PERDOEM-ME A FALTA DE MODÉSTIA: VOU FALAR DA MAIS TOCANTE DAS HOMENAGENS, AO LADO DE CLEONICE BERARDINELLI E SATURNINO BRAGA

Humildade e modéstia são bagagens que trago da infância. Bagagens para o meu bem e para o meu mal, que ora contribuem ora me pesam sobremaneira. Transmitidas talvez por meu avô materno, Pedro Netto, poliglota autodidata, tradutor da obra de Marcel Proust, mas que nunca permitiu que sua sabedoria ou a aparência sugerissem aos demais a percepção de seu extraordinário conteúdo intelectual. Considerava-se pouca coisa. Não valorizava o muito que era.

Tão modesto foi meu avô, que, certa vez, adquiriu dois bilhetes de loteria, um para ele, outro para dar ao seu amado e bem sucedido irmão Oscar, colocando um em cada bolso. Saindo premiado o do bolso direito, Pedro imediatamente o atribuiu ao irmão, a quem presenteou com o bilhete da sorte. Percebia-se pequeno demais para ser contemplado pelo acaso com tão vultosa quantia!

Morreu admirado pelos que enxergavam nele sua grandeza e desprezado pelos que viam em seu desprendimento os contornos do fracasso.

Pode parecer falta de humildade comparar-me a um homem especial como foi meu avô Pedro Netto, contudo, só mesmo um ataque de “Pedrite Netto aguda” explicaria eu esperar tanto tempo até divulgar a informação sobre a mais importante das honrarias atribuídas a mim: a Homenagem da Sociedade Eça de Queiroz, e isso na mais augusta companhia, juntamente a dois ilustres brasileiros, a professora e imortal da  Academia Brasileira de Letras, Cleonice Berardinelli, e o escritor premiado e ex-senador Roberto Saturnino Braga, personificação da integridade em nossa vida pública.

Vou contar.

A Sociedade Eça de Queiroz surgiu como herdeira do antigo Club do Eça, que funcionou aqui mesmo, em nosso Rio de Janeiro, nos anos 40, 50 e 60, quando ainda éramos a capital da República e hospedávamos a maior comunidade lusitana fora do território europeu.

Disse o presidente da Sociedade, Bráulio Maciel, ao abrir a solenidade: “A memória histórica de Eça de Queiroz é um elo inquebrantável a nos unir e inspirar admiração permanente. Através de sua obra e seus exemplos de vida, o escritor nos legou princípios que nos são caros, como a ética, a liberdade e a justiça”.

E prosseguiu: “É de nossa tradição agregar ao quadro associativo pessoas que, no âmbito de suas atividades específicas e na vida pessoal, adequam-se ao espírito eciano”.

A cerimônia aconteceu em duas etapas. Primeiro, o almoço alegre, descontraído, em mesas longas e floridas, em que os membros da sociedade se reuniram em congraçamento gastro-literário, entre salgadinhos muito bem preparados, bufês fartos de saladas, comidas salgadas, doces, e animados por muitos bate-papos.

Depois, a sessão solene no auditório, quando a Sociedade Eça de Queiroz celebrou o êxito de suas atividades de 2013 e nos homenageou aos três com a outorga dos títulos de “Membros Honorários”.

Ao discursar a respeito dos contemplados, o presidente Bráulio  fez o preâmbulo: “Cada um dos senhores receberá o elogio, que de fato lhes cabe (…) pelas suas qualidades de espírito e fidalguia de seus generosos corações lhes anuncio o quanto são gratos e admirados no nosso meio”.

E iniciou discorrendo sobre a acadêmica das letras Cleonice Berardinelli, minha companheira à mesa do almoço e, agora, à mesa do palco:

Ele foi só inspiração: “D. Cleonice, a sua voz é toda claridade, sua fala toda substantiva. Franqueou seus estudos e seus saberes a muitas gerações que foram irrompendo, graças ao custo de seu espírito e a magia irradiante dos temas que abordou.

Peço licença para parafrasear o poeta e dizer-lhe que estamos a beijar sua nobre fronte e reverenciar sua extensa poesia”.

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À mesa da cerimônia, onde estávamos os três homenageados, o presidente Bráulio Maciel saudou Cleonice: “Peço licença para beijar-lhe a fronte!

