Passeata de Pirro

Passeata de Pirro. Desfilou no Aterro, ao meio-dia deste sábado, uma fila única de carros, com forte aparato de viaturas policiais, na abertura e na fechadura. Na comissão de frente, um caminhão de som com oito pessoas na proa, sem máscaras e vestidas de verde e amarelo. Como não havia multidão, havia buzinas, contínuas, insistentes, estridentes, aborrecentes. Não se sabia o que pediam. Ouvia-se vez por outra um grito de “mito”. De um dos carros, partia, em volume alto, música com letra que grunhia “Bolsonaro”. Uma grosseria sem tamanho, invadindo o sábado e a privacidade de ouvidos já acostumados ao silêncio da quarentena. O que queriam? Protestavam contra quê? O “mito” está no poder, devidamente entronizado por eles. Mas o “mito” não aceita poder dividido. Câmara, Senado, Supremo, imagina! Para quê tantos palpites? Como ousam, se há o “mito”, o “mitooo”!!! Não querem um presidente, aspiram por um monarca com poder supremo. Um imperador. Czar. Um Todo Poderoso para reinar no país da verdade paralela, dos feitos virtuais, das conquistas de mentirinha, do progresso fictício. Um ditador fake para o país da fakeada, da fraquejada, da fancaria. Brasil em frangalhos, Brasil com F. De Feio.

 

 

O pivô da discórdia entre Mandetta e Bolsonaro é Donald Trump

O pivô da discórdia entre Mandetta e Bolsonaro não é o distanciamento social, é Donald Trump, o lobista mundial nº 1 da hidroxicloraquina antimalárica.

Pressuroso como sempre em copiar e reverenciar o presidente norte-americano, Bolsonaro resolveu imitá-lo também na apologia à cloraquina, cuja eficiência para tratar o COVID-19 é ainda desconhecida, o que tem valido críticas sem limites na mídia americana ao “Mr. America 1st” – desde o jornal The New York Times à revista de sofisticação Vanity Fair.

Com aquela sua facilidade para afirmar coisas de que não entende bem, e depois pular fora quando dá ruim, Trump soltou esse petardo durante um de seus últimos pronunciamentos sobre a pandemia, propalando os méritos da hidroxicloraquina, e aconselhando aos americanos que a tomassem porque “o que vocês têm a perder?”. Como temos visto, pelos relatos recentes, temos a perder a audição, o bom funcionamento cardíaco, a sanidade mental e outros probleminhas, que podem até custar a vida ao paciente.

O exagero de Trump, botando pressão junto à opinião pública por um medicamento sem comprovação científica, fez com que surgissem especulações até sobre a possibilidade de ele vir a licenciar seu nome para a marca e de ter interesses diretos na Sanofi, a francesa fabricante do produto, e que é a maior participação no fundo mútuo Dodge & Cox, em que a família Trump tem investimentos (NYT).

Nos bastidores do governo, quem faz o papel de ardente defensor da cloraquina é Peter Navarro, um assessor econômico que o genro de Trump, Jared Kushner, descobriu na Amazon, e que aposta todo o baralho no medicamento, o qual, contudo, ainda não demonstrou funcionar contra o COVID-19 em qualquer ensaio clínico significativo, e não foi incluído nos relatórios anteriores da China e da França aos grupos de controle.

Navarro é tipo um Abraham Weintraub do Trump. Ele é aquele assessor aloprado da Presidência flagrado enviando e-mails com nome falso em apoio às políticas tarifárias do governo, e que, para desacreditar o NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio), alegou que “um setor manufatureiro desprotegido leva ao aumento de abortos, abusos domésticos, divórcios e infertilidade”.

Segundo a Vanity Fair, no último domingo Navarro, cuja experiência em saúde pública é nenhuma, reuniu-se com os técnicos da área de saúde do governo, colocando diante deles um impressionante calhamaço de papéis, folhetos, prospectos e pastas, e passando a exaltar estudos que leu, enfatizando “a clara eficácia terapêutica” do remédio, o que, no mundo real, não existe.

