UM OBITUÁRIO PARA O NELSÃO

O obituário dele foi singelo, ofuscado pelo amplo, bem maior, com grande foto colorida, diagramado bem ao lado no jornal, da transformista Lola Batalhão, morta na mesma data.

E os leitores ficaram sabendo que o advogado Nelson Cândido Motta era pai do jornalista Nelson Motta, tinha 92 anos, morreu de causas naturais e escreveu e publicou, aos 83 anos, o livro infantil Vovô Viu a Bruxa, obra única.

Ouso eu dizer obra prima, pois ajudou a embalar sonhos, fantasias e o crescimento de três gerações de crianças da família pródiga delas.

Outra obra foi ter sido cofundador do Banco da Providência, cujos estatutos de criação foram formulados por ele, em sua casa. Grande obra, já que na mais augusta das companhias: Dom Helder Câmara, o santinho que o Vaticano não canonizou. Ainda.

Era conhecido como Nelsão, no aumentativo. Personagem respeitadíssimo nas altas esferas. Quais? Todas. Por isso, quando vi o anúncio pago de sua morte ocupando, dias atrás, meia página, além de outros “tijolos” do espaço fúnebre do jornal, não estranhei. Merecimento. Dor.

Estranho foi o obituário canhestro a ele destinado hoje.

Se era para restringir Nelson Cândido Motta à importância de parentescos (pai de Nelson Motta, foi dito), que se lembrassem de seu pai, o paulista Candido Motta Filho, imortal da Academia Brasileira de Letras, advogado, professor, jornalista, ensaísta e político. Participou da Semana de Arte Moderna, escrevendo estudos críticos sobre o Modernismo, junto com Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, René Thiollier e Oswald de Andrade. Participou da Revolução Constitucionalista. Foi ministro de Dutra, presidente do TSE, ministro do STF.

Nelson Cândido Motta também teve avô importante, Cândido Nanzianzeno Nogueira da Mota, professor de Direito Penal, deputado, senador e Secretário de Estado dos Negócios da Agricultura do Estado de São Paulo.

O pai do Nelsinho era, pois, o terceiro de uma dinastia, a dinastia Motta, de ilustres advogados brasileiros. Contudo, o que o distinguiu, mais do que suas obras, seus processos, as causas ganhas, os cargos, postos, condecorações, homenagens, foi a estatura que conseguiu alcançar como formador de pessoas, dom raríssimo.

Um bom pai, pai presente. Pai de família agregador, terno, pai que afaga, acolhe, dá limites, guarda. Pai do qual os filhos pranteiam a perda, como agora vemos a doce Graça Motta fazer no Facebook.

gmNelson Motta lendo estória para sua filha Graça (foto Facebook)

Construiu a biografia do Motta profissional, com mérito, sem esquecer nem deixar de lado a outra, a do Motta homem. Poucos conseguem. Segundo falou o filho, em certa ocasião, o pai ainda vivo, “foi um pai maravilhoso, continua sendo, será sempre”, sobretudo por sua “imensa capacidade de entender o ser humano e grande tolerância para a diferença”.

Vários amigos de Nelson Motta, o filho, se tornaram fãs dele, como Regina Casé e Paulo Coelho, que, jovens ainda, o procuravam para conselhos.

Eu o conheci apenas de vista, formais cumprimentos em encontros ocasionais.

Meus sentidos pêsames a toda a família.

Abaixo transcrevo o que disse sobre ele numa crônica seu filho, Nelson Motta, o Nelsinho.

VESTIBULAR

Sempre muito rigoroso, cobrando estudo, empenho, vontade de aprender, meu pai foi decisivo em vários momentos de minha vida. Quando fui reprovado em português na primeira série do segundo grau no colégio Santo Inácio, ele me disse sem se alterar:
– Quer estudar, estuda. Não quer, não estuda. Não pago mais.
Eu tinha 16 anos. Arranjei emprego de corretor de imóveis numa imobiliária de amigos da família. Com o salário, banquei o curso noturno de preparação para o exame do supletivo. Dei duro de dia, estudei muito à noite, completei 17 anos, passei em exames rigorosíssimos e saí com o diploma do segundo grau completo. Em seguida, fiz vestibular e passei. Entrei em Direito, irresponsavelmente, já que não tinha a menor vontade de ser advogado como meu pai. Queria ser músico, trabalhar com música. Detestei as poucas aulas que assisti, passei a frequentar de vez em quando só para fazer política. Era 1964, às vésperas do golpe militar, os estudantes estavam nas ruas. Então meu pai me disse:
– Larga essa merda. Você não tem nada a ver com isso, vai procurar outra coisa. Você não gosta de escrever? De desenhar? Quem sabe você faz arquitetura? Sai logo da faculdade e vai cuidar da vida, encontrar um ofício, ser bom nele, ser feliz, contribuir com o seu trabalho para os outros.
Larguei o Direito, prestei outro vestibular e entrei para a Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), nova, cheia de modernidade. Agora eu queria ser designer, projetar móveis, logotipos, cartazes, equipamentos …
Estava amando a escola, era mesmo tudo que eu queria, um meio caminho entre a arte e a indústria. Mas na metade do ano me apaixonei por uma colega, me descuidei no final do ano e fui reprovado. Ela passou, eu fiquei desesperado – afinal a escola era meu segundo lar e, reprovado, eu tinha que sair, pois não era permitido repetir o primeiro ano. Eu estava fora, não havia nenhuma outra escola de design, minha vida sem caminho.
Vendo meu desespero, com seu coração de pai e raciocínio de advogado, ele teve a ideia salvadora. Disse algo mais ou menos assim:
– Se você está fora da escola é porque voltou a ser um estudante comum, não é? O que o impede de um estudante comum de prestar outro vestibular para a ESDI no próximo ano?
Bem, nada impedia. No ano seguinte, com 700 candidatos para 30 vagas, passei em primeiro lugar na ESDI. Na decisiva entrevista de aprovação com os professores, fui elogiado pelo amor à escola e a profissão. Entre os colegas fui ovacionado. Virei homem.

graça motta nelsaoNelsão com as filhas Graça e Cecília

2 ideias sobre “UM OBITUÁRIO PARA O NELSÃO

  1. Muito tocante e oportuna homenagem ao já inesquecível Nelson, autor de Vovô Viu a Bruxa, que encantou gerações … parabéns Hildegard Angel !

    C. Thiago de Menezes – Presidente da FALASP – Federação das Academias de Letras e Artes do Estado de São Paulo

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