Minhas palavras sobre a Ocupação Zuzu, inaugurada no Rio

A abertura da Ocupação Zuzu, ontem, no Paço Imperial, foi muito emocionante. Comovente mesmo.

Compareceram antigos companheiros de militância de meu irmão, os sobreviventes Lucia Murat, Paulo Jabur, Angela e Carlos Alberto Muniz, Heleninha Bocayuva, Nelson Rodrigues Filho..

O presidente da Comissão Nacional da Verdade, Pedro Dallari, com sua irmã, a jornalista Monica Dallari, A presidente da Comissão Estadual da Verdade, Nadine Borges, e sua colaboradora Denise Assis. A primeira-dama do Estado, Maria Lucia Jardim Pezão. A ex-ministra da Cultura, Ana de Hollanda, que conferiu a Medalha do Mérito Cultural in memoriam a Zuzu Angel. A secretária de Estado de Comércio e Serviços, Dulce Ângela.  A presidente do Iphan, Jurema Machado. Deputados federais e estaduais. Amigos muitos.

Eu havia preparado um discurso, mas não li. Falei ontem de improviso.

O discurso não lido ficou na bolsa. E agora eu o revelo abaixo para vocês. Espero que aprovem.

Beijos,

Hilde

O DISCURSO

Quando a Ocupação Zuzu foi inaugurada em São Paulo, no emblemático 1º de Abril, marcando os 50 anos do Golpe Militar, minhas primeiras palavras ditas ao auditório do Itaú Cultural, na Avenida Paulista, foram sobre a “Lenda Urbana” de que Zuzu Angel morrera em um “acidente sem causas esclarecidas”, versão que mascarava a verdade gritante, que tantos se negavam a escutar.

Afinal, desde 1998, o Governo Brasileiro, através da Comissão dos Desaparecidos Políticos, criada pelo então Ministro José Gregori, reconhecera a farsa do suposto “acidente” que vitimara minha mãe. De fato, uma emboscada por agentes do regime militar.

Contudo, neste nosso ano de 2014, passados 16 anos daquele esclarecimento, ainda havia quem se referisse ao episódio como um “acidente”.

Em meu discurso do 1º de Abril sublinhei: “São 38 anos de nebulosa negação de uma realidade. Além de roubarem a vida de minha mãe, ainda tentam lhe usurpar o mérito da morte heroica”.

E antecipei, naquela noite da estreia em São Paulo, no entusiasmo da ampla repercussão do evento na mídia nacional: “Graças a esta Ocupação Zuzu, parceria do Instituto Itaú Cultural com o Instituto Zuzu Angel, essas nuvens equivocadas enfim começam a se dissipar”.

Hoje constato que aquelas palavras ditas no palco não eram de mero otimismo, elas eram uma antecipação premonitória de fatos que estavam prestes a ocorrer e que já traziam em si a marca da predestinação histórica.

Hoje, todo o país se comove acompanhando o aprofundamento das investigações da busca dos restos mortais de meu irmão, Stuart, e o surgimento de novos elementos que ratificam o reconhecimento oficial já dado pelo Governo Brasileiro do Assassinato de Zuzu Angel. Como a foto publicada na primeira página do jornal O Globo, do “chefe da quadrilha” do SNI coronel Freddy Perdigão, no local e no momento da tocaia em que mamãe foi eliminada.

Um trabalho esplêndido, incansável, corajoso da Comissão Nacional da Verdade, conduzido pelo seu destemido presidente, Pedro Dallari, sabedor de que ainda há muito mais esforço de investigação a ser feito.

Conhecemos a causa daquela emboscada: calar a voz incômoda, que, até sua morte, em 1976, não se cansava de denunciar, aqui e no estrangeiro, as atrocidades da ditadura brasileira.

Nos primórdios dos anos 70, Zuzu Angel tornou-se um arauto isolado das dores viscerais maternas daquelas brasileiras de quem lhes arrancaram filhos na plenitude da juventude, do conhecimento e do mais puro idealismo. Homens e mulheres prontos para o Brasil do amanhã.

Arrancaram-lhes e lhes deceparam as almas, os braços, seios, as cabeças e até as mãos.

