100 Anos de Mamãe Grande. Gigante

Foto Antônio Guerreiro (Acervo Instituto Zuzu Angel)
Texto publicado em 05 de junho de 1921, data do centenário, em meus perfis no Instagram e no Twitter (#FioZuzu100Anos)
Amanhã serão 100 anos de nascimento de Zuzu Angel nossa mãe. De Stuart, Ana Cristina e minha. Levou sua maternidade até a última consequência. Até ser morta pelo Estado brasileiro. Talvez o assassinato político mais investigado de nossa História, alvo do escrutínio de três comissões federais, a dos Desaparecidos Políticos, a dos Direitos Humanos e a da Verdade. Com perícias, depoimentos, até de um delegado do Dops, que tudo revelou e confirmou, e de testemunhas oculares do desastre provocado na saída de um túnel, que hoje tem seu nome. Zuzu, mãe Coragem, brasileira patriota.
Zuzu Angel significou o ponto fora da curva na moda em nosso país, o ponto da consciência e da virada. Pois foi a primeira a denunciar a colonização mental e cultural de nossos criadores de moda, até mesmo os mais talentosos, que condicionavam suas criações aos padrões importados, fossem de estilo, técnica, cor e até de altura da bainha.
Zuzu foi um norte, uma bússola. Apontou o despropósito de os artistas da moda brasileiros, nesse país inspirador, solar, colorido, intenso em sua História, suas alegrias e dores, festas populares, heróis, mitos, flores, pássaros, matas, minérios, irem buscar inspiração, beleza e regras no Velho Continente cansado de guerra.
Zuzu rompeu com essa ‘prisão cultural’ e voou com os pássaros, se lambuzou com as mangas carlotinha, admirou matas, cheirou flores, ampliou limites e até ousou denunciar opressão, torturas, política assassina do Estado brasileiro na Ditadura Militar, com seus vestidos pueris, singelos, cheirando a quintal varrido das cidades do interior, com suas rendas coloridas balançando no varal, com suas toalhas de mesa de renda do Norte vestindo noivas, com suas contas de jacarandá, os bambus e as conchas bordando vestidos.
Enfim, Zuzu foi o Brasil, que era omitido em nossa moda, como se ela se envergonhasse dele, e só vestisse “tailleurs”, “drapées”, “pied de poule”, e outros termos franceses, ao invés de babado sim, babado não, bordado também, franzidos e fuxicos.
Zuzu foi mineiramente inteira no que produziu, e deixou o legado da elegante legitimidade, da franqueza pueril, da moda com sotaque da nossa História.
Deixou o ensinamento de que só se recupera uma Democracia comprometida à força de muita resistência.

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