NO AUGE DE SEU NOME CONSOLIDADO, ISABELA CAPETO RECOMEÇA VOLTANDO AO PASSADO DAS CHARMOSAS “MAISONS”

Neste momento em que os grandes investidores adquirem as marcas de moda mais bacanas e consagradas e renegam seus talentosos criadores originais, aqueles que lhes emprestam seus nomes, formando equipes anônimas.

Grupos estes, verdadeiros potentados, avassaladores, para os quais o consumidor existe apenas como item de estatística, e cuja providência é criar mega estruturas distanciadas do conceito das próprias marcas.

Neste exato momento e hora, Isabela Capeto retorna aos tempos das exclusivas maisons de moda de antigamente, instalando-se num bucólico ateliê no Horto, que ela inaugura amanhã e domingo.

Assim como mademoiselle Chanel tinha em Paris a sua sofisticada Rue Cambon (com seu apartamento acoplado ao atelier) ou assim como Zuzu Angel mantinha residência e atelier na casa charmosa da Rua Nascimento Silva 510, em Ipanema, Isabela, no auge de seu nome consolidado, propõe-se a um recomeço totalmente alternativo: a vanguarda retrô!

isabela capetoIsabela Capeto

Ela se instala num atelier petite maison, no bucolismo do Horto, cercada pelos aromas, os verdes e as orquídeas do Jardim Botânico e tendo, por testemunha, o sovaco do Cristo.

Esta é a grande tendência que os narizes fashion farejam no ar, este é o chique do momento: a moda com exclusividade. Abaixo a impessoalidade da moda apenas pela grife, da marca valorizada somente pelo preço ou pela notoriedade da celebridade que a veste.

Isabela Capeto entendeu que moda é individualidade, é contato pessoal, é olho no olho, é toque no tecido, é pele na seda. São as estampas e as cores fazendo arrepiar os cabelinhos do braço. E isso só acontece em uma maison muito pessoal.

Foi essa a coragem dela. De voltar ao início, ao que era antigamente, ao cafezinho servido pela copeira, ao bolo servido na mesa.

Esses pequenos luxos é que são os altos luxos, num mundo tão monotonamente superficial.

Com seu novo atelier, Isabela, que eu chamo de “Capetinha”, dá um grande salto para o passado rumo ao futuro. O contemporâneo é a memória!

Confiram o bate-papo que nossa Marina Giustino teve com a estilista e visitem em avant-prémière o endereço que ela inaugura amanhã!

Hildegard Angel

 

BLOG DA HILDE: Nesse momento em que grandes investidores adquirem marcas consagradas e negam o talento de criadores originais, você escolheu justamente seguir a onda contrária, de retornar às suas origens, ao tempo das maisons, valorizando o processo criativo de um produto autoral sem a pressão do mercado, de seguir um calendário ou produzir em larga escala. O que esse recomeço representa para você? E a partir de que momento surgiu em você a vontade de retomar esse antigo modelo de trabalho?

ISABELA CAPETO: Quando vendi a marca para um grande grupo há alguns anos, não deu certo. Acabei saindo de meu rumo. Nessa época, percebi que o que eu verdadeiramente gostava era fazer coisas mais autorais, coisas que vinham do coração. Juntar-se com o grupo me gerou uma grande frustração. Não tinha nada a ver comigo. Fiquei dois anos com eles e foram mais dois anos para me desvencilhar deles. Quero é fazer aquilo em que acredito! Quero fazer roupa que seja desejo, que seja trabalhada, que não seja efêmera. Roupa que passa de mãe pra filha. Peças únicas, em pouca quantidade.

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BLOG DA HILDE: Por quê o Horto?

ISABELA CAPETO: Adoro o Horto! Quando comecei, fui pra Gávea. Os lugares que mais amo no Rio são a Gávea e o Horto. Acho bucólico e tranquilo para a criação.

BLOG DA HILDE: Fale um pouco mais sobre esse novo espaço. Como você pretende utilizá-lo?

