Ulysses Guimarães: aos Justos, resta apenas o conforto das honras póstumas

Como parte das suas comemorações anuais do Dia da Indústria, a Firjan concedeu a Medalha do Mérito Industrial do Rio de Janeiro a cinco personalidades exemplares e realizadoras, que, pelos elevados serviços prestados à indústria e à economia, contribuíram para o desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro.

A entrega foi no Centro de Convenções da Federação das Indústrias, desta vez homenageando os empresários Adolf Arno EdelhoffEdson Kleiber de CastilhoFernando Jorge Fragata de Morais, Francis Bogossian e Jorge Raimundo Filho

Todos homens empreendedores de grande mérito, que realizam e dignificam o Brasil, apoiando seu desenvolvimento com empenho, trabalho e a multiplicação de empregos.

Houve uma tocante homenagem especial ao saudoso Ulysses Silveira Guimarães, como símbolo de homem ético, em discurso intitulado “O caçador de nuvens”, proferido  de modo reverencial e solene pelo presidente da Firjan, Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, do qual destaco parte, pela importância e mesmo a beleza de seu conteúdo.

Eis aqui:

“Numa cena famosa do Rei Lear, de Shakespeare, o Conde de Kent, sob disfarce, afirma que há qualquer coisa no porte do Rei que o faz desejar servi-lo. Lear pergunta o que é, e a resposta de Kent vem numa palavra: autoridade.

Nada mais distante da realeza, no sentido estrito do termo, do que Ulysses Guimarães. Sua vida foi servir ao povo e à sociedade, nunca o oposto.

A fala de Shakespeare se aplica ao Dr. Ulysses quando se leva em conta a nobreza do político e a estatura do homem. Quem o conheceu sabe que alguém com sua trajetória e seus princípios merecia uma palavra definidora: autoridade. Não a autoridade dos déspotas, que ele tanto combateu, mas a autoridade moral que vem à mente ao rever as imagens de Ulysses ou reler seus discursos

Sua liderança foi o grande alento da política brasileira por toda a década de 70 e por quase toda a década de 80. O inverno de nosso descontentamento chegou ao fim em grande parte por obra daquele filho de Itaqueri da Serra.

Ulysses Guimarães, o anticandidato, que formou com Barbosa Lima Sobrinho uma chapa de envergadura moral que enobreceu a política brasileira, afirmou há pouco mais de 40 anos: “A grandeza do homem é mais importante do que a grandeza do Estado, porque a felicidade do homem é a obra-prima do Estado”.

A afirmação consta do discurso em que se lançou anticandidato, o mesmo em que comenta que “a Nação é a língua, a tradição, a família, a religião, os costumes, a memória dos que morreram, a luta dos que vivem, a esperança dos que nascerão.

A memória de Ulysses Guimarães é a esperança dos que nascerão e dos que hoje vivem neste país que procura todos os dias se provar uma Nação. Esta era a grande obra de Ulysses. Por isso ele nunca representou um grupo, facção ou corrente. Ulysses era e sempre foi o representante por excelência da sociedade civil ao longo de mais de quatro décadas de vida pública.

Homens assim se tornam a consciência da Nação e estão sempre prontos a oferecer a palavra que servirá de bússola em tempos de turbulência. Homens assim se tornam símbolos, e símbolos precisam ser lembrados e reverenciados.

No famoso discurso de proclamação da Constituição de 1988, Ulysses colocou em palavras o que hoje está no subconsciente de todos os brasileiros. Ele disse, há pouco mais de um quarto de século: “A moral é o cerne da Pátria. A corrupção é o cupim da República”.

E concluiu seu pronunciamento com a repetição das palavras que, um ano antes, abriam o discurso de posse como presidente da Assembleia Nacional Constituinte: “A Nação quer mudar, a Nação deve mudar, a Nação vai mudar.”

A atualidade de Ulysses é o elo entre o presente e o passado que permite olhar com esperança para o futuro.

Um dos poemas mais célebres de T.S. Eliot lembra: “O tempo presente e o tempo passado estão talvez presentes, ambos, no tempo futuro. E o tempo futuro contido no tempo passado”.

Homenagear Ulysses Guimarães é, sob qualquer ponto de vista, mergulhar não no passado, mas no futuro. Vislumbrar um futuro de justiça social e retidão no trato da coisa pública é o grande legado de um homem que se definia como caçador de nuvens e caçado por tempestades. Como tal, ele ajudou a redesenhar o céu da pátria que tanto amou.

Se a política é mesmo como nuvem, Ulysses tinha o poder de soprar a tempestade para longe e dissipar os dias sombrios.

Um dia ele afirmou que é caminhando que se abrem os caminhos.

