A execução de Marielle não foi só crime de gênero ou crime racial, as nove balas atingiram a nossa Democracia

O momento é da maior gravidade. Abrem-se as cortinas da tragédia anunciada. Não podemos restringir a execução de Marielle a mais um crime de gênero ou mais um crime racial. Sua dimensão é ainda mais abrangente. Foi sobretudo um crime político, de cerceamento de opinião. Um tiro fatal na liberdade, nove balas UZZ-18 em nossa agonizante Democracia.

O tiro no Calabouço, em 1968, levou embora o secundarista Edson Luís, mas despertou a massa humana, que desde 1964 se mantinha passiva observadora dos fatos. Nessa era da internet, tudo acontece em maior velocidade. Do golpe de 2016 ao despertar das multidões entorpecidas e da consciência nacional, neste 15 de março de 2018.

As panelas emudecidas e as camisetas da Seleção não quiseram compactuar com o sangue dessa cilada grotesca. Entenderam o quanto foram e têm sido manipuladas em nome de interesses que não são os do povo. As balas que mataram Marielle foram vendidas para a PF de Brasília. Houve uma conspiração muito bem planejada, envolvendo dois carros, um deles clonados.

Executaram Marielle para calar sua militância. Assim como executaram minha mãe, Zuzu Angel, para emudecer suas denúncias e a exposição enlutada de sua dor, com a perda do filho torturado e morto pela ditadura. Da mesma forma como se deu com Marielle, minha mãe foi seguida em seu trajeto, pelo veículo de seus executores, até o local pretendido para a eliminação. Tudo de acordo com os manuais técnicos da maldade. Duas décadas depois, as investigações dos Conselhos de Desaparecidos e Comissões da Verdade jogaram luz sobre o que se tentou fazer passar por “acidente”, e esclareceram que houve uma emboscada para exterminar Zuzu. Bem como, inicialmente, quiseram fazer a execução de Marielle passar por mais um assalto entre tantos na cidade. Não colou.

O efeito dessa campanha desmoralizadora logo se fez sentir. Hoje, em minha hidroginástica frequentada por pacatas senhoras do bairro, uma delas, enfurecida, bradava contra os “direitos humanos” que Marielle defendia. Na campanha em circulação, eles maliciosamente a comparam a uma médica não militante, que morreu num assalto e não teve as mesmas glórias na morte. Propaganda cheia de obviedades, para atingir mentes desprevenidas.

E de repente me vi, não mais na piscina azul da academia, porém numa piscina de sangue. O sangue que o pensamento fascista já verteu no Brasil e poderá fazer ainda jorrar muito mais. O sangue de minha mãe, em 1976. O sangue de Stuart, de Sônia, de Maria Helena, de Vlado, de Rubens Paiva e muitas centenas, nos Anos de Chumbo. O sangue de Marielle neste 2018. O sangue de Anderson Gomes, a vítima errada na hora inadequada. O sangue de muitos outros que precisarão ser emudecidos.

A Democracia está sangrando por Marielle, por Anderson, por nossos filhos, por todos aqueles que não se calam.

27 ideias sobre “A execução de Marielle não foi só crime de gênero ou crime racial, as nove balas atingiram a nossa Democracia

  1. Foram vários tiros na mente e no coração do breve Estado Democrático de Direito. Os nossos algozes deram o seu recado de que estão bem vivos para que o último a deixar o aeroporto não esqueça de apagar as luzes. #MarielliPresente!

  2. Se nos lembramos da morte de sua mãe, vemos que nada mudou, ou melhor, as coisas pioraram se pararmos para pensar…Lamento por você Brasil, poderias ter sido uma tão grande Pátria.

  3. Prezada Hilde, Boa Noite !

    A cidadania e as instituições democráticas necessitam de lideranças civis que respaldem cada vez mais as demandas sociais.
    Neste sentido, as vozes advindas da população jamais se calarão, ao atingir a verdade dos fatos. Estes com o tempo serão demonstrados e equalizados , para que o aspecto valorativo de Justiça, seja efetivamente pautado e divulgado pela Imprensa Independente do Rio de Janeiro.
    Mais uma vez , congratulações pelo teor da Coluna e pela acuidade da análise Historiográfica Familiar.

    Abraços

    Luiz Ricardo

  4. Simplesmente superlativo, Hilde. Um final deste quilate: “E de repente me vi, não mais na piscina azul da academia, porém numa piscina de sangue. O sangue que o pensamento fascista já verteu no Brasil e poderá fazer ainda jorrar muito mais. O sangue de minha mãe, em 1976. O sangue de Stuart, de Sônia, de Maria Helena, de Vlado, de Rubens Paiva e muitas centenas, nos Anos de Chumbo. O sangue de Marielle neste 2018. O sangue de Anderson Gomes, a vítima errada na hora inadequada. O sangue de muitos outros que precisarão ser emudecidos.
    A Democracia está sangrando por Marielle, por Anderson, por nossos filhos, por todos aqueles que não se calam”… você tem muito sentimento e competência para alertar a todos brasileiros e os atuais donos do poder [sic].