Presente, o imunologista que conduz o combate ao COVID-19 nos EUA, dr. Anthony Fauci, com longo histórico médico como pesquisador e chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, declarou não haver até agora qualquer evidência científica da eficiência do produto, apenas rumores e até piadas, e que são necessários muitos mais dados para sua aprovação. Sem argumentos nem credenciais para tal, Navarro teria ficado rubro de indignação, e reagido como se ouvisse uma ofensa pessoal.

Assim como Fauci se opõe ao desejo de Trump, o ministro da Saúde Mandetta também se opõe aos caprichos cloraquínicos de Bolsonaro. Na falta de um Jared Kushner como genro, Bolsonaro tem os 01,02 e 03 para lhes assoprarem bobagens nas orelhas – que ainda escutam, sorte que ele não se medica com a hidroxicloraquina – e, na falta de um Peter Navarro, tem Osmar Terra.

Sugestão aos ricos: ceder os gramados e quadras de seus clubes para hospitais de campanha

No início da pandemia, então “epidemia”, ouvi de uma amiga frequentadora do Country Club que os ricos não iriam morrer, já que têm recursos para os melhores médicos e hospitais. Por ironia e infelicidade, foi justamente uma sócia do clube, Mirna Bandeira de Mello, uma das primeiras vítimas fatais da doença no Rio de Janeiro. Agora, o Country Club está lá, fechado, com dezenas de sócios infectados, causa de tristeza e preocupação.

O Covid-19 não tem poupado sequer os inatingíveis. A praga não respeita poder e dinheiro. Da Espanha, chega notícia da morte de mais um milionário poderoso, o ex-presidente da Repsol, dono de vinícola, Alfonso Cortina. Nos EUA, a atriz Lee Fierro, de Tubarão, é outra que se foi, entre tantos do show business internacional. Na moda, o estilista italiano de sapatos, Sergio Rossi. O ex-ministro da França, Patrick Devedjian. O britânico, marquês de Bath, Alexander Thynn. O principal consultor do Líder Supremo Ali Khamenei, do Irã. O banqueiro italiano Piero Schlesinger, ex-presidente do Banco Popular de Milão. Nomes pinçados em uma longa lista, permanentemente atualizada, na Wikipedia. Enquanto o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, com a situação agravada, acaba de dar entrada na UTI.

Em São Paulo, o destino dos que podem pagar são os hospitais Sírio e Libanês e  Albert Einstein. No Rio de Janeiro, os hospitais Copa Star, Samaritano, São Vicente, Pró-Cardíaco. Para os que podem pagar, a medicina tem grife. Mas a grife também pode ter medicina pública, é só se dispor a isso. Vai daqui a sugestão: fazer dos mais bem grifados e fechados clubes do Rio hospitais de campanha, cedendo para isso seu gramado imenso e suas quadras de tênis. Assim, seria com o Country Club, bem como o magnífico Gávea Golf Club, junto à Rocinha, com seu green de 18 buracos, dividido em dois campos, atravessando até a auto-estrada Lagoa-Barra; o Itanhangá de Golfe e Polo, originalmente uma fazenda, ao lado de comunidade pobre do mesmo nome; o Jockey Club do Rio de Janeiro, aquela imensidão na Gávea, com pistas e gramados; a Hípica, com seu grandioso picadeiro para saltos diante da Lagoa, todos poderiam fazer igual.

Os clubes paulistanos, como o Harmonia de Tênis; o Esporte Clube Pinheiros, com seus 170 mil m²; o imenso Paineiras, no Morumbi, o Clube de Campo de São Paulo, 110 hectares de área, entre tantos espaços magníficos, pois clubes grandiosos não faltam à cidade de São Paulo.

Poderiam, todas essas agremiações, contemplar suas comunidades não apenas com o espaço, mas ainda com a participação generosa dos sócios, com doações que contribuam para viabilizar as instalações hospitalares. E sobretudo com o apoio do governo federal, que só de uma tacada premiou os bancos com 1,2 trilhões de reais. Não custa jogar mais um mísero bilhão no chapéu da saúde necessitada.

