Encontro ‘Ditaduras do Cone Sul 50 Anos Depois’, no sábado passado

Breves palavras de Hildegard Angel – Encontro Ditaduras do Cone Sul 50 Anos Depois  – Teatro Municipal de Santo André – Em 10 / Maio / 2014

Boa Tarde

Meus cumprimentos a todos os presentes e a todos os que me escutam.
É esperado de mim que hoje fale sobre a censura na mídia brasileira nos anos de chumbo.

A grande lição que aprendi naquele período foi que quando começamos a praticar a auto-
censura é porque a censura alcançou seu apogeu.

Infelizmente, senhoras e senhores, tenho a lhes dizer que é num momento assim que
hoje me sinto em meu país.

Ruy Barbosa dizia que a pior ditadura é a do Judiciário.

O Judiciário significa a última instância da esperança da coisa justa. Da possibilidade
de uma argumentação em alto nível, que deixe passar pelo menos uma fresta de luz, uma alternativa final, um aceno de liberdade.

Contudo, hoje… hoje, não, nos últimos 2 ou 3 anos, vejo-me cautelosa sobre as minhas
palavras. Escrevendo-as e em seguida apagando em meu blog ou mesmo nas breves frases, opiniões despretensiosas escritas no twitter, pois sei que, assim como nas cenas dos tribunais dos filmes americanos, “tudo o que você disser poderá se voltar contra você”.

Livres manifestações de pensamento, impulsos momentâneos volta e meia resultam em processos, aborrecimentos e retaliações, até por parte de digníssimos, meritíssimos, poderosíssimos, que não admitem ser contraditados, muito menos contrariados.

Há precedentes de companheiros da imprensa, formadores de opinião, seguidores do twitter, duramente penalizados devido a meros rompantes com 140 toques, espontâneas expressões de indignação cidadã, no ritmo frenético das redes sociais.

Porém alguns dos nossos julgadores parecem ainda julgar em ritmo pré-ondas do rádio, ao tempo das intrigas do boca à boca maledicentes. Ao tempo do capa-espada.

Não sou jurista
Não sou política
Não sou intelectual
Hoje sequer sei mais se sou jornalista
Sou uma cidadã cada vez mais sofrida e triste por perceber com impressionante clareza que a tragédia brasileira parece querer se repetir como um estigma.

É tempo de revisão da História. Como vemos neste Fórum. Contudo, mais do que conferir o passado, temos que estar atentos ao presente.

Fatos graves se desenrolam sob nossos narizes e a sociedade brasileira parece ignorá-los, como catatônica, enquanto um inexpressivo número de jornalistas atentos da mídia impressa e da mídia virtual grita, se esgoela, sem conseguir se fazer escutar.

O dito Mensalão foi uma produção independente de laboratório, uma ovelha Dolly, um embrião de pré-golpe. No tubo de ensaio, seus marqueteiros etiquetaram a marca Mensalão, um Brand, como agora tudo precisa ter para alcançar impacto, ao qual eu rebati com o Brand de Mentirão. Pois sua fórmula foi engendrada com os ingredientes do verbo golpear.

  • Golpear a luta corajosa dos jovens ideológicos torturados que deram a vida para libertar e transformar nosso Brasil num país melhor, naqueles sombrios anos 60 e 70.
  • Golpear os movimentos sociais, as causas nacionalistas.
  • Golpear sobretudo as ações de um governo atento às necessidades populares.

Não sou partidária. Tenho críticas a fazer a todos os partidos, como qualquer brasileiro observador.
Não posso porém deixar de reconhecer os avanços sociais deste país e a retomada de seu desenvolvimento, com melhor distribuição de renda.
Um programa político que contempla a nação e sua população, principalmente a mais carente, assusta e amedronta quem não tem o povo como prioridade e premissa. Para isso existem e são gerados os Mentirões.

