Uma trepidante aventura da diplomacia brasileira que merecia ser seriado do Netflix

O *Embaixador Marcio de Oliveira Dias abre seu arquivo de memórias diplomáticas, e faz aqui um relato pitoresco sobre as peripécias, envolvendo a colaboração de um contrabandista americano, que propiciaram trazer ao Brasil a espécie de carneiro Merino australiano. E hoje o embaixador é chamado pelos pecuaristas do Rio Grande do Sul, onde a espécie prospera, de “o padrinho de todos os merinos brasileiros”.

“Em 1969, fui transferido do meu primeiro posto, Nova York, onde consegui ser meu próprio chefe, à frente do Setor de Promoção Comercial do Consulado-Geral. Como gostei muito da experiência, busquei um pequeno Consulado, onde pudesse continuar a sê-lo. E fui designado Cônsul em Sydney, na Austrália.

Serviço monótono, pouco que fazer, vida sem sobressaltos, mas também sem graça. Apesar das excelentes ostras e das mulheres fisicamente interessantes (eram como as inglesas, mas com um visível toque calipígio), a distância do Brasil e a falta de interesses recíprocos não emprestavam maior substância ao trabalho do posto. Assim, pensava em lá não quedar-me por mais do que um mínimo de tempo aceitável.

Entretanto, houve um episódio extremamente interessante e digno de nota, sob e o qual mantive silêncio público por muito tempo, mas que hoje, passados já mais de 50 anos, parece-me até didático recordar. Começarei pelos antecedentes.

Convidado por um vizinho para jogar pôquer, um dos parceiros, simpático mas algo peculiar, era um americano, proprietário de um velho avião DC3. No dia seguinte, o vizinho esclareceu-me que o americano vivia de trazer, com seu avião, cigarros para a Austrália. Como não me pareceu que um contrabandista fosse companhia ideal para um cônsul estrangeiro, não mais aceitei convites para jogar.

Nesta altura, já em meu segundo ano na cidade, realizava-se a “Sydney Spring Fair”, evento anual de importantes transações na área agro-pecuária. E os jornais faziam fortes referências ao fato de que, neste ano, a Austrália permitiria a exportação de reprodutores merino, raça de carneiros famosa pela qualidade de sua lã. No ano anterior também haviam feito idêntico anúncio, mas os adquirentes dos carneiros não
puderam depois tirá-los do país.

O merino australiano tem alta reputação mundial pela qualidade e quantidade de sua lã. Basta dizer que o recorde mundial de preço por um dos seus reprodutores foi de 450.000 dólares australianos (então de valor superior ao americano) pagos em 1988. E o recorde de produção de lã da raça é de mais de 40 quilos de lã numa só tosquia.

Um parêntesis para explicar a situação. Na política australiana, alguns partidos eram verdadeiros “lobbies” de interesses. Assim, havia um partido ligado aos criadores dos carneiros, que tinham grande empenho em vendê-los ao exterior. Outro partido representava os interesses dos fabricantes de lã, que não queriam concorrência externa. O governo buscava atender ora a uns, ora a outros, se possível a ambos. Como a proibição de exportação dos reprodutores adquiridos com a garantia do governo tinha sido mal vista pela opinião mundial, os compradores internacionais
voltaram à “Spring Fair” para uma vez mais tentar levar os carneiros garanhões.

Dentre os estrangeiros que vieram à feira, estava um grupo brasileiro, ligado ao então Ministro da Agricultura, o gaúcho Cirne Lima. Explicaram-me a situação e expuseram seu receio de que, depois de investirem uma quantia nada desprezível, não pudessem tirar os carneiros da Austrália.

Lembrando-me do episódio do pôquer com o contrabandista de cigarros, ocorreu-me uma ideia, que lhes expus, dizendo que poderíamos tentar uma saída caso as autoridades australianas, como suspeitávamos, fugissem uma vez mais às garantias de exportação dos animais. Entusiasmadamente recebida a hipótese, expliquei que eu teria inicialmente de buscar a aprovação do Itamaraty, para o que contribuiria uma pressão do Ministério da Agricultura brasileiro. E, naturalmente, a concordância do americano contrabandista.