Os bons exemplos são muitos, e vêm do “mundo civilizado”. Nova York destinou, além do Central Park, as quadras do US Open, o mais famoso torneio de tênis do mundo, no Billie Jean King National Tennis Center, em Queens. Nossos clubes de futebol também estão nos devendo essa.

Esse vírus misterioso, em sua origem e em suas características, nos sugere propósitos múltiplos. Ora eugenistas, quando pune e discrimina os idosos e aqueles que têm males pré-existente. Ora tragicamente reveladores, ao desvendar o rosto tragicamente insensível do capitalismo, que sequestra nos aeroportos cargas de insumos para a saúde de outros países. A face gananciosa dos que se aproveitam até da peste. A face divinamente transformadora, nos fazendo vislumbrar a possibilidade de um mundo pós-Covid, de maior tolerância e fraternidade, com diferenças menos agudas e corações mais atentos.

É isso que o universo está gritando aos nossos ouvidos. Chegou a hora de abrir as mãos e de se dar as mãos, irmanados em torno de um objetivo comum, como única possibilidade de a Humanidade sobreviver e prosseguir.

Vista aérea parcial de gramado e quadras do Country Club, em frente ao mar de Ipanema

 

No faroeste chamado Brasil, os Bandidos vencem os duelos

Em seu programa na CNN Internacional, a jornalista Christiane Amanpour entrevistou o governador Andrew Cuomo, do Estado de Nova Iorque, que apresentou os bons resultados do distanciamento social nos índices do Corona. Antes de o distanciamento ser praticado, o número de infectados com o vírus no estado dobrava, em dois ou três dias. Agora, com o novo procedimento, os contaminados dobram em seis, sete dias.

Ato contínuo, Christiane abordou o enfoque de Trump, que prioriza a questão da economia, negando a gravidade da doença, e pelos seus seguidores presidentes de outros países. Bolsonaro foi apresentado diante do Planalto, falando da “gripezinha”, e o presidente do México, em discurso, pedindo à população que ignore os alertas médicos, que se abracem (faz o gesto do abraço) e comam juntos. Imagens dignas de um filme de faroeste, em que bandidos, sonegadores, falsários, contraventores se unem num mesmo bando poderoso, desafiando a lei.

Sim, no mundo atual não há mais a divisão Direita X Esquerda, na condução das políticas dos países. Há aqueles que não acreditam em normas, ciências e leis se contrapondo aos que ainda as obedecem. Bandidos X Mocinhos, no melhor estilo Sérgio Leone de western Spaghetti.

Nesse faroeste, os john waynes são os homens da ciência, lutando galhardamente para difundir a prevenção através dos procedimentos corretos, e os malfeitores, mack the knife, são os propagadores das informações enganosas, defensores da sobrevivência de seus negócios, e não da espécie humana. O time dos Giraffas, Maderos e Justus contra o time dos médicos, Drauzios, Padilhas e Dalcomos.

Nos Estados Unidos, o grande cientista dr. Anthony Fauci, famoso por sua contribuição aos avanços no tratamento da AIDS, é massacrado por infâmias e fake News nas redes sociais, desde que se tornou o rosto da ciência na luta contra o coronavírus no país. Fauci tem enfrentado dois inimigos: a doença e o vírus das desinformações, muitas vezes partindo do próprio governo, no qual é membro da força tarefa da Casa Branca contra a, pandemia do coronavírus. Respeitadíssimo, chamado pelo New York Times de “o líder da Nação em doenças infectocontagiosas”, Fauci é alvo dos piores impropérios e ofensas, pelos raivosos pró Trump.  

Não temos, no Brasil, a mesma sorte dos americanos de ver um cientista não se dobrar às ambições políticas e econômicas à frente desse combate crucial. O ministro Luiz Henrique Mandetta é um membro do DEM, um médico inicialmente parecendo zeloso, mas que, ao primeiro espirro do patrão, enfiou a ciência no bolso, abdicando de seus próprios alertas anteriores.

