Praia do Flamengo 88

Nos primórdios dos anos 30, começou a ser erguido, por Assunta Grimaldi Seabra, o Edifício Seabra, na Praia do Flamengo número 88, um dos endereços mais elegantes do Rio de Janeiro. Numa época em que a construção imobiliária de edifícios ensaiava seus primeiros passos, quando rico algum trocaria suas mansões para morar naquele tipo de moradia, em que os moradores viviam uns acima dos outros e tinham por perto os tais vizinhos, mesmo assim, a empreendedora dona Assunta resolveu construir seu palacete nas alturas…

Numa deferência ao comendador Gervásio Seabra, marido de Assunta, a escritora Maria Araújo, que lançou ontem no hall de entrada do próprio edifício seu livro Palais Seabra, dá a ele também o crédito pela construção do prédio, mas verdade é que foi a senhora italiana, de grande requinte e gosto, a responsável por toda essa fantástica obra, que ela pessoalmente comandou até o fim. E vocês podem imaginar o significado disso nos anos 30? Uma mulher sozinha dar conta de tamanho recado?…

Maria Araújo tem um apreço muito especial pelos Seabra. Seu marido, Manuel Ruy da Silva, trabalhou com os filhos de Assunta e Gervásio, os irmãos Nelson e Roberto Seabra, por mais de 40 anos. “Cheguei nesse prédio com 13 anos e trabalhei como boy para a empresa da família, que tinha sua sede no Centro. Com o tempo, fui me aproximando mais do senhor Nelson Seabra e passei a administrar suas contas e as das empresas. Ele me ensinou tudo. Era uma pessoa sui generis, não tinha mau humor. Se ele por acaso estivesse sofrendo com algo, isso não transparecia. Com ele, ganhei cultura, educação e pude criar minhas filhas transmitindo esses ensinamentos a elas”, contava Ruy, que no testamento de Nelson Seabra ficou com um apartamento no prédio, que até hoje ele mantém como seu escritório…

O livro é uma homenagem a toda a família Seabra e também um trabalho minucioso sobre os padrões da arquitetura brasileira na primeira metade do século XX, quando o ecletismo esteve em grande voga, fazendo surgirem vários prédios com esse padrão estético. O arquiteto italiano que desenhou o prédio, Mario Vodret, obedeceu em tudo ao gosto de Assunta Seabra, que descendia da aristocracia italiana, influenciando demais sua composição final…

Depois da morte dos irmãos Seabra, coube ao sobrinho deles, Nelson Seabra Veiga, e sua família o espólio e também a responsabilidade de manter o sobrenome que fez história em diversos segmentos sociais brasileiros – no turfe, no meio industrial e no grand monde internacional em que Nelson Seabra pontificou. E ali estavam, ajudando Maria Araújo a receber os amigos, Idinha, a viúva de Nelson Seabra Veiga, seu filho, Antonio Paulo, e a neta, Mariana

Uma curiosidade sobre o prédio, chamado por Maria de Palais Seabra, é que ele tem um hall privativo, com elevador exclusivo para o triplex onde moravam os Seabra, caso eles não quisessem usar a entrada principal do edifício. São poucos os prédios do Rio de Janeiro que têm esse requinte. Entre eles, estão o Zamudio, na Av. Rui Barbosa, o prédio dos Guinle na Rua Tucumã com Praia do Flamengo e o Edifício Rainha Elizabeth, em Copacabana, com portaria e elevador exclusivos dando acesso aos apartamentos das coberturas que pertencem, respectivamente, aos Camarão, aos Fragoso Pires e aos Serpa

Agora, quem vai usar o hall e o elevador privativo do Palais Seabra serão os paulistas Tito e Ângela Freitas, os novos proprietários do triplex que pertenceu aos Seabra, que ficou anos fechado, desde a morte de Roberto. A nova proprietária, Ângela, esteve ontem no lançamento do livro e comentou que procura um arquiteto carioca para realizar a reforma do imóvel pelo qual pagou 7 milhões de reais. Ela revelava mais: “Quero fazer mudanças em alguns dos cômodos e manter outros intactos, como o banheiro principal do apartamento, que é todo de mármore preto e com luminárias Tiffany“…

Ângela é filha de Gabriel Mario Rodrigues, dono da Universidade Anhembi Morumbi, e quem lhe deu a dica do imóvel maravilhoso no Rio e a apresentou aos herdeiros foi a amiga italiana-quase-brasileira Fernanda Maranese

Mas, cá entre nós, mais bonito do que o prédio, mais notável do que o feito de dona Assunta, mais glamouroso do que ter um elevador para chamar de seu é essa demonstração tão carinhosa de reconhecimento e admiração dada pela escritora Maria Araújo e por seu marido, Manuel Ruy, tornando realidade a edição deste livro primoroso, que perpetua a memória de uma família que representou muito na sociedade brasileira, com todos os méritos para ser apreciada e lembrada. O que eu, aliás, posso endossar, não pela convivência com Nelson, pois nossos contatos foram poucos, mas pela grande distinção de seu irmão, Roberto, um verdadeiro cavalheiro sempre, e também dos Seabra Veiga. Bravo, Maria!…

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Fotos de Sebastião Marinho

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