mãos…
Carmen está absolutamente tranquila e feliz. Zen.
Quanto ao seu imenso guarda-roupa, a alta costura já foi toda doada para o acervo museológico do Instituto Zuzu Angel. As demais, as bolsas, os sapatos, as bijuterias, ela pretende fazer um grande bazar em casa, com araras na sala, chamar as amigas e vender tudo!
Ficará apenas com o essencial, aquilo que o novo apartamento comporta e que pede a nova vida, de menos festas, agora sem viagens, já que a dificuldade de mobilidade impede.
Está cada vez mais dedicada àquilo que sempre cultivou: a leitura, a paixão pelo cinema, o teatro. Mulher inteligente, jamais desprezou os prazeres intelectual e cultural.
Por essas e outras (por muitos motivos mais), admiro essa mulher e dou a ela essa alcunha de Primeira e Única da chamada Alta Sociedade Brasileira.
Enquanto tivermos Carmen, teremos o glamour, o refinamento e o senso do requinte e da qualidade.