E OS FAVORITOS AO OSCAR DO FESTIVAL DO RIO SÃO A PM, OS MANIFESTANTES E O JOÃO VELHO

A noite do Odeon para convidados da grande prémière do Festival de Cinema do Rio foi na verdade a estreia do Festival da Polícia. Porque, em vez de artistas, o que mais se viu brilhando no red carpet foi a PM. Havia policiais para compor os casts de várias produções cinematográficas. Um épico da polícia. Tropa de Elite perde.

Foram diversos batalhões ‘de choque’. Mas os batalhões de chiques tiveram que entrar em disparada pelo tapis rouge, aos aplausos de “vaca”, “piranha”, “safada”, “cachorra” e outros adjetivos de baixo “escalão”, e saíram pelo tapete vermelho dos fundos do cinema. Socorro! Onde está o glamour?

Assim, não houve a usual sessão de caras, bocas, fotos, holofotes, entrevistas, no tapetão do lado de fora, para a galera do sereno assistir e ir ao delírio. Ela delirou foi com os manifestantes, que estão cada vez mais criativos e promovem verdadeiras performances, num teatro do oprimido como nem o Boal jamais imaginou, fazendo caricaturas políticas, trocando letras de músicas conhecidas, como “Não me convidaram para essa festa rica”, arremessando rolos de papel higiênico “para limpar a sujeira” do foyer do Odeon, que seriam “os convidados globais”, e também mirando nos apresentadores de microfone, vestindo black-tie, que eram acompanhados de sonoros gritos de “vaca”, “bruxa” e demais carinhos.

Houve também a “hora da fogueira”, quando cercaram uma pilha de papel higiênico e tocaram fogo, como num ritual tribal, em plena Cinelândia, enquanto um deles dava saltos e sacudia o corpo e seus companheiros gritavam, numa suposta sessão de exorcismo, “sai desse corpo que não te pertence!”, nominando vários políticos municipais, estaduais e federais. É, gente, a coisa fugiu mesmo do controle.

odeon 2013

Os manifestantes não são muitos, mas parecem obstinados, ferrinhos de dentista, carrapatos empedernidos, daqueles que nem fósforo em brasa consegue desgrudar da pele e que não se encabulam de fazer qualquer grosseria pesada.

Daí que não vemos mais em tais efemérides no Rio sequer as equipes fofas do CQC e do Pânico, antes cativas. Pois, se eles são chatos e inconvenientes, os manifestantes sabem ser muito mais. E verdade é que poderia sobrar pra eles também…

Já que não podem usar máscaras, os manifestantes levaram bonecos de rostos mascarados, espetados em cabos de vassoura, e passeavam com eles para lá e para cá, sem serem incomodados pela polícia. E diziam pros PMs, provocando: “Boneco mascarado pooooode”. Ou então: “Tira a máscara do boneco, ele pode ser preso”. “Ó, não prende não, o boneco é ‘di menor’, olha o Conselho Tutelar”. Um deboche total com a corporação.

Nossos policiais tiveram um desempenho extraordinário. Digno de uma Noite do Oscar no Chinese Theatre em Los Angeles. Com nervos de aço e autocontrole de ferro, se mantiveram impassíveis, com fisionomia de paisagem. Nem a guarda da Rainha da Inglaterra faria igual. Enfrentaram tanta descompostura, tanta, que um PM mais esquentado teve um treco, um surto, um tique tique nervoso, e começou a chutar o alambrado de ferro a esmo, derrubando as grades. Foi um pânico geral, um salve-se quem puder, e o povão, do lado de fora, mais os convidados elegantes, no lado do tapete vermelho, debandaram geral. Nessa hora deu medo.

Resumo da ópera: as manifestações viraram o grande hit da temporada carioca. São criativas, teatrais, sem limite e, pra quem gosta de MMA, muito violentas, assustadoras mesmo. Basta vestir capacete, joelheira, tornozeleira, cotoveleira, ombreira, enfim, o kit Robocop que você tiver em casa, e ir assistir a esses espetáculos trash gratuitos, que rolam no Rio de Janeiro a todo vapor, a cada evento que atraia mídia. Mas, aviso, não leve máscara, pois senão pode levar porrada também.

PS: Assim como gostam de acusar e generalizar, os manifestantes precisam se informar melhor sobre as pessoas que atacam, acusam, ofendem. Vou dar dois exemplos pescados nesse episódio do Odeon.

A engajada atriz de esquerda Letícia Sabatella foi uma das agredidas verbalmente. Logo ela, das poucas do meio artístico nacional que mantém uma posição política totalmente independente e corajosa (e elas devem ser três ou quatro, se tanto). Não é exibida, não é desfrutável e é legítima, na contramão da bobajada que muitos artistas dizem e fazem.

Quem se manifesta precisa se informar, não dá para misturar assim o trigo com o joio.

Outro que ficou pasmo com a agressão foi o João Velho, filho do Paulo César Pereio com a Cissa Guimarães. Teve uma hora que ele foi lá fora fumar um cigarrinho e ouviu tanto desaforo que resolveu ir tomar satisfação. Os “homens de preto” do Odeon tentaram segurar, mas o rapaz não se fez de rogado: “Vou lá resolver essa parada”. E foi. “Por que é que vocês estão me xingando? O que eu fiz? Sou trabalhador como vocês”. Um manifestante perguntou: “O que você acha da Globo ter sonegado impostos?”. Ele: “Se é verdade, acho péssimo”. E voltou para o cinema.

João Velho, meu novo velho ídolo, não à toa é filho do Pereio e sobrinho do meu saudoso amigo Pingo, o combativo homem de cultura dos Pampas!

odeon 2Fotos e relato a esta colunista de Anselmo Silva, meu repórter do sereno

 

3 ideias sobre “E OS FAVORITOS AO OSCAR DO FESTIVAL DO RIO SÃO A PM, OS MANIFESTANTES E O JOÃO VELHO

  1. Policiais cercando eventos culturais para “conter tumultos”? Sei não, Hilde. Tem algo muito errado com esta Democracia brasileira. Os governadores tem feito pouco pelas populações de seus Estados. Tem gastado mais com bombas de gás lacrimogênio do que com aumentos salariais para professores. E tem colocado policiais demais nas ruas para impedir a ampliação do espaço público e do público. Qual é mesmo a diferença entre esta Democracia e a antiga Ditadura que matou seu irmão porque ele participava de manifestações?

    • Olha, Fábio, com todo o respeito, até pode haver semelhanças, quando há o contraponto poder x povo, mas é absolutamente INCOMPARÁVEL. Até porque você está aqui falando e eu estou aqui respondendo. Há liberdade. Et vive la difference!

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