Infelizmente, não somos uma Democracia com poderes independentes. Estamos sob a liderança de uma família de ignorantões, ao melhor estilo monárquico absolutista, em que o rei divide as decisões de governo com os três filhos, cada um mais incapacitado do que o outro. Insaciáveis, os “príncipes” atacam nossos parceiros comerciais, poluem as redes sociais com palavrões e perversidades, ameaçam impunemente o Legislativo e o Judiciário, que se mantêm impassíveis, paralisados não sabemos se pelo estupor ou se pela cautela inspirada por coturnos e milícias.

Nesse bangue-bangue de quinta, os mocinhos têm perdido dos fora da lei em praticamente todos os duelos. Quando e como será o The End?

Coronamorte – Carta para Paulinho

Mirna Bandeira de Mello. O coral era sua cor, estava em suas paredes, cadeiras, nos vestidos e no batom. Para o hinduísmo, é cor sagrada, representativa da leveza e da sabedoria. Foto de Marcelo Borgongino na festa de aniversário de Paulo, a última de Mirna que postei aqui, em dezembro passado.

 

Vejam a situação em que estamos. Isolados, sem sequer a condição de enviar por mensageiro ou Correio uma carta de pêsames a um amigo, que acaba de perder a mulher de sua vida toda, vítima do coronavírus, coronamorte. Tenho apenas o WhatsApp de Mirna, não o dele, e o telefone não me parece um bom meio para uma manifestação de pêsames.

Faço então deste blog meu correio de sentimentos.

Querido Paulinho,

Espero que você leia este WhatsApp no celular da Mirna. Sua morte foi um choque enorme para todos. A mais autêntica, natural e legítima de sua geração na sociedade carioca. Sem afetações, suave, genuína. E bondosa. Vai nos fazer grande falta. Era o equilíbrio da balança. E sempre sofrendo para acertar o ponteiro de sua própria balança. Quando nos encontrávamos, trocávamos histórias sobre nosso excesso de peso, experiências, dietas. E ríamos. Ela sempre com bom humor, sem um pingo de ressentimento. Comovente sua dedicação a Vânia, sua mãe de estimação. E sua última preocupação foi não contagiar os netos e a cachorrinha! Esta, a Mirna.

Faz refletir que seja aquela mulher discreta, sem vaidades ou exibicionismos, a primeira referência de vítima fatal do vírus na elite brasileira. De certa forma, com todo o sofrimento que ela passou e com toda a melancolia em que nos deixou, sua morte não terá sido em vão. Mirna foi o primeiro sinal de alerta da real gravidade e do risco que representam essa doença. O balde d’água em nossos rostos, o alarme que soou forte em nossas mentes nos retirando do estado de susto e letargia em que nos encontrávamos. Um choque do real. Mirna não morreu em vão. Partiu primeiro para salvar muitas vidas.

No momento em que soube de sua morte, fiz um registro breve e triste no Twitter. E veja aqui a imediata resposta no aplicativo, em número de impressões de pessoas que se detiveram na leitura do post, curtiram, comentaram, compartilharam. Quase um milhão e meio, que talvez no fim de hoje cheguem a dois milhões. São mensagens sentidas, emocionadas, solidárias, como se todos conhecessem a grande pessoa, de espírito alegre, que Mirna soube ser. Na vida eterna, onde agora está, ela há de ficar muito triste se nos perceber entregues ao abatimento. Vamos reagir!

Vou lhe fazer uma confidência. Logo que começou essa hostilidade entre as pessoas, dividindo-se entre direita e esquerda, bolsonaristas e lulistas, Mirna me ligou: “Hilde, sou sua amiga. Meu pai também adorava você. Você sempre foi amorosa conosco, comigo, Paulinho, Vania, nossos filhos. Não quero saber se suas posições políticas combinam ou não com as minhas, só quero que você continue aceitando nossos convites, e sejamos sempre amigos”. Que mulher nobre a sua, Paulinho. Parabéns!

