Mario Priolli, longe do Rio, distante dos amigos, no exílio forçado de Cabo Frio

Mario Priolli, num dos seus momentos de grande felicidade, ao lado de uma das divas que lotavam o canecão em longas e apoteóticas temporadas, Maria Bethânia, e de sua Maria de Fátima, com quem foi viveu um casamento em que todo dia era uma festa

NÓS VOLTÁVAMOS de Cabo Frio, onde fomos visitar nosso amigo Mario Priolli. Éramos Gisella Amaral, Renato Garavaglia e eu… FOMOS, DESAFIANDO a vontade de Mario, que não queria, de forma alguma, ser visitado Assim como não queria que soubessem onde ele estava… HAVIA CORTADO todos os seus laços com o Rio de
Janeiro, e ele, o pródigo, o generoso, o sempre mão aberta, o dos largos gestos, o provedor, não queria que o vissem, nem mesmo os amigos da estima verdadeira,
numa situação difícil… BATEMOS PALMAS no portão da casa onde ele se hospedava, e deixamos recado que o esperávamos no hotel em frente. E lá veio algum tempo
depois o mesmo Mário, banho tomado, cabelos penteados pra trás, perfumado, camisa bem passada, acompanhado do primo, Arthur Priolli… SENTARAM-SE CONOSCO, almoçamos, conversamos, rimos, lembramos histórias. Isso lhe fez bem. E voltamos com a promessa de que, na primeira oportunidade, ele aceitaria um convite para vir ao Rio rever os amigos todos… O QUE ACABOU acontecendo em setembro do ano passado, no jantar do aniversário de sua comadre, madrinha do filho, Rafael… BEM, OS COMPADRES de Mario somos Francis e eu, daí que, nesse jantar, pedi ao Mario que me contasse, francamente, a razão do fim do Canecão… ELE ME DISSE: “Havia um projeto de interesse do então reitor da UFRJ, com o Governo do Estado e o empresário Eike Batista, de construir um grande empreendimento naquele local. Eles
vieram conversar comigo. Disseram que o Canecão poderia continuar, mas seria no subsolo. Eu concordei, mas disse que era importante que o Canecão tivesse direito a manter o espaço do letreiro da fachada, pois era o letreiro que vendia todos os espetáculos. Eles recusaram. Eu não abri mão. Aí, o reitor iniciou aquele processo para despejar o Canecão. Quando vi que ele estava irredutível, tentei várias vezes fazer um acordo, mas ele não quis conversa. Eles queriam despejar o Canecão para construir o empreendimento deles”… O REITOR morreu antes de conseguir realizar seu projeto. E
o Canecão morreu em pé, desmanchando aos poucos, destelhando, caindo aos pedaços, tornando-se um ninho de ratazanas… E ASSIM se foram 40 anos de História da Música Popular Brasileira… E ASSIM se extinguiu, por força dos podres poderes, a memória da cultura nacional. E assim o Rio de Janeiro perdeu um dos pontos fortes de
seu roteiro cultural, artístico e turístico… NENHUMA DAS casas de espetáculo que surgiram depois do Canecão conseguiu preencher seu espaço. O público concorda com isso. A imprensa endossa. Os artistas assinam embaixo… MARIO PRIOLI tinha uma memória excepcional. Estar com ele era sempre um deleite, porque ele revelava os bastidores da vida artística, peculiaridades e causos únicos, envolvendo os grandes personagens do show business… ERA UMA pessoa sedutora e era difícil não gostar dele… TINHA AMIGOS no mundo artístico, no meio empresarial, nos redutos sociais mais fechados, ninguém resistia ao charme do Mario… FICOU LONGO tempo solteiro e não estava feliz. Os amigos resolveram que ele precisava se casar. Mas para o Mario teria que ser uma mulher realmente especial. Lembramos de Maria de Fátima Monteiro. A Maria de Fátima “capa da Manchete”. A mulher mais bonita do Brasil. E além de tudo inteligente, espirituosa, bom caráter e de origem italiana, como ele… FÁTIMA TINHA terminado um romance recentemente. Então combinamos, Ruth de Almeida Prado, Ibrahim Sued e eu: o Ibrahim daria uma festa em minha homenagem no Special. Eu faria os convites, Maria de Fátima e Mario Priolli, meus amigos, não recusariam. Nem ele nem ela poderiam saber. Assim foi feito… APRESENTADOS NA festa, não mais se separaram, eram almas gêmeas. Tiveram um filho muito esperado e
