Sobre Hildegard Angel

colunadahilde@gmail.com Hildegard Angel é uma das mais respeitadas jornalistas do Rio de Janeiro. Durante mais de 30 anos foi colunista no jornal O Globo, quer cobrindo a sociedade (com seu nome e também com o pseudônimo Perla Sigaud), quer cobrindo comportamento, artes e TV, tendo assinado por mais de uma década a primeira coluna de TV daquele jornal. Nos últimos anos, manteve uma coluna diária no Jornal do Brasil, onde também criou e editou um caderno semanal à sua imagem e semelhança, o Caderno H. Com passagem pelas publicações das grandes editoras brasileiras - Bloch, Três, Abril, Carta, Rio Gráfica - e colaborações também em veículos internacionais, Hildegard talvez seja a colunista social com maior trânsito

Fui a uma festa no Céu, comemorar os 40 anos do Paraíso, o Kurotel

Neuza e Luís Carlos Silveira, com as filhas Rochelle, Mariella, Bárbara e Evelise – a Família Kurotel, o Kur,  como é carinhosamente chamado pelos
habitués, que pelo menos uma ou duas vezes por ano sobem a Serra gaúcha em busca da medicina preventiva, que garante longevidade com saúde; novas técnicas e métodos medicinais, unindo o  “human touch” ao
“high tech”, isto é, alta tecnologia, mas humanizada.

Comecei a ir ao Kurotel, quando era chamado apenas de Kur. Calculo em torno de 15 ou 20 anos atrás. Achava o nome estranho, desconhecendo ser a palavra, em alemão, para cura. Instalado na inspiradora cidade de Gramado, uma joia germânica incrustada na Serra gaúcha, o Kur me pareceu ter sido transplantado ali, trazido diretamente da Floresta Negra. Um terreno cheio de pinheiros, jardins floridos abraçando o prédio, funcionários vestidos pelo maior estilista do Sul do país, Ruy Spohr, que desenvolveu uma coleção para toda a equipe do hotel-spa-clínica, que de tempos em tempos era atualizada com pequenas mudanças, mas mantendo o espírito original.

Era como se todos os trabalhadores, pessoal da portaria, do escritório, garçons, cozinheiras, jardineiros, arrumadeiras, massagistas, esteticistas, instrutores físicos integrassem o elenco de uma megaprodução do cinema musicado, “A Família Trapp”, que aqui levou o nome de “Música divina música”. As mulheres, independendo da função exercida, eram lindas frauleins louras, de olhos azuis, altas, e de coque na nuca preso com um laço preto. Arrumadeiras com vestidos de mangas longas e bufantes de algodão, bainha abaixo dos joelhos, tecido quadriculadinho ou listrado, e sobre eles o avental branco de fustão engomado, um palmo mais curto do que o vestido, com faixas que se cruzavam, fazendo um X nas costas,  terminando com um laço na cintura, e a necessária touquinha. Meias brancas e sapatos brancos. Dava vontade de ter roupa igual. Pela minha formação de filha de estilista, sempre presto grande atenção aos figurinos.

Mas havia outros itens que se destacavam: a cortesia, a educação de todos, que sempre diziam bom dia ou boa tarde àqueles com que cruzassem pelos corredores, a voz baixa, jamais alterada, a seriedade com que exerciam suas funções, a eficiência, a preocupação com cada um dos hóspedes, individualmente, não como membro de um grupo. Sabiam nossos nomes, e respeitosamente me chamavam de “dona Hilde”. Nos quartos, os roupões brancos, com escudo dourado do Kur, sempre limpos, dobrados e amarrados com uma fita de gorgorão, o chinelinho atoalhado do Kur. As sacolas de lona com nossos nomes, eram acessório obrigatório o dia inteiro, no cumprimento da agenda de tratamentos clínicos, físicos, anti-estresse, exercícios, dança, meditação, yoga, aparelhos de musculação, hidroginástica, exames clínicos moderníssimos, as massagens estéticas, consultas com psicólogo, cardiologista, nutricionista, a enfermagem, para pesar, medir, tirar pressão, as refeições no restaurante, os lanches. E a sacolinha junto, levando a agenda impressa, roupas para trocar, entre uma e outra atividades, dispensando as idas e vindas ao quarto. Eu já havia frequentado spas, mas nada que de longe se parecesse com tal profissionalismo médico e técnico, junto com a excelência de uma hotelaria cinco estrelas.