Vou interromper o discurso do presidente, mudar a ordem da cerimônia, para me deter em Cleonice. Dizer que foi lido em seguida um breve resumo do inacreditável currículo da professora doutora de 97 anos, orientadora de 74 dissertações de mestrado e 42 teses de doutorado, daquela que proferiu 175 conferências e 140 palestras, no Brasil e no exterior, há mais de 70 anos exercendo o magistério, que declama de cor longos poemas de Camões e Fernando Pessoa e que, ali, diante de nossos olhos e ao pé de nossos ouvidos, declamou um poema inteiro de Camões, mastigando deliciosamente as palavras, como um gourmet exigente delicia-se com um prato de iguaria nobre.

Em seguida, sua amiga e contemporânea, a diretora da Sociedade Eça de Queiroz, Marta Vinelli, leu um texto lembrando da juventude juntas, que, por tudo de delicioso que o relato encerra, recorte da História, fiz questão de reproduzir:

“Querida Cléo

Após um resumo insuficiente e incompleto de sua existência gloriosa eu pergunto: Vamos voltar ao passado? Nós fomos juventude de guerra, você se lembra?

Era a Segunda Guerra Mundial. Os black-outs, as cortinas negras nas janelas, os automóveis com gazogênio, o racionamento dos mantimentos, os navios brasileiros torpedeados pelos alemães e a tristeza dos jornais. Eram listas e mais listas de meninos pracinhas mortos em combate em pleno inverno cobertos pela mortalha da neve branca, fina e fria. O Rio de Janeiro era a capital do Brasil e as embaixadas eram todas aqui. As embaixatrizes organizavam chás para angariar fundos que seriam transformados em agasalhos, remédios e barras de chocolate para os soldados no front. As meninas da sociedade eram convidadas para servir e lá estávamos nós e um grupo de amigas de aventalzinho de xadrez e bandeja na mão. Primeiro uma banda militar tocava o hino dos países aliados. Todos de pé cantavam, muitos choravam. Era lindo e emocionante.

Querida Cléo, para terminar:

Só tenho a dizer que um dia nos encontramos em pleno vigor de uma adolescência febril e arrebatada, depois nos separamos. E agora depois de tantos anos, após uma longa estrada percorrida, tranquilas e felizes nos reencontramos ostentando com orgulho nossas lutas, nossas fadigas, nosso passado, nosso presente e nossos noventa anos.

Marita Vinelli”

Ato contínuo, a entrega do diploma com o título à mestra das mestras, professora Cleonice, e vejam na foto abaixo seu sorriso de translúcido contentamento por ser agora consagrada “eciana” legítima:

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   A imortal Cleonice Berardinelli feliz e exultante com o título a ela conferido

DEPOIS DA HOMENAGEM À EXTRAODINÁRIA CLEONICE, OS MEUS 15 MINUTOS DE GLÓRIA

Após a homenagem à professora Cleonice, o presidente da Sociedade Eça de Queiroz, Bráulio Maciel, apresentou as justificativas do título conferido a mim (quanta honra – meu deus – suceder à incomparável Berardinelli!):

“A sra. Hildegard Angel, por sua adesão pronta, decisiva e incondicional em defesa dos direitos e garantias fundamentais do homem, tornou-se um símbolo, uma fada madrinha, com participação íntima e toda especial na história da liberdade. Seus textos jornalísticos são ágeis, instigantes, justiceiros.

E toda liberdade haverá de ser construída de desassombros”.

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O presidente Bráulio dirige-se a mim e Cleonice acompanha atenta

EÇA este  Exibo bem esticadinho o diploma, à mesa da cerimônia, onde o presidente Bráulio Maciel faz-me imerecidos elogios: “fada madrinha, com participação íntima e toda especial na história da liberdade”. E classificou meus textos jornalísticos de  “ágeis, instigantes, justiceiros”, concluindo: “toda liberdade haverá de ser construída de desassombros”.

Acredito mesmo que esta inesperada homenagem foi a mais tocante, expressiva e, até, importante, entre todas as que recebi – e tenho recebido – ao longo de minha vida profissional.

É aquela que prestigia o que há de mais profundo e importante em meu ofício: o conteúdo, o objeto, o fim, o sonho de transformar o mundo em que vivemos, através das “letras desassombradas”, como classificou Bráulio Maciel.

