Partiu Mirtia Gallotti, com sua risada musical

Hildegard Angel

Mirtia Gallotti era sistemática. Como sempre fazia, depois de acordar e tomar o café foi tomar seu banho matinal e lavar a cabeça. Às 11,30 horas foi encontrada morta no chuveiro. Mirtia era muito cuidadosa consigo mesma, sua saúde. Ela tinha pressão convergente, quando a pressão máxima se encontra com a mínima, o que é sempre um grande risco, e tomava regularmente seus remédios para a pressão. Já tem algum tempo, Mirtia se tornou medrosa, não saía mais à noite, não dirigia mais automóvel. E estava muito impressionada com a pandemia.

O programa social obrigatório e preferido de Mirtia Gallotti eram os cineminhas de sábado em casa dos amigos João Maurício e Maria Alice Araújo Pinho, com quem Mirtia conversava todos os dias ao telefone, e era What’sApp toda hora. Nossos últimos encontros sociais foram no cineminha dos Araújo Pinho e em jantares em minha casa.

Desde que enviuvou de Antonio Gallotti, Mirtia nunca mais se casou. Ou melhor, nunca mais quis se casar. Candidatos não faltaram. Como o banqueiro Jorge Piano que, quando enviuvou, tentou lhe fazer a corte, mas ela não o estimulou. Ela sempre foi muito seletiva. Muito religiosa, ia à missa de São Paulo Apóstolo regularmente. Em Paris, não abria mão das missas na Rue du Bac. E não posso esquecer seu carinho, sempre nos trazendo de lá um vidrinho de água benta. Era muito bonita. A imagem mais bela que guardo de Mirtia é correndo à beira mar, em Miami Beach, toda cinza, training e camiseta, com o rabo de cavalo louro cinza embalado pelo vento. Cinematográfica.

A outra imagem que guardo de Mirtia foi de quando a conheci, como Mirtia Kegler, levada por Tony Gallotti a um jantar em casa da grande amiga dele, Consuelo Pereira de Almeida, que veio a se tornar também grande amiga dela. Gallotti era um dos mais poderosos empresários brasileiros, carreira iniciada como advogado da empresa canadense Brazilian Traction, Light and Power Company,  responsável pela geração e a distribuição da energia elétrica em Rioe São Paulo e também controlava os serviços de gás, telefone e bondes no Rio e em São Paulo, bem como todos os serviços de utilidade pública em Santos. Possuía, além disso, diversas subsidiárias para a instalação de serviços de luz, força, telefone e gás nas principais cidades do país. De advogado a representante do grupo no Brasil, e depois presidente da Light, e chefe executivo do Grupo Brascan Brasil, Administração e Investimentos, organização cujos investimentos eram estimados em dois bilhões de dólares.

A Mirtia Kegler era completamente diferente da quase sóbria e contida Mirtia Gallotti. Iluminada, esfuziante, risada rouca e musical, ela encantou naquela noite em que Gallotti a introduziu em seu círculo de amigos. Estavam também presentes, além de nós, Roberto e Yara Andrade, Roberto e Stella Campos. O que deu margem a uma mesa de anedotas impagáveis, com Tony e os Robertos brilhando com seus repertórios de piadas, que sabiam muito bem contar.

Antonio Gallotti voltava à plenitude de sua exuberância, depois da conturbada separação de Miriam Atalla, sua segunda mulher. A primeira chamava-se Minda (Arminda). Iguais no prenome, totalmente diferentes nas personalidades.

Mirtia tinha dois grandes amores. O filho, advogado Luciano Saldanha, casado com a jornalista Maria Beltrão, e a neta, Ana Beatriz, do primeiro casamento de Luciano. Hoje, Maria Beltrão não apresentou o Estúdio I, e com fortes motivos para isso. De certo, o jornalismo estava sempre presente na vida de Mirtia, cujo primeiro marido, Saldanha Coelho, foi um importante jornalista político brasileiro, vereador, deputado, sempre ligado ao PTB.

Não haverá velório nem enterro, devido à pandemia. Repousa em paz, querida Mirtia.

Mirtia Gallotti e Maria Alice de Araujo Pinho, grandes amigas

Mirtia Gallotti convidava, e estava em dia de astral particularmente ótimo: aquele sorrisão.

A capricorniana Mirtia

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