O meu beijo para você, os meninos, noras, netos e nossa amada Vânia. Francis lhe envia seu sentido e afetuoso abraço.

Hilde

Um vírus que prioriza os ricos?

Hildegard Angel

Diferente dos demais males para os quais o dinheiro serve de salvo conduto, ou pelo menos proporciona mais segurança e conforto, o coronavírus tem se mostrado implacável com a alta sociedade brasileira. Uma das famílias paulistanas mais celebradas, pela beleza excepcional das suas mulheres e a forte fé católica, passa por forte aflição. Inspiram cuidados, com o vírus, além do patriarca, suas filhas e seu neto. O contágio se deu em almoço com um infectado retornado do badalado casamento da digital influencer, em Itacaré, na Bahia.

No Rio de Janeiro, apenas numa festa de noivado no penúltimo fim de semana, foram 27 infectados por dois casais recém-chegados da Itália. Inclusive os noivos. Por uma ironia semântica, vários coroados da Família Imperial Brasileira presentes adquiriram o corona. Também influente, o sobrenome de duas senhoras de importante família judaica que foram infectadas em sua frisa no Sábado das Campeãs. Elas se tratam em casa.

Há até quem cogite um castigo dos céus. Por telefone, o primeiro paciente a sofrer o contágio comunitário do coronavírus especulou: “Só os ricos estão com essa doença”.

Contudo, contrariando tal teoria, morreu hoje em hospital de Miguel Pereira, com todos os sintomas do coronavírus, uma empregada doméstica. Com 63 anos, ela foi se tratar em sua cidade, após ser contagiada no Rio pela patroa, vinda da Itália, que depois foi diagnosticada com o Covid-19.

Não, o coronavírus não surgiu para dividir a Humanidade. Ele mais parece ter vindo para evidenciar nosso egoísmo. Quando tivermos estocado todos os bens dos supermercados, e nos dermos conta de que eles não nos curam, apenas causam escassez nos lares mais pobres, veremos que o que de fato faltou em nossas prateleiras foi compaixão.

Quando olho hoje à minha volta, vejo as múmias do passado, caminhando assustadoramente…

Para alguns, são fatos anacrônicos, que não valem ser lembrados. Para mim, foram ontem, hoje pela manhã, e eu os sinto e lembro com tal intensidade, que me parece impossível permitir seja apagado aquele bafo de terror que sufocou nossas vidas, quando só a impetuosidade criativa dos artistas nos possibilitava respirar, sorrir, esperançar e acreditar que a nuvem de chumbo passaria.

E ela passou… deixando em seu rastro cicatrizes, tragédias, lembranças doloridas, e nos legando exemplos de heroísmo, coragem, rebeldia.

Quando olho hoje à minha volta, vejo as múmias do passado, caminhando assustadoramente, com passos de ganso, em nossa direção, e não encontro mais em mim a possibilidade do silêncio, a coragem do medo.

Neste Dia das Mulheres, vamos lembrar outra vez a fibra de Zuzu Angel, tudo de belo que realizou, tudo de muito que lutou.

Eis aqui o vídeo produzido pela Casa Zuzu Angel, com o talento de Rubens Ramos, a colaboração de Simone Costa e a contribuição de nossa História aos que nos honram com sua atenção.

Prelúdio do abismo

Transcrevo aqui um texto de Fabiano e Silva Leitão, o Fabiano TromPTista, militante do trompete, sempre estrategicamente presente por perto das coberturas da Globo em Brasília, entoando seu “Lulalá”. Fabiano também liderou com seu instrumento, durante o tempo em que o ex-presidente esteve preso, vários “Lulaços”, em shopping centers, logradouros públicos, estações de Metrô. É um dos mais vistos e ouvidos ativistas do país, através da música. Agora, ele se manifesta também pela palavra escrita. Enviou-me 0 texto abaixo, mais do que oportuno, quando, estupefatos, vimos a mais alta autoridade da Cultura do país plagiar o nazista Goebbels para explicar o projeto cultural que estava lançando, e que, esperamos, não prospere na sua ausência já anunciada da pasta.

