Sugestão aos ricos: ceder os gramados e quadras de seus clubes para hospitais de campanha

No início da pandemia, então “epidemia”, ouvi de uma amiga frequentadora do Country Club que os ricos não iriam morrer, já que têm recursos para os melhores médicos e hospitais. Por ironia e infelicidade, foi justamente uma sócia do clube, Mirna Bandeira de Mello, uma das primeiras vítimas fatais da doença no Rio de Janeiro. Agora, o Country Club está lá, fechado, com dezenas de sócios infectados, causa de tristeza e preocupação.

O Covid-19 não tem poupado sequer os inatingíveis. A praga não respeita poder e dinheiro. Da Espanha, chega notícia da morte de mais um milionário poderoso, o ex-presidente da Repsol, dono de vinícola, Alfonso Cortina. Nos EUA, a atriz Lee Fierro, de Tubarão, é outra que se foi, entre tantos do show business internacional. Na moda, o estilista italiano de sapatos, Sergio Rossi. O ex-ministro da França, Patrick Devedjian. O britânico, marquês de Bath, Alexander Thynn. O principal consultor do Líder Supremo Ali Khamenei, do Irã. O banqueiro italiano Piero Schlesinger, ex-presidente do Banco Popular de Milão. Nomes pinçados em uma longa lista, permanentemente atualizada, na Wikipedia. Enquanto o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, com a situação agravada, acaba de dar entrada na UTI.

Em São Paulo, o destino dos que podem pagar são os hospitais Sírio e Libanês e  Albert Einstein. No Rio de Janeiro, os hospitais Copa Star, Samaritano, São Vicente, Pró-Cardíaco. Para os que podem pagar, a medicina tem grife. Mas a grife também pode ter medicina pública, é só se dispor a isso. Vai daqui a sugestão: fazer dos mais bem grifados e fechados clubes do Rio hospitais de campanha, cedendo para isso seu gramado imenso e suas quadras de tênis. Assim, seria com o Country Club, bem como o magnífico Gávea Golf Club, junto à Rocinha, com seu green de 18 buracos, dividido em dois campos, atravessando até a auto-estrada Lagoa-Barra; o Itanhangá de Golfe e Polo, originalmente uma fazenda, ao lado de comunidade pobre do mesmo nome; o Jockey Club do Rio de Janeiro, aquela imensidão na Gávea, com pistas e gramados; a Hípica, com seu grandioso picadeiro para saltos diante da Lagoa, todos poderiam fazer igual.

Os clubes paulistanos, como o Harmonia de Tênis; o Esporte Clube Pinheiros, com seus 170 mil m²; o imenso Paineiras, no Morumbi, o Clube de Campo de São Paulo, 110 hectares de área, entre tantos espaços magníficos, pois clubes grandiosos não faltam à cidade de São Paulo.

Poderiam, todas essas agremiações, contemplar suas comunidades não apenas com o espaço, mas ainda com a participação generosa dos sócios, com doações que contribuam para viabilizar as instalações hospitalares. E sobretudo com o apoio do governo federal, que só de uma tacada premiou os bancos com 1,2 trilhões de reais. Não custa jogar mais um mísero bilhão no chapéu da saúde necessitada.

Os bons exemplos são muitos, e vêm do “mundo civilizado”. Nova York destinou, além do Central Park, as quadras do US Open, o mais famoso torneio de tênis do mundo, no Billie Jean King National Tennis Center, em Queens. Nossos clubes de futebol também estão nos devendo essa.

Esse vírus misterioso, em sua origem e em suas características, nos sugere propósitos múltiplos. Ora eugenistas, quando pune e discrimina os idosos e aqueles que têm males pré-existente. Ora tragicamente reveladores, ao desvendar o rosto tragicamente insensível do capitalismo, que sequestra nos aeroportos cargas de insumos para a saúde de outros países. A face gananciosa dos que se aproveitam até da peste. A face divinamente transformadora, nos fazendo vislumbrar a possibilidade de um mundo pós-Covid, de maior tolerância e fraternidade, com diferenças menos agudas e corações mais atentos.

É isso que o universo está gritando aos nossos ouvidos. Chegou a hora de abrir as mãos e de se dar as mãos, irmanados em torno de um objetivo comum, como única possibilidade de a Humanidade sobreviver e prosseguir.

Vista aérea parcial de gramado e quadras do Country Club, em frente ao mar de Ipanema

 

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