Por que eu estou com os meninos da USP e não abro

Fui ontem a um almoço, numa casa muito bonita, de pessoas muito bonitas. As mulheres eram amáveis, os homens importantes. Empresários respeitados, industriais, jornalistas de fama e uma vereadora combativa da cidade do Rio de Janeiro. A horas tais, à mesa, solto esta: “Estou com os meninos da USP e não abro!”. Para escândalo do jornalista ao meu lado, meu conhecido de há mais de 30 anos, que reaje: “Pô, Hilde, não diz uma bobagem dessas!”. E eu, que não dispenso uma polêmica com bom caldo, desfio minhas razões, sem vírgula, nem pausa, nem ponto e vírgula:

“Ora essa, você teve 18 anos, eu já tive 18 anos, seus filhos tiveram 18 anos. Você deve saber como as coisas são. Nossos filhos cresceram sendo ensinados a ter medo de polícia, sobretudo de PM. E você já ouviu falar de alguma universidade do mundo que tenha polícia militar em seu campus? Harvard tem? UCLA tem? A Sorbonne tem? Yale? Lyon? Columbia? Coimbra? Nenhuma tem! Eles têm o serviço de policiamento da própria universidade, gente treinada. Não é um procedimento “educativo” encher o campus de policiais militares, sobretudo desses PMs truculentos e despreparados como os nossos, do tipo “chame o ladrão”, como nos ensinou o Chico. Mais da metade dos crimes violentos de que a gente tem notícia são protagonizados por PMs. Com que confiança vamos entregar a vida de nossas crianças a esses homens armados? E se um “poliça” resolve achar que puxar fumo no campus é crime, se irrita com um “filho de papai” mais atrevidinho e decide meter uma bala na testa dele? E aí? E você sabe quem é esse reitor Grandino Rodas? Por acaso, ele é o mesmo que se opôs ao processo de minha mãe na Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos. Um radical! Não podemos nos deixar contagiar pela primeira impressão, temos que pensar este episódio em profundidade e não em sua superfície. Estou com os meninos da USP e não abro. PMs no campus, não!”…

Esqueci de dizer que, na única respirada que dei, meu interlocutor, que quando eu conheci usava cabelos longos, conseguiu dizer: “Eu fumei maconha quando tinha 18 anos, mas não podemos deixar o tráfico invadir o campus da USP”. Ao que eu contra-argumentei: “E não é muito mais lógico que os maus policiais introduzam os traficantes na USP, já que eles vivem de extorqui-los, do que os jovens estudantes universitários?”…

Vamos brigar, sim, mas para que as universidades tenham recursos para criar suas forças próprias de segurança, bem treinadas, equipadas, qualificadas, motorizadas, e não para expor nossos jovens à truculência dos historicamente despreparados PMs, que, na maior parte das vezes, quando frequentam o noticiário policial, não é desempenhando o papel de mocinhos…

PS: Escrevo este post no mais inoportuno dos momentos, no mesmo dia em que a Polícia Militar nos enche de ogulho – aliás, todas as polícias – no Rio de Janeiro, com um trabalho de inteligência bem pensado, organizado, honesto e sério, sob a coordenação do secretário José Mariano Beltrame, com a ocupação, sem um único tiro, sem atemorizar as populações, das favelas de Rocinha,Vidigal e Chácara do Céu, permanentes barris de pólvora a céu aberto. E um grande viva a nossas forças policiais, à delegada Martha Rocha e a este gaúcho destemido e admirável, o secretário Beltrame, e à sua adorável mulher, a Rita

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