querido, o Marinho… MARIO E FÁTIMA viviam uma vida às avessas. Dormiam de dia e, à noite, estavam despertos, recebendo em sua mesa longa do Canecão as
personalidades mais importantes, poderosas e conhecidas do Brasil e do mundo, e depois esticavam no Concorde, no Special, no Régine’s, no Hippo… O CANECÃO estava no seu auge. Elis Regina, Maysa Matarazzo, Tom Jobim, Vinicius, Chico Buarque, o MPB-4, Quarteto em Cy, Rita Lee, Mutantes, os baianos todos, todos os mais importantes estrangeiros e longas temporadas de Roberto Carlos… MAS, COMO todo conto de fadas, este teve um fim… FOI SOFRIDO para todos, o Mario, a Fátima, Marinho e todos os amigos, que conviviam com eles, que os acompanhavam nas
madrugadas, que jantavam com eles no Concorde e rolavam de rir com as sacadas de Fátima – que mulhe inteligente!… BEM QUE se tentou impedir essa separação, mas estava escrito nas estrelas e na determinação de Fátima. Caprichos de mulher linda. Uma pena… MARIO REFEZ sua vida, e sua grande alegria foi o nascimento de Rafael, que o acompanhava em Cabo Frio, quando ele morreu… MARIO MORREU pobre no bolso, mas com um patrimônio espetacular, uma área imensa em São Paulo, praia paradisíaca e uma encosta em área preservada, onde havia um projeto imobiliário de
condomínio fechado, que chegou a nos mostrar… LONGE DOS AMIGOS e da grande vida que ele soube tão bem orquestrar para ele e todos os que o cercavam… FOI GENEROSO com todos, mas o fim de vida não foi nada generoso com ele. Muitomenos, ele recebeu o reconhecimento e o apoio que merecia e deveria ter tido do meio artístico e da mídia cultural, na defesa do Canecão, contra a truculência e a arbitrariedade de seu fechamento… VÁRIAS VERSÕES foram divulgadas, nem
sempre correspondendo à realidade. Fake News que serviam ao interesse dos grandes investidores. Perguntem ao Ricardo Cravo Albin, seu sempre grande defensor, e por isso ele era grato… PRIOLLI NUNCA cobrou nem se queixou de ninguém. Ao contrário, silenciou, se afastou. Porém, os fatos que envolvem seu afastamento do Rio de Janeiro, seu “exílio” em Cabo Frio, são tristes, vergonhosos até… PORÉM, E definitivamente, ele não merecia tanta insensibilidade de tantos. Os mesmos que ele recebia em sua casa de espetáculos com a categoria do grande cavalheiro que sempre foi… VÁ EM PAZ, meu compadre. Agora, você está de novo liberado para tomar seu uisquinho, numa mesa do Canecão do Céu, com Vinícius, Tom, Miele, Bôscoli, Aluízio de Oliveira, Maysa e todos os seus amigos, que partiram na frente, abrindo caminho para o grande empresário do entretenimento, um homem que sabia viver à larga, e
nessa largueza incluía todos os que o cercavam… MARIO FOI um vitorioso, empresário extremamente bem sucedido, empurrado no fim da vida para um tempo de
fracasso, pela confiança que depositou em quem não devia… E QUE REZEMOS todas o terço para Nossa Senhora nos proteger das más companhias. Amém!…

 

14 ideias sobre “Mario Priolli, longe do Rio, distante dos amigos, no exílio forçado de Cabo Frio

  1. Aquela sua mulher era um karma na vida dele. Sempre doente parecia uma osga branca. Só era bonita. Conheci em Paris na Copa.

