Um cemitério nas costas*, com honra e louvor

Hildegard Angel

Não são os velhos que estão morrendo. É o meu mundo que está se indo embora. Hoje, partiu minha infância, com Little Richard, que me fez vir à cabeça o pote de Gumex de meu irmão, que devia ter uns 14 anos, usado para esculpir seu topete elaborado. Vestido com sua jaqueta de couro, à la James Dean, Tuti fez uma única festa em casa, com todos os amigos dançando rock na sala, ao som de Tutti Frutti – Tuti como no apelido dele, “que coincidência” eu achava. Os rapazes balançavam os braços, rodopiavam, giravam as garotas. E eu de penetra, para dissabor do irmão envergonhado pela pirralha infiltrada. Os Long Plays de Little Richard eram o destaque em nossa rádio vitrola, que tocava discos de 33 rotações, 78 e 45, e tinha também The Everly Brothers, Bill Haley & His Comets e, claro, Elvis Presley. Ah, Little Richard foi, sim, o pioneiro do Rock’n Roll, e ninguém tasca seu trono lá de casa.

Alô, Daisy!

Foi-se Daysi Lúcidi, com sua voz morna e meio rouca, que inspirava empatia, ídolo da Rádio Nacional, supercampeã de audiência por décadas com seu programa Alô, Daisy!, amada, idolatrada, com seus conselhos e a caridade radiofônica, que a levou a ingressar na política com honra e glória. Seu reinado nas ondas longas e curtas começou a ser ameaçado por Cidinha Campos, numa disputa pelos melhores horários na emissora, onde Daisy era amada e tinha sempre a primazia das escolhas. Cidinha, no auge de sua juventude, talento, vigor crítico e determinação, abalou a hegemonia de Daysi na casa. Imagino o quanto deve ter sido penoso, para Daysi, ver sua posição afetada. Mas ela foi em frente, na política e nas novelas, para onde foi levada pela amiga, também oriunda do rádio, Janete Clair, e, posteriormente, pelo jovem autor de novelas Gilberto Braga, seu antigo vizinho na rua Ayres Saldanha, em Copacabana. Daysi tinha todo o carinho da classe artística. Era presença constante, com o marido Luís Mendes, nos jantares memoráveis do ator, produtor de novelas e “chef”, Fabio Sabag, e era amiga-irmã da atriz Yara Cortes, que brilhou na telinha global como Dona Xêpa e em O Casarão. 

Projeto de Jesus

Foi nos anos 90. Jesus Chediak me procurou com um pedido. Queria mostrar a Hebe Camargo um monólogo teatral a ser apresentado por ela, que excursionaria por todo o Brasil. Liguei para Hebe em São Paulo, ela ficou de avisar quando viesse ao Rio. Assim foi feito. Hebe chegou, marcamos um almoço no Gourmet do Zé Hugo Celidônio, em Botafogo, e fomos eu, ela, o sobrinho, o autor Jesus Chediak, uma outra pessoa que não lembro. Jesus expôs seu projeto. Hebe riu, sem mostrar muito interesse. Aflita, tentei apoiar o amigo com meu argumento tosco: “Hebe, você vai lotar teatros no Brasil inteiro, será o máximo, você vai ganhar toneladas de dinheiro. Cidinha Campos comprou sua casa na Barra com o sucesso de seu monólogo Homem Não Entra.” Pra quê! Hebe fez um muchocho de ironia, deu um risinho, e disse, “ah, a Cidinha comprou uma casa na Barra é?”, como se dissesse “ah, a Cidinha comprou um barraco, é?”. Caí em mim da minha gafe. Hebe era inimiga figadal de Cidinha, que tinha, mais ou menos como com Daisy no rádio, ameaçado a hegemonia da loura na televisão Record. Nunca mais falou-se no projeto de Jesus, e ele seguiu seu caminho, sempre árduo, na cultura brasileira. Há três ou quatro anos, fui convidada para uma sessão reservada de seu documentário sobre Pedro Aleixo, político mineiro, vice-presidente no período de 1967 e 1969, no governo Costa e Silva. Foi Aleixo quem desaprovou a assinatura do AI-5, dizendo a frase “Não temo o que fará o presidente com ele, temo o que poderá fazer o guarda da esquina”. O filme revela que o conservador Pedro Aleixo, udenista de raiz, tinha um irmão membro do Partido Comunista, Alberto Aleixo, tipógrafo e editor do jornal do partido, Voz Operária. Alberto, após longo sumiço, reapareceu para a família em Belo Horizonte, propondo a venda de sua parte na herança comum, avaliada em seis mil cruzeiros. Nenhum herdeiro se interessou. Mas Alberto insistia. Até que um sobrinho se dispôs a comprar a parte, mas só daria quatro mil. Foi quando Alberto insistiu que desejava fechar o negócio, sim, porém apenas por três mil cruzeiros, que era do que precisava para manter a circulação do jornal, sediado no Rio, na rua Álvaro Alvim. E assim foi feito. Alberto Aleixo, idealista de raiz.