Quero concluir dizendo que tenho medo quando meço minhas palavras.
Muito medo.
O pensamento independente acabou no Brasil, onde, na grande imprensa, a prática institucionalizada é a do pensamento único.

Um jornalista que ingressou, não faz muito, num poderoso grupo de comunicação classificou aqueles que escrevem apenas em sites como “escola de samba do segundo grupo”.

Este é o grande fosso que separa os profissionais de imprensa ungidos dos atingidos.
Ou você está nos 2 ou 3 grandes veículos e/ou grupos e pensa como eles ou vai sambar no segundo grupo.

À época do advento do Golpe de 64, o Brasil perdia a conta dos jornais em suas bancas. Eram os veículos da situação e da oposição.
Do verso
Do reverso
Do controverso
Hoje, temos apenas o Transverso.

O mundo mudou, vocês dirão, a mídia impressa está se extinguindo, dirão também.
Mas, se pensarmos que no Estado do Rio de Janeiro, antiga capital federal, há apenas 1 jornal opinativo e influente de grande circulação.

Se pensarmos que hoje, em nosso país, todos os grandes grupos de mídia professam a mesma opinião, independentemente de ela coincidir com a nossa ou ir contra ela, este é um fato de grande gravidade a ser considerado.

Por fim, vou ler (os trechos de) um manifesto que hoje me caiu em mão, que reforça a tese aqui exposta e justifica o meu medo.

“09/05/2014

Há muitos anos os Tribunais brasileiros, em especial o Superior Tribunal de Justiça (STJ), entendem perfeitamente cabível a concessão de trabalho externo para o preso condenado ao regime semiaberto.

É uma questão jurídica pacificada, não existe controvérsia. Como prova, basta observar que o Procurador-Geral da República Dr. Rodrigo Janot, os representantes do Ministério Público do Distrito Federal e os juízes da Vara de Execuções Penais de Brasília, todos, sem exceção, concordaram que os presos da Ação Penal 470, condenados ao semiaberto, pudessem exercer imediatamente o direito ao trabalho externo.

O Ministro Joaquim Barbosa tinha absoluta ciência que os demais condenados da Ação Penal 470 estavam trabalhando fora do presídio e também não discordou da viabilidade jurídica deste importante direito.

Justamente no momento em que o Ministro Joaquim Barbosa teria que decidir sobre um condenado específico, o ex-Ministro da Casa Civil José Dirceu, sobreveio uma abrupta mudança de entendimento(…)

O retrocesso pretendido pelo Ministro Joaquim Barbosa é ilógico e cruel. No seu entendimento, todo cidadão condenado ao semiaberto somente poderá trabalhar fora da prisão depois de cumprir um sexto da pena. Porém, depois deste período, o condenado deixa o regime semiaberto em progressão ao regime aberto. Na prática, o Ministro Joaquim Barbosa proclamou que nenhum preso condenado ao semiaberto poderá exercer o direito ao trabalho externo (…)

José Luis Oliveira Lima
Rodrigo Dall’Acqua
Advogados de José Dirceu”

Por tudo isso reitero a afirmação do sábio jurista Ruy Barbosa: “A pior entre todas as ditaduras é aquela exercida pelo Judiciário”.

H.A.

2 ideias sobre “Encontro ‘Ditaduras do Cone Sul 50 Anos Depois’, no sábado passado

  1. Grande bravura demonstra aquele que tem coragem de expressar-se contra a corrente majoritária dos sofredores de carência de informações consequente da manipulação da grande (assim chamada) imprensa. Embora eu comungue completamente com esse seu entendimento, não tenho coragem de expressar-me sobre ele em qualquer ambiente com medo da fúria dos que acreditam nas fantasias tristes disseminadas pela mídia.

    • Você não imagina como isso me custa caro. Quantas agressões e incompreensões. O pensar diferente da grande maioria, o ir na “contra mão” tem um alto preço.
      Grata pela sua manifestação.
      Abraços

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