No depoimento do delegado do Dops, Claudio Guerra, dado no mês passado à CNV, ele conta como os cadáveres lhes eram entregues aos pedaços, para serem incinerados no forno crematório da usina de açúcar em Campos de um político fluminense.

De meu irmão, durante a sessão de tortura em que o mataram, na Base Aérea do Galeão, arrancaram seus dentes, lindos dentes (!), dos quais minha mãe tanto se orgulhava (“O sorriso de meu filho  lembra o de Charlton Heston”, dizia). Pois outra explicação não há para o fato de ele ter passado pela “Cadeira do Dentista”, conforme dito na imprensa.

Ingênua, uma amiga me perguntou se o dentista da Aeronáutica obturou os dentes de Tuti quando ele estava preso. Abençoadas são as pessoas de bem, que não conseguem aquilatar o alcance infinito da perversidade dos tiranos…

Com a inauguração da Ocupação Zuzu no mais nobre espaço da cidade, e certamente o mais nobre do Brasil, o Paço Imperial, estamos também celebrando 1 ano de parceria com o Itaú Cultural.

Trata-se da primeira grande instituição de promoção de cultura do país que abraça a Moda como manifestação de arte, avalizando-a, afinada com a condução dada pela ministra Marta Suplicy à política cultural do país, ao incluir a moda como item contemplado pelas Leis de Incentivo de seu Ministério.

Para dar esse passo, o Itaú Cultural escolheu a coleção de Zuzu Angel, a pioneira do conceito da moda com legitimidade brasileira.

Zuzu Angel trazia a marca da insubordinação. Na sua moda – que deve ser vista com um olhar contextualizado – impondo nossos temas, materiais, a simplicidade, as cores, na contramão de todos os ditames, ousando ser criadora naquele mundo que só dava a prerrogativa da criação aos homens.

Cumprimento Milú Villela, a presidente do Itaú Cultural, pelas múltiplas realizações de sua instituição, de modo comprometido e generoso, tornando o Brasil um país melhor e mais importante.

Agradeço a essa equipe competente do Itaú Cultural, liderada por Eduardo Saron. Vou nominar: Valdy Lopes Junior, Valéria Toloi, Claudiney Ferreira, o time de curadores comigo.

O Instituto Zuzu Angel dá continuidade à sua parceria com o Instituto Itaú Cultural, através da digitalização da Coleção Zuzu Angel, dentro do projeto da Casa Zuzu Angel de Memória da Moda do Brasil – Acervo, Conservação e Restauração de Têxteis.

A Coleção Zuzu Angel expõe nossas vísceras, na plenitude de sua beleza e de sua tragédia.

Ela é uma chama de alerta, que deve ser mantida sempre ardente, em nome de nossa Cultura e de nossa Democracia.

Com o mesmo cuidado com que as sacerdotisas do templo mantinham aceso o Fogo Sagrado, que, caso se extinguisse, acreditavam os romanos, uma grande ameaça pairaria sobre o país, tenho procurado nesses últimos 38 anos manter bem viva a chama evocando Zuzu e Stuart.

Sem a chama de suas memórias crepitando na dimensão de seu heroísmo e de seu martírio, bem como as das demais vítimas da ditadura, uma grande ameaça de retrocesso pairará sempre sobre nosso país.

Os romanos estavam certos.

Muito obrigada

Abaixo os registros dos diferentes ambientes da Ocupação Zuzu

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O momento dos discursos na inauguração da mostra Oscar Niemeyer e da Ocupação Zuzu em mesa presidida por Lauro Cavalcante, presidente do Paço. A fala de Pedro Dallari, presidente da Comissão Nacional da Verdade, causou uma forte impressão nos presentes. É um homem determinado. Como disse  Dallari, já passou da hora de as forças armadas virem a público fazer seu mea culpa, admitindo as torturas e assassinatos que realizaram, sistematicamente, durante a ditadura militar. Sem isso, não será possível virar essa página vergonhosa da história.