O dia de hoje não se pretende apenas de homenagem a um homem. A homenagem é sobretudo aos valores e princípios que este homem defendeu e propagou. No ano em que se completam 50 anos do início de uma longa noite, o dia é de celebrar a atualidade de Ulysses e de sua vida pública. Assim se celebra um Brasil ético, inclusivo e democrático. Este é o Brasil que a indústria deseja e que é hoje homenageado pela memória de um de seus mais nobres cidadãos…”…

Enquanto Eduardo Eugênio prosseguia sua fala, telões projetavam ininterruptamente, em ambas as extremidades do Teatro Firjan, uma foto magnífica e expressiva da figura longilínea, impávida, de Ulysses Guimarães, realmente um personagem shakespeareano, caminhando sua autoridade indiscutível, num cenário enevoado de incrível dramaticidade.

Fiquei pensando no sofrimento e na decepção deste homem de múltiplas qualidades, que tanto se desgastou, empenhou energia e sonhos sinceros pelo país, ao ver se escoarem entre os dedos, por duas vezes, ou até três, as oportunidades de ser o Presidente da República do Brasil.

Quer em 1985, quando quase foi o candidato a presidente pelo PMDB nas eleições realizadas no colégio eleitoral; quer em 1989, quando o povo brasileiro preferiu eleger Collor e voltar as costas ao Ulysses guardião da ética, conferindo-lhe minguados 4,4% dos votos, fazendo-o chegar na lanterninha, atrás de Afif Domingos, Maluf, Covas.

Aos Justos – pensei tristemente, sentada na primeira fila – restam as glórias póstumas, as lindas fotos com postura shakespeareana contra o grandioso poente enevoado de Brasília.

Homens exemplares como Ulysses, homens quase irreais, surreais, aqueles que nos inspiram, entusiasmam, mas são etéreos como as nuvens que intitulam o discurso brilhante de Eduardo Eugênio, concluído sob aplausos entusiasmados do auditório superlotado.

Medalha-Adolf Arno Edelhoff recebe medalha  de Eduardo Vieira (3)Adolf Arno Edelhoff depois de receber sua medalha de Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira

Adolf Arno Edelhoff, da Fábrica de Rendas Finas Paraíba S/A recebeu a condecoração por ter dedicado quase 60 anos de seus 80 de idade ao desenvolvimento e à aplicação de novas tecnologias, que trouxeram maior competitividade às empresas do segmento têxtil. Dos seus 14 anos na estrada de ferro da Alemanha, onde nasceu, aos 21, quando chegou em 1955 ao Rio de Janeiro e começou a trabalhar como técnico industrial na fábrica de rendas da cidade fluminense de Paraíba do Sul, foi um salto, até se tornar o diretor-presidente da maior fábrica de rendas finas da América Latina, empresa competitiva que ajuda a impulsionar o polo de confecção da região, através da sinergia com as outras indústrias do setor.

Edson Kleiber de Castilho, da Fábrica Carioca de Catalisadores, foi homenageado por seu um dirigente que se destaca na luta pelos interesses das indústrias fluminenses.

Fernando Jorge Fragata de Morais, da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e Bebidas não Alcoólicas, pelos anos de dedicação à causa empresarial fluminense, notadamente nas indústrias de bebidas.

Jorge Raimundo Filho, da Glaxo América Latina, recebeu a Medalha por sua brilhante trajetória nas indústrias farmacêuticas fluminense e nacional, que a ele muito devem.

Francis Bogossian, fundador da Geomecânica S/A e presidente do Clube de Engenharia, homenageado por seus relevantes serviços ao desenvolvimento da engenharia brasileira e da indústria da Construção, notadamente na área de geotecnia. Como engenheiro, participou ativamente da construção da Ponte Rio Niterói.

Medalha - Francis Bogossian recebe medalha de Gerson CoutinhoCarlos Gross, Carlos Mariani, Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, João Libânio Barbará e Gerson Coutinho: a diretoria da Firjan

diplomas e medalhasAs condecorações da Firjan

medalha de mérito industrial do Rio de Janeiro1 Medalha do Mérito Industrial

premiados.jpg3Os homenageados Francis Bogossian, Fernando Jorge Fragata de Moraes, Jorge Raimundo Filho, Édson Kleiber de Castilho e Adolf Arno Edelhoff

Jorge Raimundo Filho entre os filhos Pedro e   Daniela RaimundoJorge Raimundo Filho entre os filhos, Pedro e Daniela

HildeGeorges Barrène e casais Francis Bogossian e Adolf Arno Edlhoff

Carlos Lohman e Walter Moraes.jpg1Carlos Lohman e Walter Moraes

Hilde tem os nomesAngèle Dutra, Wilma Amaral, Aimée Roque, Ivette Najn, Angela Costa, Hildegard Angel e Celina de Farias. no coquetel que se seguiu após a solenidade, no restaurante Margutta, no próprio prédio-sede da Firjan

Hilde 3Ivan Nunes Ferreira, Francis e Hilde Bogossian

Monica Bross e Daniela RaimundoMonica Bross e Daniela Raimundo

Fotos de Marcelo Borgongino

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