A poesia de Chico Buarque às claras, sem voz nem melodia, com lupa, luvas, uma radiografia

Abaixo transcrevo o prefácio que escrevi para o livro Quem É Essa Mulher – A Alteridade Do Feminino na Obra Musical de Chico Buarque de Holanda,do pesquisador Alberto Lima, sua dissertação de mestrado feito na Sorbonne, publicado em 2017 pela Companhia Editora de Pernambuco.

PREFÁCIO – E Chico criou a Mulher

Hildegard Angel

Do entusiasmo ao encantamento. Da revelação à euforia. A leitura de Quem É Essa Mulher – A Alteridade Do Feminino Na Obra Musical de Chico Buarque de Holanda inspira um jorrar de sentimentos intensos e múltiplos, o que não seria de se esperar de um texto acadêmico, mesmo sendo ele merecedor de honrosa menção na conclusão do mestrado do autor na Université Paris III, Sorbonne Nouvelle.

Imagino que o très bien da menção concedida tenha sido com o mesmo ânimo com que agora me debruço para escrever a respeito. Inicialmente o autor Alberto Lima, cuidadosamente e por várias fontes e caminhos, nos insere nos diversos cenários que levaram a mulher até onde hoje está. Acompanhamos, no anoitecer de 13 Brumário Ano II, em seu cárcere na Conciergerie, Olympe de Gouges, precursora dos sonhos igualitários femininos, ouvir sentença de pena de morte pelo Tribunal Revolucionário e depois seguir engaiolada pelas ruas escuras de Paris até o cadafalso, onde entregou sua cabeça brilhante, corajosa, especial, à guilhotina, cumprindo ironicamente o Artigo X de sua própria Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã: “Uma mulher tem o direito de subir ao cadafalso. Ela deve, igualmente, ter o direito de subir numa tribuna”. Seus textos libertários desagradaram aos jacobinos, naquele momento dando as cartas na França revolucionária. O ruído do baque da guilhotina abafou suas últimas palavras: “Filhos da Pátria, vocês vingarão minha morte!”.

Olympe mereceu lâmina afiada porque “abandonou os cuidados do lar, quis fazer política, instituiu sociedades de mulheres”. Foi por isso chamada na sentença de “virago”, “impudente” e “mulher-homem”. Era 1793.

O autor nos leva mais longe, aos anos 300 AC, na Grécia de Aristóteles, quando “cidadão” era palavra sem feminino, a honra da mulher era um modesto silêncio e a força da mulher consistia em vencer a dificuldade de obedecer. Apresenta a mulher do Período Romano mais senhora de si, coproprietária dos bens do marido, dirigindo educação dos filhos, comandando escravos, indo às festas e ao teatro, alegria que durou pouco, até a reação masculina, com a criação de uma lei em que a mulher passou a ser disposta como um bem pelo marido e o pai, e o Estado a privá-la de quase toda a capacidade civil.

A popularização da Bíblia, com a invenção de Guttenberg, trata de jogar por terra qualquer bom conceito que se pudesse ter sobre a mulher, essa melíflua, que induz Adão a comer o fruto proibido. Com isso, Eva tem como castigo as dores do parto e a sina de sempre desejar o marido e ser dominada por ele por todos os tempos. E segue a mulher eternamente maldita, até nos vocábulos que exprimem sua fisiologia, com os franceses chamando gravidez, parto, aleitamento e menopausa de malédiction.

Com a Inquisição, bruxas são as mulheres, personificação de Satanás. Período de trevas em que mulheres sequer tinham instrução, e só em 1592, enfim, fiat lux, abre-se nesga clara para elas, com o registro da primeira aparição num palco de uma mulher. No Renascimento, nasce a mulher influente na Corte francesa, para incômodo de Montesquieu expresso em palavras. No século 17, a ascensão da burguesia revela mulheres na literatura. Vem a Revolução Industrial e o uso da força masculina perde lugar para a máquina, sendo requisitada também a habilidade manual feminina. As mulheres são submetidas à opressão daquele capitalismo emergente, trabalhando em locais insalubres, sem hora para começar, terminar ou descansar, subnutridas, sub-remuneradas, em condições de miserabilidade e ainda com casa e filhos para cuidar. Essa panela cheia de revoltas e reivindicações negadas alcança o ponto de fervura máxima em 1857, num 8 de março, quando 129 operárias são carbonizadas dentro de fábrica em Nova York, retaliação dos patrões e da polícia contra uma greve delas. Data jamais esquecida, é o Dia Internacional da Mulher, motivador de infindáveis ações e movimentos pelos direitos das mulheres, desde sempre e para sempre.

Bem, vieram as conquistas, ralas, mas reais. Vieram as sufragistas, veio o voto, veio Simone de Beauvoir, num alvorecer de ideias, sacolejando as mentes femininas em despertar luminoso. Veio o conceito de gênero construído por mulheres, uma antropóloga e uma historiadora, e, nos anos 90, detonado por outra mulher, filósofa – todas elas ilustres. Reanálises, reavaliações, re-opiniões, entre barrancos e trancos, a mulher desembarca no século XXI ainda por se resolver, por se situar, por se fazer perdoada pelos estigmas que milenarmente lhe pesam, de leviana, infiel, mistificadora, traiçoeira, interesseira, devassa, pecadora, insubordinada, inconfiável, desde Eva, desde Aristóteles, desde a Inquisição, desde Montesquieu, desde os Jacobinos, desde as sufragistas – a mulher permanece a Deus dará.

E onde entra nisso tudo o Chico? É aquele que não se basta a cumprir, junto à sociedade, seu papel de artista difusor de valores. Vai muito além. Assim como seu personagem em Teresinha, chegou sorrateiro, avassalador e, antes que percebêssemos, instalou-se, posseiro, em nossas mentes, vidas, reuniões, fossas (ele é desse tempo), retomadas, decisões. Reinventou-nos mulheres. Ligou a luz. Alimentou a fogueira. Acendeu o lampião. Acalentou fantasias, despertou tesões, aliviou tensões. Compôs 190 canções poemas tendo a mulher como inspiração. Foi menino filho da gente, frágil como nós, outrou-se em nós (e aprendi que outrar é invenção de Pessoa, o Único), e nós nos outramos nele.

Também outra-se o autor Alberto Lima. O escritor se outra em Chico Buarque de Holanda e nas mulheres brasileiras, que, a partir dessa obra, têm a oportunidade de se verem inteiras, pelos olhos verdes do Chico, pelos olhos da perversidade dos conquistadores salteadores, que se apossaram do Brasil, pelos ingênuos olhos das índias, possuídas e violentadas, pelos olhos tristes das africanas, sacrificadas, coisificadas, pelo olhar mortiço das brancas despersonalizadas.

Conhecer as mulheres de Chico através da visão analítica de Alberto é redescobri-las. Despidas de sua melodia, nuas da voz do artista e das vozes de outros artistas, elas nos aparecem em sua inteireza, com seus petits signes de beauté mais recônditos, as estrias mais discretas, os pneuzinhos indisfarçáveis. Tudo à mostra. Perfeições e imperfeições. Ler este livro é sair dele certa de que separar o artista da obra é uma tremenda tolice.

O livro de Alberto Lima não deverá esquentar prateleira.

E minha alma lavada por perceber que, entre esses 190, há dois poemas canções in memoriam de Zuzu Angel, que se outrou mãe de todas as outras, não só de mim.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.