Prelúdio do Abismo

por Fabiano e Silva Leitão

Ontem, o país ficou assombrado com a fala NAZISTA do Secretário Especial de Cultura Roberto Alvim. Ficou impossível esconder para debaixo do tapete, a real face nazista do Governo Bolsonaro. Ninguém copia Goebbels por acaso e coloca Wagner ao fundo ( compositor predileto de Hitler ). Eles são adoradores do Nazismo. No ano passado, o próprio exército brasileiro homenageou um NAZISTA ( Major OTTO ) na nossa cara!
É importante dizer, que todas as táticas de comunicação do Bolsonaro, são inspiradas em Goebbels. Querem exemplos? Quando Bolsonaro, avisa para seus adoradores que vai chegar em tal cidade e tem uma multidão esperando por ele. O Hitler fazia a mesmíssima coisa. Isso foi ideia de Goebbels! Goebbels, construiu Hitler! O Führer ( em alemão, “O guia” ) e aqui, os seguidores de Bolsonaro o chamam de Mito. Usam indiscriminadamente DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA para construir narrativas moralistas. Bolsonaro, possui uma comunicação que fabrica fakenews em quantidades industriais, confeccionadas e distribuídas por sua milícia digital através do whatsaap. Mesma tática de Goebbels, que inclusive convenceu Hitler a distribuir gratuitamente, rádios para toda a população alemã. Goebbels, também controlava o cinema Alemão, e Bolsonaro ataca a ANCINE para moldar o cinema brasileiro ao seu modo.
Hoje, existem mais de 350 células Nazistas no Brasil. Eles estão por todos os lados, com suas milícias digitais e as milícias militares instaladas nos morros cariocas. E não podemos esquecer, de mais um detalhe que vai de encontro ao modelo Nazista. Hitler, também tinha a sua milícia. A Sturmabteilung, abreviado para SA (em alemão, “Destacamento Tempestade”). A SA, era uma tropa de pressão política. Matava, roubava, ameaçava todos os adversários políticos. Os bolsonaristas agem exatamente igual a SA de Hitler.
E por fim, o principal modelo do Nazismo, a desumanização do opositor. Assim como eles desumanizaram os Judeus na Alemanha, aqui no Brasil, o Bolsonarismo desumaniza os petistas para que em um futuro o extermínio não seja notado e nem sentido. E isso, é um processo de comunicação que convence o povo.
Eu me atrevo a dizer que Goebbels era pior que Hitler!
Goebbels, era o mais antissemita de todos os facínoras que cercavam Hitler. Inclusive, tinha um discurso poderoso que contagiava o núcleo do partido nazista para o radicalismo antissemita. Goebbels, juntamente com a sua esposa Magda, assassinou todos os seus seis filhos na noite em que ele próprio matou a sua esposa e a si mesmo. Esse é o monstro, que foi citado ontem por um lacaio de Bolsonaro. Esse é o monstro do Nazismo que precisa ser combatido.

Artistas brasileiros se unem contra o fascismo


A impunidade gerou o ataque terrorista de neofascistas com bombas de coquetel Molotov contra a sede do Porta dos Fundos. O mesmo grupo já tinha realizado um ataque contra a Unirio, roubando e queimando faixas antifascismo da fachada da universidade, e ficou por isso mesmo.

A extrema direita produz monstrengos que se reproduzem silenciosamente e estão por toda a parte. Aos finais de semana, o Movimento Integralista mostra suas caras horrendas, cheias de empáfia e em postura de desafio, na Praça da República em São Paulo. É revoltante e assustador. É o fascismo em estado puro, na sua versão brasileira integralista monarquista. Dizem defender os valores cristão, mas a estética do vídeo patético em que assumem o atentado é inspirada no Estado Islâmico.

