God save the Queen! E também ao Sanjeev Chowdury, o novo decano do corpo consular do Rio de Janeiro!

Relações humanas são cultivadas no convívio. Relações sociais são semeadas e adubadas com boas mesas e conversas. Os diplomatas com traquejo e sensibilidade entendem bem dessa prática.

No Corpo Consular do Rio de Janeiro, destaca-se na arte de cultivar relações o cônsul-geral do Canadá, Sanjeev Chowdury, que acaba de ser proclamado “decano” pelos seus pares, dado o retorno repentino ao seu país do cônsul da Venezuela, detentor anterior do título.

Sanjeev não é o diplomata há mais tempo em função consular no Rio. Falaram mais alto para indicá-lo “decano” suas incontáveis manifestações de afabilidade com os colegas, desde que há três anos desembarcou por aqui.

Se os convidados do jantar de Sanjeev, na última segunda-feira, lhe dessem um título seria o de anfitrião mais sagaz da cidade.

Com grande inteligência, elegância e humor fino em cada comentário que faz, além de uma franqueza incomum em personagens da carrière, o cônsul Sanjeev recebe seus convidados de forma descontraída, ao lado do companheiro vietnamita, o chef Kiet To, na sua casa, onde um jardim de Burle Marx viceja nos fundos e uma bandeira do Canadá tremula na fachada.

Naquela noite, Kiet To cedeu o estrelato gastronômico a outro chef, o canadense Quentin Glabus. Foi para seus amigos cariocas conhecerem a culinária de Quentin que Sanjeev promoveu a reunião. Jantar sentado, 12 à mesa.

O primeiro a chegar foi um vizinho no mesmo Jardim Pernambuco, Aloysio Maria Teixeira, a quem Sanjeev saudou: “Entre, a casa é sua!”, para em seguida se lembrar que a casa é dele mesmo, já que Sanjeev é seu inquilino. Depois de boas risadas com a situação, Aloysito lembrou a Sanjeev que, conforme a Lei do Inquilinato, a casa não é dele nem do Sanjeev, é da Rainha Elizabeth II, em nome de quem foi feito o contrato de locação, já que Her Majesty The Queen também é a Soberana do Canadá. Sabiam?

Este foi um bom tema para inaugurar as conversas dos que chegariam depois, como Cláudio e Cristina Aboim, que já estavam há mais de 15 minutos no carro, na porta, esperando dar as 9 horas do convite. Vieram lá de Botafogo. Outro casal convidado, de Copacabana, entrou um pouco antes. Por ultimo, minutos depois, Gilson e Helenita Araujo, Gilsinho Araujo e Dara Chapman, que moram bem na esquina, seguidos pelo restaurateur Jayme Drummond, leia-se Laguiole.

Como vemos, um grupo de pontualidade britânica, by appointment to her Majesty the Queen!

Não saímos sem provar as delícias do chef-anfitrião Kiet To, que nos brindou, nos aperitivos, com sua deliciosa culinária agridoce vietnamita, em enroladinhos feitos com massa de arroz, recheados de camarão com frango e de frutos do mar, enquanto Aloysito nos relatava como Mahatma Gandhi enrolava o professor invejoso, com sua grande sabedoria.

O mestre, enciumado da liderança de Gandhi desde jovem, tentava encurralá-lo com desafios. Fez-lhe a pergunta: “Se você encontrasse um saco cheio de dinheiro e um saco cheio de livros que transmitissem cultura, qual você pegaria para você?”. Reponde, rápido, Gandhi: “O de dinheiro!”. E o professor: “Ah, o desprendido Gandhi agora se revelou!”. E o discípulo: “Eu só pego o que eu não tenho”.

Em outra ocasião, o professor deu ao jovem aluno uma prova muito difícil. Gandhi respondeu a todas as perguntas corretamente. O professor recebeu a prova e, em vez de dar nota, apenas escreveu: Idiota! – devolvendo a folha de papel. Gandhi leu calmamente. O professor perguntou: “O que achou da sua nota?”. E o Mahatma: “O senhor esqueceu de dar a nota, só pôs sua assinatura”.

Alguém comentou: “A Índia também tinha o seu Joãozinho, o aluno da piada, era o Gandhi!”. Mas isso, naturalmente, depois de duas flütes de champagne. É, acho que já estava na hora de passarmos à mesa…

E assim foi feito. À cabeceira, Sanjeev nos contou que o chef Quentin chegou naquele dia à sua casa às 9 da manhã para começar a preparar o jantar, que consistiu em tudo, absolutamente tudo que era servido à mesa, inclusive os pães feitos na casa. E lá vinham as focaccias quentinhas na cesta…

Em seguida, a sopa gelada de melancia com quadradinhos de queijo. Logo depois, a salada com vieiras do Canadá, encontradas e compradas no mercado de peixe de Niterói. Mereceram aplausos. Por fim, o salmão, preparado à maneira típica dos aborígenes do Canadá, assada sobre uma chapa de cedro, e trazendo impregnado o aroma da madeira, acompanhado de nhoque. Ah, que delícia!

Encerrando os trabalhos, a sobremesa de chocolate com cracker, seguida de café com barrinhas de chocolate com amêndoa no pratinho ao lado, nhamnhamnham…

chef quentin

O chef canadense Quentin Glabus

Os paladares bateram palmas para o chef, chamado à sala. E eram paladares tarimbados, como o de Cristina Aboim, uma das raríssimas anfitriãs-mestres-cucas do Rio, famosa pelos almoços com culinária regional, ou o paladar de Jaime Dummond, cujos Laguiole e o Espaço MAM estão sempre muito bem cotados pela crítica. Como também o paladar de Aloysio Teixeira, dono do restaurante La Brambini / Copacabana Praia. Sem esquecer os paladares gulosos a bordo da bonita mesa forrada com toalha branca adamascada.

A conversa prosseguiu no jardim. Conversa breve, pois os anfitriões dormem cedo. E nós também. Uma noite agradável, delicada, com ares de cortesia, com o bom gosto do Canadá.

A propósito e em tempo: quanto ao retorno do cônsul-geral venezuelano a Caracas. mencionado no início deste texto, não há maiores justificativas para o fato. Acredita-se que o momento político tenso que vive aquele país e sua situação econômica difícil expliquem o fechamento da representação, que se espera seja apenas temporário.

 God save the Queen! (e ao Sanjeev também)

hilde e sanjeev

 A colunista com o decano do corpo consular do Rio de Janeiro, Sanjeev Chowdury

2 ideias sobre “God save the Queen! E também ao Sanjeev Chowdury, o novo decano do corpo consular do Rio de Janeiro!

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