Mandando às favas minhas restrições à “profissão” deste último, chamei-o e diretamente perguntei se, assim como ganhava a vida “bringing in” para a Austrália, não estaria disposto a faturar, “taking out” carga de nosso interesse. Acedeu com o maior gosto.

Aí começou um trabalho paciente, que teria de ser feito com rapidez, pois diz-se que os reprodutores merino não costumam conservar sua potência por muito tempo, aparentemente fatigando-se do seu agradável mister.

A dificuldade inicial era a de que o Consulado, por não lidar com assuntos confidenciais, sequer dispunha de código para comunicações. Tive de expor o esquema ao Itamaraty por telegrama secreto a ser enviado via Embaixada em Camberra, e receber a resposta pela mesma via. Para isso fui duas ou três vezes à capital, distante pouco mais de 200 quilômetros (o que fiz com prazer ao volante da minha querida Alfa Romeo Duetto Spider, certamente chegando perto do recorde de tempo para viagens entre as duas cidades).

O esquema era o de mandar os carneiros para Noumea, na Nova Caledônia, donde embarcariam imediatamente num vôo da Air France para o Brasil. Os contatos com a Air France foram providenciados, confidencial e rapidamente, pelas autoridades brasileiras.

A área competente do Itamaraty, dirigida pelo excelente profissional Embaixador David Silveira da Motta, aprovou o plano e deu-me sinal verde para implementá-lo.

Como desconfiávamos, o lado australiano tinha suas idéias para barrar a saída dos carneiros. Assim, embora o Governo mantivesse que permitiria a exportação, o Sindicato de Carregadores do aeroporto anunciou que não permitiria o reabastecimento dos aviões que fossem transportar os animais. E com a
distância da Austrália, nem pensar em não reabastecê-los.

Comprados os reprodutores a peso de ouro, preparei a documentação para exportação e a submeti às autoridades locais. Advertido de que a exportação poderia não ocorrer, devido à ação do sindicato, insisti (com minha melhor aparência inocente) na legalização dos documentos de qualquer maneira. O que foi finalmente conseguido com a oferta amigável de uma caixa de “whiskey” ao claramente incrédulo agente.

Procurei, por discrição profissional, não inteirar-me dos demais detalhes da operação, deixando-os às competentes mãos do Itamaraty e do Ministério da Agricultura.

Tudo funcionou muito bem. Com os carneiros já no Brasil, sou um belo dia convocado pelo Governador. Recebido friamente, pergunta-me a autoridade, sem maiores rodeios, se eu havia contribuído para a saída dos reprodutores da Austrália. Respondi tranquilamente que sim. Subindo o tom, pergunta-me o Governador se eu não sabia que a exportação dos animais estava proibida pelo sindicato. Respondi-lhe, com a mais deliberada tranquilidade, que eu era acreditado junto ao seu Governo, em cuja palavra
publicamente difundida. acreditara, e não junto ao Sindicato dos Carregadores de Kingsford Smith (o aeroporto de Sydney).

A expressão de ódio e frustração do Governador é das melhores lembranças que tenho da carreira…

Furioso, disse-me que soubera que eu estava viajando em férias ao Brasil e que não pretendia voltar. E acrescentou raivosamente que era bom que não voltasse. Concordei com grande prazer e despedi-me, sem que ele se dignasse a estender-me a mão. O que só fez aumentar minha satisfação com a entrevista…

Na volta para casa, não consegui conter o riso. E até hoje dou boas gargalhadas ao lembrar-me do episódio. Anos mais tarde, já Cônsul-Geral em Buenos Aires, tive a satisfação de, numa passagem por Uruguaiana, ser efusivamente saudado por criadores gaúchos como “o padrinho de todos os merinos brasileiros”…

*Márcio de Oliveira Dias é embaixador aposentado, tendo representado o Brasil em vários postos importantes no exterior, com sua competência e seu apurado senso de humor e de observação, o que proporciona aos que o conhecem acesso a relatos espirituosos e palpitantes sobre a vida de um diplomata de carreira. Aqui no blog, ele nos premia com uma dessas suas interessantes experiências.

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