  2. Tive o prazer de trabalhar com Mario Priolli por 12 anos, e tudo o que voce falou é pura verdade. Dr. Mario sempre cavalheiro, generoso, excelente empresário. Lamentei muito a partida dele.

  3. Cara Hildegard:
    Sempre tive fascínio pelo Rio anos 50, 60 e 70 e digo que gostaria de ter nascido na década de 40, no Rio, para estar perto de tudo quanto achava tão glamoroso.
    Mas lendo seus relatos, sempre, consigo me transportar e me sentir vivendo na sua história.
    Por isto, peço, imploro, escreva tantos livros de memória quantos você conseguir, com estas descrições tão reais daqueles tempos dourados.
    P.S.: mas sem aspectos políticos, porque a política não tem sensibilidade.

  4. Essa é a Hilde, filha de Zuzú e irmã de Tutty, que nos brindou com brilhantes reverências a Mário Priolli extensivas a Fátima, Marinho e a Rafael que não conheci.
    Simplesmente divino e maravilhoso.
    Carlos Ulisses Dorea

  5. Queridíssima, HILDEGARD ANGEL
    Acabo, de ler todos os “Comentários” que VOSMICÊ. com total IMPARCIALIDADE e SABEDORIA publicou.
    Assim, só me cabe escrever:
    QUEM SABE…SABE!
    QUEM “NÃO SABE?”
    QUE BATA PALMAS!
    PALMAS e mais PALMAS para VC!
    Afinal, seus espaços, “PRECIOSIDADE” para expor ELEGANTES!
    Assim…me faz lembrar daquele jeitinho ..dos anos….50 para dispensar gente chata…: “VÁ PERGUNTAR AO JOÃO!”
    Era…um programa na rádio….
    bjs
    maria edna cals

  6. Caríssima HILDEGARD ANGEL
    Relendo, esse seu relato, algumas vezes, pois só assim, consigo entrar no que é o que mais devemos LOUVAR, principalmente, quando um CORAÇÃO falou, AMOU! e, CALOU!
    FASCINANTE, essa história, e , BELÍSSIMA MULHER, Maria de Fátima, que despertou um AMOR, de tal maneira …que daí pra frente….já ficara a MARCA para “TODO! O SEMPRE!”
    AMEI!
    maria edna cals

  7. Maravilha apreciar o que vc escreveu sobre o Canecão e o Mário. Sou de Fortaleza, membro da Academia Cearense de Engenharia e ontem tive a alegria de conversar, juntamente com nosso presidente Victor Frota, com o Francis que esteve aqui no Ceará abrilhantando uma solenidade das nossas academias. Pois bem: no papo que logo foi consumido pelo tempo, esqueci de me referir a um tio residente aí no Rio, certamente do seu convívio passado, qdo participou do governo Geisel como secretário de imprensa. Falo do Humberto Barreto. Meu abraço. Breve estarei nessa terra. Foi um prazer fazer este contato. Eng Agr Flávio Barreto.

  8. Desculpe me dirigir a vc para um assunto pessoal. Fiz uma “amizade” com seu sobrinho Charles Stuart em 2006 quando ele veio morar no Brasil. Certa vez até fui na festa de aniversário dele em seu apartamento. A última vez que falei com ele, ele estava em Buenos Aires e eu tb, mas não nos vimos. Gostaria de ter notícias dele, pois me lembro dele com carinho. Desde já agradeço sua resposta. Daniela.

  9. mas , quem é a mãe do filho caçula que o acompanhava quando morreu ? o texto ( precisa ser revisado ) parece ter hiatos de informação – por falta de pesquisa . muito diferente da brilhante e completa matéria sobre a morte de Sonia Bogner .

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