Vocês podem bem imaginar como anda esta neta de Pedro Netto, conjeturando mesmo se esse “bilhete de loteria” não teria sido colocado no bolso errado…

 

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Stella Leonardos lê poema de sua autoria

Para completar tal rasgo de generosidade dos amigos da Sociedade Eça de Queiroz, houve ainda a poesia escrita pela notável Stella Leonardos, e dita ali por ela, de pé, diante de nós do palco e os do auditório – que presente eu recebi!

OUVES MÚSICA, HILDEGARD?

nosso entorno está mais leve,

Tudo ficou harmonioso.

Ter bom gosto é privilégio,

não se aprende no colégio,

diria Noel na certa,

dedicando-te algum samba,

dos que amam nossa lembrança.

E havia de abrir-te os braços

E aplaudir tua elegância.

Sabias que no teu nome

– Hildegard – vem uma lança?

E um anjo, também, revoando

E roçando asas de sonho?

Que muito hás sofrido, moça, exemplo de ética e estética,

Quanta sofrida vivência

Ver de lúcida esperança

Porque ergueste tua lança

E soubeste atar as asas

Um em flor abriu-se em cores

E houve um mundo de fragrâncias

Sejas feliz, Hildegard,

Tu que nos tornas felizes

Pelo belo que nos trazes

E o bem com que nos alcanças

Stella Leonardos

 

No próximo post, a homenagem a Roberto Saturnino Braga

16 ideias sobre “PERDOEM-ME A FALTA DE MODÉSTIA: VOU FALAR DA MAIS TOCANTE DAS HOMENAGENS, AO LADO DE CLEONICE BERARDINELLI E SATURNINO BRAGA

  1. O que eu posso dizer Hilde? Parabéns pela mais do que justa honraria? Parabéns por ser essa pessoa extraordinária que vc é? Parabéns porque apesar do seu trágico passado, ou talvez por causa dele, tenha-se tornado quem é? Parabéns por ser a minha voz também quando brada pela liberdade, quando defende com emoção os injustiçados (e lamentavelmete quão numerosos são agora), quando alerta dos perigos da volta dos anos de chumbo. Parabéns por representar tão bem sua mãe, aquela brava mulher, aquela que para mim sempre foi A mãe-coragem. Parabéns Hilde, por ser Hilde. Obrigada por ser, por existir, por lutar.
    Patricia M

  2. Hilde super justa homenagem! Não sei em que espaço você merece mais homenagem: é no jornalismo, na moda, na política, como cidadã, amiga, guerreira, família, esposa,……só sei que merece.

  3. A modéstia é uma virtude que engrandece ainda mais a beleza da alma modesta que tenta, em vão, escondê-la.

  4. Hildegard.
    Que notícia bem-vinda.
    Homenagem justa e que se valoriza pelas companhias.
    Sua luta nos dá muita força.

    Um beijo grande, Claudiney

    • Obrigada, Claudiney, realmente as excelentes companhias engrandecem e dão dimensão infinita a esta homenagem.
      Agradeço sua gentil manifestação de bom amigo que é
      Beijos
      Hilde

  5. Parabéns, Hilde! Homenagem mais do que merecida. “Texto justiceiro” é uma definição perfeita para sua escrita. Estou muito orgulhoso de você. Beijão!

  6. Saturnino foi camarada do meu pai, que muito o admirava desde a década de 1950. Os demais não conheço. Ganhar um prêmio é sempre bom, parabéns Hilde. Na parte que me toca, esforço-me muito para não ganhar nenhum. Sei que a História costuma silenciosamente esquecer aqueles que almejaram demasiadamente as honras. Foi o que aconteceu com todos aqueles pulhas de direita que se auto-concediam prêmios e lauréis durante a Ditadura. É preciso cuidado para não se igualar em nada aos tais.

  7. Os agraciados, Cleonice,uma vida inteira dedicada a transmitir cultura e saber, Saturnino Braga nosso querido ex prefeito que de tão modesto,flanava pelo Rio em seu fusquinha e você querida amiga fada madrinha dos direitos democráticos, título herdado de sua mãe,nossa querida Zuzu,minha saudosa Fada Madrinha no mundo da Moda.
    Nada mais justo,Parabéns ao Trio de Diamantes

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