ISABELA CAPETO: Esse atelier é onde realizo todos os meus trabalhos, não só relacionados às roupas de minha marca, mas, também, a licenciamentos e figurinos, por exemplo. É um lugar que eu chamo de casa-trabalho. Um local onde posso encontrar minhas amigas. Aqui, quem vem em busca de minhas roupas são pessoas que realmente admiram meu trabalho. Posso ficar mais próximo do cliente, ter contato com ele, olho no olho. Na loja não era assim.

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BLOG DA HILDE: Você pretende fazer de seu novo atelier um ponto de encontro e de troca de ideias. Entre os seus planos, está o de lançar um curso de bordados. Fale mais sobre esse projeto.

ISABELA CAPETO: Ah, sim! Meu sonho é ter uma escola de bordados. Mas ainda preciso me organizar para dar os cursos. Quero que minhas bordadeiras possam ensinar e capacitar outras mulheres e, também, jovens interessados em aprender este ofício. Tenho vontade de poder ajudar, ensinar algo às outras pessoas.

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BLOG DA HILDE: Como você enxerga o papel do estilista atualmente?

ISABELA CAPETO: Estilista, antigamente, era criador. Ser estilista está muito difícil. As pessoas pensam apenas no glamour, mas é muita ralação!

BLOG DA HILDE: Que características vocês acha essenciais em um novo talento que deseja se destacar no mercado da moda?

ISABELA CAPETO: Quando uma pessoa faz algo diferente, todo mundo irá notar. Tem que ser do coração. A pessoa deve ser o que é. Precisa ser livre, autoral. Deve se desprender dessa armadura imposta pela sociedade.

BLOG DA HILDE: Em relação à moda brasileira, como você enxerga seu momento atual?

ISABELA CAPETO: A moda brasileira está num momento muito difícil. As coisas estão muito caras. As pessoas viajam e preferem comprar suas roupas lá fora. Quando comecei minha marca, comecei vendendo lá fora, porque os brasileiros não sabiam valorizá-la. Infelizmente, as pessoas preferem o que vem de fora. Querem ter a bolsa da marca francesa porque dá status. Assim fica difícil a moda brasileira se destacar no Brasil. Mas existe muita gente criativa, fazendo trabalhos autorais, desconhecidos ou famosos: Alexandre Herchcovitch, Gloria Coelho, Ronaldo Fraga, Pedro Lourenço… São todos criadores desprendidos de conceitos.

BLOG DA HILDE: Em relação ao processo criativo, o que mais te inspira?

ISABELA CAPETO: Busco minhas inspirações em meu próprio cotidiano ou quando tenho a oportunidade de viajar. Recentemente fui para Belém do Pará. Foi maravilhoso! Em minha nova coleção, trago muitas sementes de lá bordadas em roupas. Tudo pode servir de inspiração. Procuro observar cada coisa ao meu redor.

BLOG DA HILDE: Por último, fale um pouco mais sobre sua nova coleção de verão.

ISABELA CAPETO: Ela se chama “Tsunamis, caracóis e Flórida”. É uma junção desta minha atual fase da vida que parece um “tsunami”. Os caracóis se relacionam com o rodamoinho, tudo volta para o mesmo lugar. A Flórida tem a ver com uma viagem que fiz pra lá. Tem estampa de cartolinha, conchas, laranjas. Tem muita cor amarela também. Sou apaixonada por amarelo. Isso de ter que ter um tema diferente a cada coleção, que se dane! Faz o que quiser, faz o que gosta! Todas as minhas roupas são feitas no Brasil. Devemos valorizar o que é nosso. Reaproveito tudo! As batas de cambraia de linho dessa coleção são feitas de cortinas de minha antiga loja. Quanto mais antiga a cambraia, mais bonita ela fica. Eu faço assim, retinjo e reaproveito. Peças desse tipo são especiais, trazem com si uma história.

verão 2014 capeto

6 ideias sobre “NO AUGE DE SEU NOME CONSOLIDADO, ISABELA CAPETO RECOMEÇA VOLTANDO AO PASSADO DAS CHARMOSAS “MAISONS”

  1. AMO a Isabela Capeto. Grande artigo, Hilde – as always – PORÉM, vivendo entre Estados Unidos e Europa, nunca consigo acessar sites de fantásticos designers brasileiros para comprar. Dá para adicionar o site dela? Bjs.Tati

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