É necessária ação contundente dos setores democráticos, pressionando por providência contra esses fanáticos criminosos. A Mídia Ninja divulgou o manifesto desses fundamentalistas assumindo o atentado, e suas imagens. Houve vários apelos para que as retirassem do ar, e não compartilhassem o vídeo, para que a divulgação não tivesse o efeito reverso de propagar a ação do grupo, empoderando o imaginário de que todos podem praticar atentados. Mas Inês já era morta, com milhares de compartilhamentos das imagens forte, que impede o fato de ser ignorado.

A primeira preocupação da tribo da Cultura foi saber em que mãos policiais cairia a investigação do ataque. Caiu em mãos brandas, que não viram no atentado qualquer conotação terrorista, apenas uma tentativa de homicídio. Por que essa conclusão? Por acaso nesse grupo há inimigos do porteiro do prédio? Poderão dizer que, por serem poucos, esses quatro ativistas são inócuos. Porém, a palermice é altamente contagiosa. Recentemente, surgiu o MBL com meia dúzia de apatetados, que logo ganhavam coluna na Folha e cadeiras na Câmara.

O ato sórdido foi estrategicamente pensado para acontecer na madrugada do Natal, num período de férias coletivas, de indultos tortos e de Congresso fechado, impedindo os deputados pró-cultura, como a intrépida Jandira Feghali, de se manifestarem em plenário. O que não impede Jandira de estar articulada com um grande grupo de artistas e produtores culturais, que desde o primeiro momento saiu em campo para organizar uma reação. A SBAT divulgou nota de repúdio. Idem, o Instituto dos Advogados Brasileiros e a OAB. Com a Academia Brasileira de Letras em recesso até março, o imortal Geraldo Carneiro se prontificou a escrever um manifesto contra a cultura do terror. Gregório Duvivier, o Jesus do vídeo que os integralistas excomungam, estuda ações junto à Comissão Arns, e propõe a participação efetiva de toda a mídia, inclusive de programas de entrevista de grande repercussão, como o de Fátima Bernardes, para denunciar essa violência. Um ato será convocado para janeiro, pelos próprios integrantes do Porta dos Fundos.

Ataques de radicais estão pelo mundo todo. Não faz muito, o semanário de humor francês Charlie Hebdo foi vítima de um massacre, por um grupo islâmico, em retaliação contra uma charge representando Maomé. A reação levou o Presidente da República a sair às ruas de braços dados com vários chefes de Estado. Aqui, se formos esperar apoio do Presidente, este será para os que atacam, ofendem, denigrem, proíbem, massacram. Contamos apenas com as forças democráticas, cada vez mais intimidadas e em menor número. O obscurantismo polui, asfixia o ambiente, intoxica e contamina cada vez mais.

Hoje, ao acordar, ouvi mais uma vez a Geni de Chico. E mais uma vez eu me comovi. Uma receita para essa escuridão que se fecha sobre nós é ouvir e ler Chico Buarque, nosso poeta maior, nosso privilégio, nossa glória viva. Com direito a um altar com a estatueta de Chico, onde seja possível lhe levar flores todos os dias.

A beleza, a poesia, o amor ao próximo são mensagens da nossa Resistência, e também do Jesus Menino, o que esses cristãos mensageiros da maldade certamente desconhecem.

Que esperais, esperança?

Hoje, Natal, e eu sou só o início de um soneto de Camões, que martela em minha cabeça, refletindo o sentimento neste momento fundamentalista brasileiro, em que coquetéis molotov são usados para bombardear a inspiração, a arte, a cultura, a liberdade….

“- Que esperais, esperança?   – Desespero.
– Quem disso a causa foi?     – Uma mudança.
– Vós, vida, como estais?       – Sem esperança.
– Que dizeis, coração?           – Que muito quero.
– Que sentis, alma, vós?         – Que amor é fero.
– E, enfim, como viveis?         – Sem confiança.
– Quem vos sustenta, logo?   – Uma lembrança.
– E só nela esperais?             – Só nela espero.
– Em que podeis parar?         – Nisso em que estou. (…)”

E o que esperamos para nosso Brasil  neste Natal? O restabelecimento de nossa Democracia, nossas instituições, nossos programas sociais, nossa esperança.