O historiador holandês que colocou o dedo na ferida em Davos: a taxação dos ricos.

Hildegard Angel – Jornal do Brasil – 21 02 2019

Consultei o Google e não encontrei registro na imprensa brasileira de que o historiador holandês Rutger Bregman, autor do livro “Utopia para realistas”, foi a maior estrela no fórum de bilionários de Davos. Ele “causou” abordando um tema tabu para tal plateia: a insensata “isenção de impostos” aos… bilionários! Saiba aqui.

 AS COISAS VÃO de mal a pior. No Brasil e no mundo todo. O meio ambiente em frangalhos, a precarização do mercado de trabalho, a compulsória submissão do trabalhador em condições de semiescravidão, a ausência de voz dos sindicatos para defende-los, a multiplicação de facilidades e privilégios para muito poucos em detrimento da grande maioria, a indiferença ante as tragédias humanas e climáticas à nossa volta… E TUDO CONTINUA como dantes, findo o recente encontro em Davos, onde Rutger Bregman, 30 anos, um idealista do nosso tempo, foi o frisson do Fórum Econômico Mundial no mês passado. A mídia o chamou de “o herói folk de Davos”, pelo seu destemor e a impaciência, colocando o dedo na grande ferida do mundo… E QUE FERIDA será essa? O historiador Bregman botou as cartas na mesa: “É a primeira vez que venho a Davos e, francamente, achei desconcertante 1500 jatinhos voarem para cá para ouvir Attenborough (famoso naturalista britânico) falar sobre, reparem, ‘como estamos destruindo o planeta’! E, digo mais, ouvi pessoas falando em termos de ‘participação’, ‘igualdade’, ‘transparência’, mas, vejam, ninguém levanta a questão da ‘isenção de impostos’. Certo? Os ricos não estão pagando a parte que lhes cabe. Me sinto como se estivesse em uma reunião de bombeiros na qual é proibido falar em ‘água’. De fato, há somente um grupo de discussão.”… E O MODERADOR: “Tivemos dois grupos. Você é o segundo.”… PROSSEGUE RUTGER Bregman: “Tá, mas espera aí, além deste, houve somente um grupo, escondido da mídia, discutindo ‘isenção’ de impostos. Fui um dos 15 participantes. Alguma coisa precisa mudar aqui”… BREGMAN PROSSEGUE inquisitivo: “Há 10 anos este fórum perguntou-se sobre o quê? O que o mundo dos negócios poderia fazer para evitar um enorme cataclisma social. A resposta é bem simples: parem de falar sobre filantropia e comecem a falar sobre impostos. Impostos. Impostos. Há dois dias esteve aqui um bilionário, Michael Dell, e fez uma pergunta do tipo ‘me digam um país onde uma *taxa marginal de imposto de 70% tenha funcionado?’. Bom, vocês sabem, sou um historiador. Funcionou nos Estados Unidos! Nos anos 50, durante o Governo do Republicano Einsenhower, um veterano de guerra, como vocês sabem, a *taxa marginal de impostos para pessoas como Michael Dell foi de 90%. Vejam: a taxa mais alta do governo para pessoas como Michael Dell era mais do que 70%. Quer dizer, não é complicado. Podemos gastar um tempo enorme falando sobre toda essa bobagem de projetos filantrópicos; podemos convidar o Bono outra vez, mas, ora, o que temos que fazer é discutir sobre impostos. É isso: impostos, impostos, impostos. O resto é besteira.”… EM SEGUIDA, falou a diretora executiva da Orxam International, a ugandesa Winnie Byanyima, 59 anos, engenheira, política e diplomata aeronáutica: “Temos um sistema de impostos que deixa ‘vazar’ muito, que permite a fuga anual de 170 bilhões de dólares para paraísos fiscais; e, desse modo, retirados de países em desenvolvimento mais necessitados. De tal maneira que precisamos rever o modelo de negócios e a ação governamental na arrecadação e destinação dos impostos na vida das pessoas.”… UM MEMBRO DA PLATEIA se manifesta: “Devo dizer, honestamente, que esse é um grupo de discussão unilateral. Os Estados Unidos, basicamente, têm a menor taxa de desemprego de todos os tempos. A menor taxa de desemprego entre afrodescendentes. A menor taxa de desemprego entre jovens. Temos, de fato, reduzido a pobreza mundial, e ninguém fala sobre isso! De modo que eu gostaria que este grupo discutisse, além das questões sobre taxação, a respeito da qual todos vocês falaram – aliás, a única coisa sobre a qual falaram neste grupo sobre desigualdades – o que é realmente possível fazer para combater a desigualdade, além de discutir sobre impostos?”… A RÉPLICA DE Winnie Byanyima vem contundente: “O cavalheiro que pediu a palavra agora; que disse que só falamos sobre impostos; e que ‘os empregos estão aí’; que as taxas de desemprego estão baixas, permita-me dizer-lhe algo: estamos falando sobre empregos, mas sobre a qualidade destes empregos. Trabalhamos com operários em frigoríficos de aves no país mais rico do mundo, os Estados Unidos. Trabalhadores em frigoríficos. Mulheres que cortam e embalam o frango que compramos nos supermercados. Uma das mulheres com as quais trabalhamos, Dolores, nos contou que ela e suas colegas têm que usar fraldas enquanto trabalham, pois não é permitido a elas intervalos para ir ao banheiro. Isto no país mais rico do mundo. Este não é um emprego digno! É sobre este tipo de trabalho que estamos falando, que a globalização está promovendo. A qualidade do trabalho importa. Importa sim! Estes não são empregos dignos. Em muitos países os trabalhadores não têm mais voz. Não se lhes permite mais se sindicalizarem, não se lhes permite mais negociarem salários. De modo que estamos falando sobre empregos, mas empregos que tragam dignidade. Estamos falando sobre assistência médica”… WINNIE CONCLUI com dados: “O Banco Mundial nos informou que 3,4 bilhões de pessoas que ganham 5, 50 dólares por dia estão ‘no limite’, a um passo de mergulhar na pobreza. Não têm auxílio-saúde. Apenas mais uma safra ruim e essas pessoas vão mergulhar uma vez mais na pobreza. Elas não têm ‘seguro contra quebra de safra’. Então, não me venha falar sobre níveis de desemprego. Você está mal informado. Não está considerando a dignidade das pessoas. Você está se referindo a pessoas que são exploradas”…
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*A taxa de imposto marginal é um tipo de sistema fiscal progressivo que impõe uma taxa de imposto sobre o rendimento mais elevado às pessoas com rendimentos mais elevados e uma taxa de imposto sobre o rendimento mais baixa em pessoas com rendimentos mais baixos.

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