  5. Ainda sim será uma piscina mais pura do que qualquer água que os fascistas bebem, pois a água dos fascistas não me hidrata, me envenena.

  6. Pingback: Hildegard Angel: vejo uma piscina de sangue quando uma senhora 'de bem' agride Marielle | Poliarquia >

  7. PARABÉNS HILDE!!!…. FALOU A VOZ QUE QUEREMOS OUVIR E QUE PRECISA SER DITA. A VOZ DA CONSCIÊNCIA. A VOZ DA VERDADE E A VOZ DO POVO QUE CLAMA POR LIBERDADE, JUSTIÇA E ESPERANÇA DE UM BRASIL PARA O POVO COM UM STF QUE PRATIQUE DE FATO A JUSTIÇA, RESPEITANDO A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA.
    A DIREITA OPRESSORA, CORRUPTA E GOLPISTA NÃO QUER A MILITÂNCIA QUE SURGE DA PERIFERIA….ASSIM ESTÁ SENDO COM LULA…ASSIM FOI COM MARIELLE… ENQUANTO EXISTIREM AS MENTES DESPREVENIDAS E QUE SE DEIXAM MANIPULAR NÃO EXISTIRÁ DEMOCRACIA.

  8. Compartilhei na minha página! Outros precisam saber! Ainda tem muito “cego” por aí, que não estão entendendo !!

  9. Não abandone o Blog! Tem milhares de admiradores seu, que moram em outros Estados e não tem acesso ao JB. !!

  10. Emocionante texto, como o são todos de sua lavra, Hilde.
    Querida Hildegard, os ventos mudarão, acredite, ainda que essa “calmaria” dos violentos pareça sem fim.
    Um grande beijo e força sempre; é o de que precisamos para continuar na luta.
    Que não é e nem será inglória.

  11. Belo texto. Embora esse seja um caso diferente pela motivação política, Marielle e Anderson se embaralham na minha cabeça com os que são mortos todo santo dia.

  12. Nesses últimos dias a minha revolta e indignação só fazem aumentar.
    Uma lista de nomes que cresce a todo instante , me pego a todo momento com os olhos mareados de lágrimas , afinal em meu peito pulsa um coração não uma pedra.
    Em meu cérebro há uma massa encefálica e não fezes.
    A manipulação dos grandes meios de comunicação tentam mais uma vez se fazerem de estarrecidos e jogam o tempo todo a morte de Marielle no ar dando a entender que foi uma tentativa de assalto culpando assim a violência no Rio de Janeiro .
    E com isso justificando a intervenção militar ,
    Não podemos nos calar .
    Assim como não calaram .
    Stuart, de Sônia, de Maria Helena, de Vlado, de Rubens Paiva ,Zuzu , Chico Mendes , Santo dias , Dorothy Stang e umas centenas de tandos outros encontrados em uma vala clandestina em um cemitério do Bairro de Perus ,na periferia de São Paulo SP.
    Não podemos nos calar ,mesmo que corramos o risco de sermos o próximo nome da lista .
    Quem cala consente !!!

  13. Bom dia! Trabalho em uma escola estadual e esse ano os nomes das turmas foram em homenagem as grandes mulheres da história, uma das turmas recebeu o nome de sua mãe Zuzu Angel. Parabéns pelo seu trabalho.

  14. Bom dia! Trabalho em uma escola estadual e esse ano os nomes das turmas foram em homenagem as grandes mulheres da história. Uma das turmas recebeu o nome de sua mãe Zuzu Angel. As crianças irao pesquisar e conhecer a história dessaa mulheres e depois apressntar aos outros.

    • Excelente ideia, Rosimeire. Que sorte a desses alunos terem uma mestra como você e suas colegas.
      Parabéns e sigamos na luta por um país mais justo e fraterno.

  15. Parabéns por um belo texto, que só pode ter sido doloroso de escrever, pela associação com seu irmão e sua mãe. “Manuais técnicos da maldade” é muito bem colocado. E a descrição da cena na piscina é perfeita, cria uma forte impressão visual.

    Como pode haver gente assim, que culpa e calunia a vítima? Deve ser uma forma de anestesia coletiva, tipo: “Vivo em um dos países mais violentos do.mundo, mas sou imune a essa violência, porque sou ‘do bem’ “. Deve ser uma forma alienada de afugentar o perigo.

  16. ” A CERTEZA DA IMPUNIDADE”!
    Essas, palavras, jamais, deixarão VC!
    Essa , sua, FRASE, cala PROFUNDAMENTE!
    HILDE, compartilhando , suas “INESQUECÍVEIS PERDAS” , há vários…e, vários…. anos atrás, o que poderia, nesse momento, escrever?
    Sinto, total, incapacidade!
    maria edna

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