A comovente tentativa de todos de retribuir a Gisella Amaral o tanto que fez por todos

Em outros países, figuras dedicadas ao próximo e à sua comunidade, como Gisella Amaral, têm as cerimônias de sua despedida devidamente documentadas. Lamento aquelas que se foram e não tiveram esses momentos finais registrados para a memória futura. É a história e são os costumes de um tempo, de certo grupo social e de suas personalidades representativas.

As despedidas de quem morre merecem rituais em todas as religiões. Como se cumprindo um protocolo de desapego, fazem-se, na Igreja Católica, velório, missa, discursos, coroas de flores, féretros, enterra-se ou crema-se. Depois virão as missas de sétimo dia, de 30º, de 1 ano, e de sempre que o falecido é lembrado. Assim, os que ficam vão se acostumando com a inexorabilidade da ausência, com a falta, a saudade. Os católicos acreditam que suas muitas orações e velas iluminam os caminhos celestiais de quem parte para a vida eterna. Os espiritualistas creem na reencarnação da alma, e no poder de se comunicar com ela. Mas o que concretamente ocorre é um processo de adaptação e conformidade diante da ausência do ser querido.

CAMÉLIAS BRANCAS

A missa de corpo presente de Gisella Amaral foi missa de estadista. O cardeal dom Orani Tempesta oficiou, cercado por vários padres, que ministraram a comunhão. Os membros da Ordem do Santo Sepulcro compareceram, reverentes, com suas imponentes capas pretas (as mulheres) e brancas (os homens). Os testemunhos de amigos foram incontáveis. A irmã caçula, Monica, veio do Chile, onde mora, e fez preleção comovente. Mais de uma dezena de jovens, filhas e netas de amigas de Gisella, as netas de Gisella fizeram a coleta de esmolas. As coroas de flores enviadas decoraram, enfileiradas, lado a lado, as laterais da Igreja de São José, superlotada. Algumas pessoas de pé. Gisella, serenamente imóvel, em seu esquife diante do altar, coberta de camélias brancas (a sua flor), maquiada com o batom claro que costumava usar, o risquinho com lápis fazendo os olhos ainda mais amendoados. Estava linda.

De preto, na primeira fila, Ricardo Amaral, que na hora da comunhão se levantou e ficou junto ao corpo, enquanto as pessoas que comungaram passavam por ele e o cumprimentavam. As três netas, o filho Bernardo e a nora Alessandra, junto com ele. No outro banco da primeira fila, Rick Amaral com a tia, Monica, o marido dela, as filhas e maridos.

BONDADE SILENCIOSA

Aqui e ali, ouvíamos comentários sobre boas ações de Gisella. O que mais me impressionou foi o do cabeleireiro panamenho Ricardo de la Rosa. Antes de sair, cochichou em meu ouvido: “Serei eternamente grato a ela. Quando iniciei a carreira no Brasil, a primeira vez em que precisei ir ao Panamá, e não tinha dinheiro, Gisella pagou a minha passagem”. Ao meu lado no banco, Tereza Nunes Ferreira escutou e comentou comigo: “São esses os depoimentos que valem”. Nada mais significativo do que a bondade silenciosa.

PRESENÇA SOCIAL

Os nomes sociais do Rio estavam todos lá. Nos dois sentidos, os da vida social e os da assistência social. Freiras, presidentes de entidades de benemerência, médicos vários, damas da caridade. Os antigos frequentadores da noite carioca, no reinado de Ricardo, e os novos da night, amigos de Rick Amaral, que foi companhia permanente da mãe em seu tratamento. Assim como foram inúmeras boas amigas, como Iná Arruda, Kiki Garavaglia, Tereza Seiler, Regina Ximenes, Ana Luiza Nogueira. Difícil citar nomes ou destacar personalidades, quando a pessoa em pauta é unanimemente amada. Saíram de casa para a missa, aquelas que a gente raramente vê. Deixaram os escritórios, por algumas horas, aqueles a quem é impraticável conseguir acesso. Todas as portas deram passagem aos que desejavam chorar a perda dramática dessa amiga rara.

ESTREPOLIAS DE GISELLA

Gisella foi a última a baixar armas. Na quarta-feira da semana passada, desobedecendo todas as orientações, “fugiu” do tratamento para ir ao enterro de Dayse Mene, casada com seu médico, Rômulo Mene. E ainda fez mais estrepolia, esticando numa missa noturna na Igreja Nossa Senhora da Paz. Na sexta-feira passada foi compulsoriamente internada no Pró-Cardíaco e retirada de circulação pelos médicos e pelo Ricardo. Já era a pneumonia, como um arremate de todos os outros sofrimentos da doença. O outro filho, Bernardo, em Miami, retornou a tempo das cerimônias de ontem.

GRANDE DAMA

E fica a pergunta: quem serão as grandes damas sociais sucessoras desta geração de Gisellas, Carmens, Lillys e outras que se vão?

Foram mais de cinco décadas de seu casamento com Ricardo Amaral, e Gisella aconteceu sempre. Não falo dos seus eventos, viagens e festas cintilantes, que levaram seu fascínio a Paris, Nova York, Miami, Lisboa, o mundo afora, ou da sua beleza e do seu estilo particular e elegante. Falo da grande dama e benfeitora que foi.

Gisella tinha a fé de que quando morremos renascemos para a vida eterna. Amém!

Esta página documenta a missa de ontem na São José, com fotos de Marcelo Borgongino.

As damas da Ordem do Santo Sepulcro, Eliana Moura e Vera Tostes

“Giselinha, meu Amor Eterno, Ricardo Amaral”

Cardeal dom Orani Tempesta, padres Omar, Jorge e Sérgio

A reverência do cavaleiro do Santo Sepulcro

Na primeira fila da esquerda, Ricardo Amaral e o filho, Bernardo. No cortejo, Iná Arruda, Alessandra Amaral com as três filhas e as amigas de Gisella. No banco da direita, Rick Amaral e sua tia, Monica, irmã de Gisella, com o marido.

Maitê Proença

.Rick e seu pai, Ricardo Amaral

Mariza e Jair Coser com Ricardo

Dom Orani cercado de padres e sacristães, com a oficial do Santo Sepulcro, Isis Penido, ao fundo

 

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