Alberto foi preso pelo governo, sua saúde ficou muito abalada na prisão, porém o promotor negou a prisão domiciliar, alegando que, se ele teve saúde para fazer subversão, teria para pagar o preço de seu “crime”. Morreu Alberto cumprindo pena, sozinho, no Souza Aguiar, como presidiário. Pedro Aleixo viveu o drama de, na condição de vice-presidente, não conseguir interceder pelo irmão, com quem chegou a se encontrar uma vez na clandestinidade. Anos de chumbo.

Os Migliaccio

A partida de Flavio Migliaccio trouxe com ela a lembrança de sua irmã, atriz tão fabulosa quanto ele, Dirce Migliaccio, uma das Irmãs Cajazeiras. Lembrei-me de seu desempenho hilariante em O Vaso Suspirado, peça de Francisco Pereira da Silva, atuando em duo com Virginia Valli, minha tia – duas grandes comediantes – no Teatro Jovem de Kleber Santos. Dirce foi das maiores do riso inteligente do país. Aplaudida, contudo, jamais obteve reconhecimento à altura de seu brilhantismo. Morreu quando vivia no Retiro dos Artistas, onde se recolhem os artistas que nunca ganharam o suficiente para um pé de meia.

O Teatro Jovem do Mourisco era considerado “a off-Broadway do teatro carioca”. Kleber propunha uma nova dramaturgia, que refletisse a realidade brasileira. O Jovem valorizava em sua programação os autores nacionais, como o autor Flavio Migliaccio, com a montagem do espetáculo Todo Mundo Ri, em 2 atos. Um ato com texto de Flávio e um de Francisco Pereira da Silva. Foi o teatro de minha adolescência. No Jovem, assisti à épica A Moratória, de Jorge de Andrade, que lançou e projetou a atriz Isabel Ribeiro. Outra peça impagável de Flavio Migliaccio: A Ocasião Desfaz o Ladrão. Lá, assisti à Eva Wilma – que desempenho! – como Banca Dias em O Santo Inquérito, a magistral criação de Dias Gomes, uma “Joana D’Arc” à brasileira. A apoteose de público do teatro de Kleber, contudo, não foi a alta dramaturgia nacional, foi um lindo espetáculo musical, de Hermínio Bello de Carvalho, Rosa de Ouro, com Aracy Cortes, e não me sai da cabeça a voz peculiar e o coro, entoando “Rosa de Ouro / que tesouro / é esta rosa cravada no fundo do peito”.

Que muitas rosas de ouro sejam depositadas nos túmulos de Little Richard, Daysi Lúcidi, Jesus Chediak, Flavio e Dirce Migliaccio, e tantos outros, que partiram deixando rastros encantados e vestígios encantadores. Sim, eu carrego um cemitério nas costas, este é o legado que me coube no latifúndio equilibrista (bênção, Aldir Blanc!) da memória brasileira. E com muita honra!

*Referência ao discurso-epitáfio de Regina Duarte

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