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Acima e abaixo, atrizes vestindo réplicas de criações da estilista leem cartas deixadas por Zuzu contando sua odisseia na busca do filho

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O atelier da garagem da casa, na Rua Nascimento Silva, em Ipanema, é reproduzido em detalhes

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Os figurinos, que foram referências de moda de Zuzu, achados em seus guardados

Os blogs de meus amigos colunistas, da Lu Lacerda, da Anna Maria Ramalho, da Michelle Marie, da Heloisa Tolipan, do José Ronaldo Müller, do Franklin Toscano, do Luiz Carlos Lourenço; o JB Online, o Jornal da Cidade; os meus amigos do Face, Waldir Leite, Marcia Verissimo, Marco Rodrigues, Kika Gama Lobo, Sonia Simonsen, Renata Fraga. Ana Cristina Quevedo, Nina Kauffmann, Rosane Castro Neves, Andréa Cardoso, Giulio Durini, Ana Lucia Santana, Roberta Aguiar, Vivian Chen, Vivian Fava, Luiz Carlos Brant, Isa Chloris, Julia Morales, já postaram muitas fotos com (e sem) minhas lágrimas de chorona.

Fotos de Paulo Jabur

8 ideias sobre “Minhas palavras sobre a Ocupação Zuzu, inaugurada no Rio

  1. A chama da verdade nunca deverá ser apagada! Zuzu desde seus tecidos que foram convertidos em bandeiras de justiça, até os nossos dias atuais e futuros também nunca será esquecida. Sou um admirador nato de sua história e vida! Fica meu abraço a família.

  2. Hildegard, seu discurso é belíssimo. Não podia ficar inédito. Admiro sua Mãe, que cito sempre entre as grandes mulheres mineiras. Uma sugestão e pedido: Zuzu Angel era mineira; a exposição não pode deixar de vir a Belo Horizonte.

  3. Hilde,
    Vi a exposição em SP e AMEI ! Eu era criança na época da ditadura e não sabia da luta de Zuzu e nem do talento interrompido pela morte prematura no atentado sofrido por ela. Parabéns por sua dedicação no resgate da história , tal como ela foi. Não sabia também que a música “Angélica” , escrita por Chico Buarque, falava de sua mãe. Enfim, fiquei muito comovida com a bela exposição !!!!

  4. A chama do retrocesso continua viva dando sinais velados de sua vitalidade nas manifestações de alguns expoentes das forças armadas como na discreta manifestação de contrariedade dos chefes das três armas no evento da posse simbólica de João Goulart celebrada no Congresso Nacional. Em momentos que todos aplaudiram eles permaneceram imóveis com expressão sisuda. Demonstraram insubordinação mais explicita recentemente publicando respostas às arguições da CNV negando o desvio de conduta ocorrido nas repartições militares que abrigaram e deram apoio a tortura e ao extermínio de brasileiros valorosos. Também mostrou sua força recentemente no espetáculo protagonizado pelos marionetes togados do judiciário durante o julgamento fraudulento da AP 470 em que suas excelências serviram a finalidade de tentar dar fim a um movimento politico que traz esperanças de dias melhores para milhões de brasileiros. A farsa não se consumou plenamente porque poucos bravos guerreiros desmascararam cada ato farsesco no dia seguinte de sua encenação. Dentre esses se destaca o rótulo colado por essa brava guerreira que em uma só palavra desmoralizou todo o espetáculo midiático. “Mentirão”!! Foi o golpe mais duro e concorrente na luta pelo insucesso das manobras golpistas do consórcio abjeto Grande Mídia e Judiciário. Que o lábaro da democracia continue tremulando pela força de poucos grandes guerreiros que teimam em barrar o avanço da pregação da hegemonia capitalismo selvagem.

  5. Belo e profundo discurso Hilde! Tocante. O grupo de discentes do projeto Moda & Arte do Colégio Pedro II está totalmente envolvido com a ARTE e a história de vida de sua mãe, tão a frente do seu tempo. Levarei minhas alunas breve ao Paço Imperial para vivenciar essa riqueza criativa da Zuzu Angel. Esperamos um dia conhecê-la e trocar figurinhas. Um forte abraço Hilde. Parabéns pela exposição Ocupação Zuzu! Bjos.

  6. uma coragem que muitos homens não tem. um exemplo de mãe estupidamente assassinada. perdoe-me por ter chorado com suas palavras.

  7. Querida Hildegard, acompanho o seu trabalho jornalístico e a admiro muito . A história de sua família emociona pela coragem no enfrentamento a uma realidade tão perversa . um grande abraço. ,

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