Esta colunista se despede do amigo Antonio Galdeano

Morreu hoje, às 7 horas da manhã, em casa, o empresário Antonio Sanchez Galdeano. O velório será amanhã, no Memorial do Carmo, no Caju, e a cremação está marcada para as três da tarde. Deixa viúva, a Carmen. Sua filha única, Tanit, e as netas, Olívia e Antonia, encontravam-se no exterior, de onde estão retornando no momento para participarem do funeral de amanhã…

Um bom e antigo amigo e, sobretudo, um empreendedor incansável, Galdeano era apaixonado pelo Rio de Janeiro. Mas, como todo empresário, pensava sempre no retorno do investimento, e com bom lucro. Assim, durante muitos anos, desde os anos 1970, Galdeano empreendeu uma cruzada na tentativa de construir, na Chácara do Céu, no Morro Dois Irmãos, terreno que lhe pertencia, um projeto imobiliário. Faria ali um hotel e alguns prédios. Licenca concedida pelo prefeito Marcello Alencar, depois cancelada…

Galdeano repensou o empreendimento, reduziu-o, conseguiu que fosse criada uma comissão com Burle Marx e Lúcio Costa para julgar o assunto, que contudo não o apoiaram em sua pretensão. A causa foi para a Justiça, numa longa demanda que atravessou décadas, e Galdeano, teimoso, insistindo sempre…

O prefeito Luiz Paulo Conde chegou a autorizar o empreendimento, limitando-o a dois prédios, que seriam cercados por um bosque imenso, totalmente preservado, franqueado ao público, não se alterando assim a linda paisagem do Morro do Leblon

E o que fizeram os ambientalistas-políticos? – neste caso específico, mais políticos do que ambientalistas. Não deixaram de jeito algum! Antonio argumentou que, quando ele se retirasse dali, onde mantinha vigilância noite e dia, fazendo a ronda, para que lá não se construissem barracos, a área seria invadida e favelizada – pior, muito pior para o Rio…

E os “verdes” só mandando chumbo grosso contra, e a imprensa fazendo coro, inclusive as associações de moradores…

O que aconteceu? Galdeano, já envelhecido, preferiu capitular, permutou a área com a prefeitura. Recebeu em troca dela um grande terreno na Barra, construiu lá alguns condomínios. Enquanto a Chácara do Céu, em mãos do governo inepto e desatento, foi invadida, favelizada, destruída. Acabou-se a bela e intocada paisagem…

E os ambientalistas, hoje, mudam de conversa quando se toca no assunto. Mais sincera foi a Evelyn Rosenzweig, presidente da AMA-Leblon, que, certa vez, conversando comigo, fez o mea culpa, concordou que errou, equivocou-se. Reconheceu que teria sido muito melhor para o Leblon se tivessem sido construídos ali os dois prédios de Galdeano, com jardins, com bosques, com preservação da paisagem, sem invasões…

Foi-se o Galdeano, um empresário que, com sua grande habilidade e notável inteligência, contabilizou grandes vitórias e grandes negócios, inclusive em sociedade com o Rei do Estanho, Antenor Patiño. Mas levará para o túmulo a mágoa dessa derrota, que não lhe permitiu realizar o projeto de seus sonhos. Preservando o Leblon e sua paisagem. Bairro, aliás, onde ele morava, ali juntinho da Chácara do Céu…

3 ideias sobre “Esta colunista se despede do amigo Antonio Galdeano

  1. Agora que me toquei que o Galdeano faleceu há anos… kkk
    Eu estava achando mesmo algo estranho. Mas o resto procede. Desculpe, querida. Segue meu whatsapp
    21 991248722

    • Li o texto de Evelyn e da Hilde sobre o projeto de Galdeano para a Chácara do Céu no Leblon; quero acrescentar algumas correções e comentários. Sou genro de Lúcio Costa, que a partir de modificações no projeto feitas do fim dos anos 80 passou a apoiar o empresário Antônio Galdeano na construção do hotel, assim como Burle Marx., como pode ser comprovado por inumeras cartas de Lúcio que constam do processo de construção. Também Antônio não recebeu da prefeitura terreno na Barra da Tijuca ;,mas apenas um ligeiro aumento do potencial construtivo em terreno próprio, através de lei de Operação Interligada, em troca cedeu o terreno do Leblon ao município. Negócio que causou prejuízo ao empresário e foi catastrófico para a cidade ; lá já se observar uma pequena favela e rápido crescimento. Se Evelyn Rosenzweig fosse na época presidente da Ama Leblon, provavelmente teríamos lá um hotel 5 estrelas circundado com jardins de Roberto Burle Marx.

  2. Cara Hilde, primeiramente, meus sinceros sentimentos à família de Antônio Galdeano pela perda irreparável e também a você, grande amiga que era desse empreendedor visionário e bem sucedido.
    De fato, a ideia de ocupar aquela área com um empreendimento integrado ao meio ambiente voltado para o turismo teria sido uma ótima opção, acredito que só traria ganhos para a cidade. Entretanto, apenas fazendo uma correção, na época eu não tive envolvimento como pessoa jurídica ou representante comunitária, tendo sido mera expectadora, porque ainda não atuava nem participava de nenhuma entidade representativa, mas lamentei muito a decisão das entidades civis na época e dos políticos, sem comentários. Eu teria outro olhar, pensando no Leblon para o futuro, ao menos um palmo a minha frente. Hoje pensa-se no planejamento da cidade pra sobreviver o próximo mês, tudo improvisado, falta de determinação e vontade política de executar projetos que não serão inaugurados na gestão de quem os iniciou, não conseguem sequer dar continuidade aos bons projetos que encontram… pena. A Chácara do Céu perdeu o controle, exatamente como previu Galdeano, até 2010, mais ou menos, quando consegui implantar o POUSO, Projeto de Orientação Urbanística e social, que impediu o crescimento e a construção de novas casas ou unidades habitacionais. Construímos a sede da associação de moradores da Chácara do Céu, com dois andares, um grande salão para cursos, reuniões etc, cozinha, dois banheiros, três salas no andar superior, uma para os engenheiros do POUSO, toda equipada. A Chácara do Céu é uma das poucas favelas contempladas com legislação urbanística. Infelizmente, o governo Crivella acabou com esse brilhante projeto, isso quer dizer que tudo voltou a ser como dantes no quartel de Abrantes… ninguém controla mais. Grande abraço e obrigada por lembrar de mim tão carinhosamente.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *