Sergio Figueiredo: sonhou grande, viveu grande, ao lado de uma mulher que soube ser para ele ainda maior

A partida foi sob protestos. Reclamou, se angustiou, elevou a voz, perdeu a fala, deprimiu-se. Não foram fáceis os últimos anos em que percebia perder o domínio sobre sua vida, a saúde, perder o controle sobre seu bem planejado universo, um mundo de sofisticação e poder, que, pouco a pouco, se diluía à sua volta com a partida de uns muitos e o afastamento de alguns outros, mais jovens, o que a diferença de idade cada vez mais impunha.

Não estava feliz. Seu próprio círculo social se desconstruía. Seu cenário se degradava. Seu Jockey Club não era mais o mesmo. Os grands seigneurs do turfe, seus companheiros das tardes e noites de corridas na Tribuna de Honra, viraram retratos a óleo nas paredes do clube. O Rio de Janeiro dos nightclubs fervilhantes já foi. Restavam o Gero e a Osteria Dell’Angolo, os últimos redutos. Não, não estava mesmo bom.

“Paixão da minha vida” foram suas últimas palavras na UTI, olhar voltado para a mulher, Iolanda, e a filha, Yara. Assim, desprendia-se do único fio de amor que o ligava à vida: a pequena família iniciada há 50 anos. Assim, se completava aquele ciclo emocionante, montanha russa conjugal, a união de duas pessoas absolutamente diversas, reunidas por um elo inquebrantável de nome Yara.

Só a personalidade de um turfista apostador, acostumado a ousar o improvável, explica este casamento, que para muitos seria um Azarão e acabou se revelando Poule de 10.

Ela, um pássaro solto, ao embalo das forças da natureza, sem ambições e sem submissões, bem ao jeito de quem traz nas raízes o destemor do solo pujante das Minas Gerais. Ele, um jornalista em ascensão, mirando perspectivas ao longe e bem acima, quer nas rodas políticas e financeiras, quer nas sociais.

O início do romance de Sérgio e de Iô teve tintas shakespearianas, quase beirando as tragédias do século 17, que Sergio tanto estudou em Londres, quando cursou teatro ao lado de Laurence Olivier, o que lhe garantiu um inglês perfeito e com acento impecável.. Porém, contrariando a dramaturgia, a trama do casal tomou rumo feliz de filme romântico francês de Claude Lelouch.

Iolanda desde sempre foi a fada boa. Centrou-o num lar doce lar, garantindo a ele paz e sossego de espírito. Soube entende-lo e ser, para ele, a mulher de sua vida. Ajeitou-lhe o look, até então “despojado” demais para um jornalista das altas esferas. Aplicou nele uma boa escanhoada e um haircut clássico, como bem convinha às suas ambições. O terno escuro, as camisas engomadas com iniciais bordadas, as abotoaduras, o lenço impecável no bolso, a colônia… Tudo obra da Iolanda, que logo descobrimos ser perfeita esteta, como poucas há.

Formaram um casal obrigatório, unindo a desenvoltura social e a inteligência rápida de Sergio à elegância no vestir e a personalidade singular de Iolanda, sempre muito bonita e altiva.

E a vida correu… Iolanda aderiu aos ensinamentos do guru Osho, passando a nortear suas decisões por eles, com viagens sucessivas à Índia. Fez-se profundamente espiritualizada. Com seu guru, aprendeu – e nisso acredita – que, quando uma pessoa faz a ‘passagem’, a Luz e a Escuridão vêm disputar sua Alma. Assim, ao chegar na capela do hospital Samaritano, onde o corpo morto do marido já se encontrava, Iolanda o vestiu calmamente, ajeitou-lhe o pescoço e a boca, pediu aos funcionários da clínica que se retirassem (o que fizeram sob protesto) e passou três horas solitária ao seu lado, em profunda meditação, até conseguir perceber a Luz!

Na sua crença, a energia da alma deve deixar o corpo através da cabeça, pois só aí se dará a Iluminação. Iolanda pousou a mão sobre a testa de Sergio, aguardou longo tempo e sentiu o aumento da temperatura. Era a energia que enfim fazia sua passagem. A alma, seu transcurso.

Ela se sentiu rica, plena e muito emocionada. Estava segura de que ali completava também a missão espiritual de seu casamento.

Na missa de sétimo dia, Iolanda Figueiredo recebia, ao lado da filha, no saguão da Nossa Senhora da Paz, agradecendo, a cada amigo que chegava, por rezar para Sergio. Digna e firme. Não chorava. Em sua religião, as lágrimas dos que ficam confundem a alma dos que vão.

Estava extraordinariamente bonita e elegante. De preto, com turbante preto e branco de pontas longas, caídas, e a camélia de ouro negro, criação dela, espetada no peito.

Com meu vício de colunista social, comparei-a mentalmente a Jacqueline Kennedy (“foram as duas viúvas mais bonitas que já vi”).

Assim como organizou Sergio para ele brilhar em sua vida profissional, ela soube organizar a missa dos sonhos dele. Padre Jorjão, com o mais belo dos seus hábitos, paramento de gala, preto e ouro. Missa toda cantada pelo afinadíssimo coral da Igreja. Flores brancas cobriam o altar, em arranjos de extremo bom gosto. Na primeira fila, Iolanda, Yara, os sobrinhos de Sergio e, toda de preto, sua irmã, Leda, cabeça branca, em cadeira de rodas.

A sobrinha leu a Primeira Leitura. Yara, as Preces da Comunidade, e, ao final, agradeceu aos presentes em fala breve e carinhosa.

Os amigos estavam tristes. Eram amigos importantes. Três ex-ministros de Estado, um deles atual vice-governador, Francisco Dornelles, com Cecília. Os outros ministros: Ernane Galvêas e Reis Velloso, com Isabel. Advogados, como João Maurício de Araújo Pinho. Embaixadores, como Paulo Pires do Rio. O ex-presidente do Country Club e do Bradesco Seguros, Eduardo Vianna, com Lilian. Personagens sociais de décadas variadas: Ricardo e Gisella, Danuza Leão, Aparecida Marinho, Idinha Seabra, José Antonio Magalhães Lins, Paulo Fernando Marcondes Ferraz, Maitê Proença e a filha Maria Marinho, Tanit Galdeano, Marcelo Itagiba, Carlos Eduardo Bulhões Pedreira, Nelson Tanure, os Celidônio, Narcisa, Tania Caldas, Julio Rego, Simone Rodrigues – viúva de Ibrahim Sued, Bia Vasconcellos, Paulo Müller, Alice Tamborindeguy. O presidente do JB Online, Pedro Grossi, com Lucinha. O ex-presidente da Cemig, Djalma Moraes, e Maria Teresa. Na primeira fila, também, Ronald Levingsohn, um bom companheiro, com a filha, Claudia.

Não foi uma cerimônia glamourosa ou fosforescente. Havia contrição, tristeza e sentimento de perda. O último da fila de pêsames era Alberico Campana da Plataforma, quem não se lembra? Sim, o Alberico da época em que era comum encontrar lá Tom Jobim, em sua mesa, sempre fazendo alguma referência a Frank Sinatra quando lhe perguntavam. E quem mais puxava assunto sobre ‘our friend Frank‘? Sergio Figueiredo, fã incondicional.

Plagiando André Jordan, no inspirado título de suas memórias cariocas, Sergio Figueiredo ‘foi um Rio que passou em nossas vidas’…

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11 ideias sobre “Sergio Figueiredo: sonhou grande, viveu grande, ao lado de uma mulher que soube ser para ele ainda maior

  1. Que bela matéria expondo a força espiritual dela, o amor profundo do casal, e a diferença entre eles confirmando a beleza do vínculo. Seu texto é pura inspiração, Hildegard Angel, como sempre. Agradeço a forma cuidadosa com que você cita o Osho, tão grandioso mestre pra tantos de nós, sannyasins, coisa rara no mundo dominado por fake news. Obrigada, Sushma

  2. Viveu intensamente enquanto aqui esteve junto com a sua Yolanda e a filha Yara. Belas palavras. Sua crônica sobre ele está perfeita. Parabéns pela sua real, rica e carinhosa manifestação !!!!

  3. Hilde querida…sendo grande amiga de Iolanda e Sergio, fiquei emocionada, maravilhada, encantada com a belíssima retrospectiva da vida deste casal que fez parte da minha vida e sempre fará! Obrigada, Kiki Garavaglia

  4. Era um senhor muito simpático, poseur, elegante, com quem costumavamos esbarrar pela orla da práia, pelas ruas de Ipanema, na livraria da Travessa!
    Certamente, ele, com seu jeito de gentleman, não deve ter suportado o caos que virou a cidade, a ausencia do glamour que tanto viveu, a violencia, outros tempos…
    Deus o guarde, vai fazer falta…

  5. Texto riquíssimo, Hilde. Foi um prazer viajar por uma via tão prazerosa e sentimental. Ele nos deixa duas luzes, Iolanda e Yara.

    Grande abraço,

    Luiz Carlos Sarlo

  6. Tenho 47 anos de jornalismo e poucas vezes li um texto tão exato, rico em detalhes, maduro e fiel aos fatos como este. Uma aula gratuita de jornalismo, que recomendo a todos os estudantes que perdem tempo no Face e em outras redes sociais desinformadas quanto ao bom jornalismo.
    Lugar de repórter é na rua. Onde ocorrem os fatos.
    Parabéns, Hilde.

    • Obrigada, Kleber.

      Trata-se de um elogio respeitável. No objetivo e no figurativo.
      Fiquei envaidecida.
      Abraços
      Hilde

  7. Hildegard Angel,
    Parabéns pelos 94 anos da sua mãe Zuzu Angel porque ela é imortal.
    Ela nos “deixou” dando um exemplo de uma Mulher de Caráter, Força, Fé e Perseverança.
    Bjs
    Neyde.

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