Somos brasileiros. Estamos acostumados a ver estabelecimentos incialmente ótimos irem declinando, piorando, precarizando seus serviços e produtos, até fechar. Sempre o mesmo ciclo. Com o Kur, no entanto, constato o oposto. A empresa vai se aprimorando e adequando a cada tempo. Hoje, as funcionárias não são frauleins. São brasileiras de várias partes, e os cabelos, assim como os olhos, variam de cor e de penteado. O coque na nuca ficou no passado. E os hóspedes são tratados de modo mais moderno e casual. Deixei de ser “dona”, passei a ser “Hilde” para todos. Permanecem, contudo – e ainda bem – os inspirados figurinos de Ruy Spohr, que enquanto vivo realizou as adaptações necessárias aos originais, e continuam a ser atualizados pela família Kur, os Silveira.

O que mais muda são os cardápios e as dietas, já que na ciência nutricional são frequentes as novas descobertas e mudanças de orientação. Também afinado com as inovações da ciência, o Kurotel tem agora um setor de genética, nesses tempos em que se pode antecipar diagnósticos a partir da leitura do DNA.

O Kur foi fundado há 40 anos pelo casal Luiz Carlos e Neuza Silveira, no mesmo local. Ele, quando chegou a Gramado em 1971, era o único médico da região. Atendia no consultório, em domicílio, no hospital, todos os tipos de casos, e até parto realizava. Não cobrava no fim dos atendimentos, deixava a missão para uma secretária, que anotava num caderno preto cada procedimento, e depois realizava as cobranças. Não era incomum pacientes se esquecerem de pagar, mas essa era a prática do médico, que priorizava a relação de confiança com os pacientes. Como efeito, defrontou-se com todo o tipo de excentricidade. Como o parto de uma cigana, que, quando o marido ouviu da secretária do doutor que tinha um débito a saldar, propôs uma troca do parto por bacias de cobre, que fabricava. As bacias do cigano eram de lata esmaltada para parecer cobre, como é prática, aliás. Dr. Luiz Carlos preferiu deixar o débito para ser pago um dia qualquer, “na bacia das almas”. E lá está o calote pendurado, entre vários outros, na sua biografia de homem que não sabia cobrar dos desfavorecidos.

Os menos favorecidos, obviamente, não frequentam o Kurotel, luxo possível para quem tem recursos e para quem tem consciência de que nosso maior bem a preservar somos nós mesmos, nosso corpo, nossa mente, nosso espírito. Um spa-clínica completo era um sonho acalentado por Luiz Carlos, desde sempre. Neuza, com formação em assistência social e grande administradora, aliou-se ao marido no projeto, e juntos abriram as portas do Kur, todo lindo e equipado, num dia 26 de março de 1982. Abriram e esperaram os clientes. Não veio nenhum. Na primeira semana, na segunda…

Mas pouco a pouco vieram os primeiros clientes, e os próximos, e os demais, tornando-se o Kur um sucesso, referência de Gramado, e ouso dizer um agente impulsionador da cidade. Logo, a hotelaria local passava a se espelhar nos cuidados e requintes do Kur, e também no seu pessoal treinadíssimo. Volta e meia, “roubavam” um funcionário, o que não abalava o empreendimento, que foi projetado já com a previsão de que isso aconteceria. Novos funcionários, massagistas, esteticistas, fisioterapeutas etc. eram formados, e o mercado de trabalho da região se enriquecia com a mão-de-obra altamente especializada e sofisticada. Foi a empresa certa na cidade certa.

Logo, a imprensa se interessaria em conhecer e mostrar o Kur. Foram e são quilômetros e quilômetros de reportagens, fotos, vídeos, entrevistas, capas de revistas, notinhas e colunas sociais, matérias em revistas de saúde, beleza e bem-estar. O Kur tornou-se uma estrela tão fulgurante quanto algumas de suas primeiras clientes e adeptas. A saber: Tônia Carrero (a primeira a me falar a respeito, e insistir que eu fosse ao Kur), Glória Menezes (logo depois), Fafá de Belém e outras centenas mais. Fernanda Montenegro me disse que foi duas vezes ao Kur, sempre apresentando temporadas teatrais em Porto Alegre para esticar até Gramado. E querendo voltar.

Minha primeira vez no Kur não esqueço. Foi com as amigas Consuelo Pereira de Almeida e Déa Bornhausen, então primeira-dama de Santa Catarina. Como nos divertimos! Entre papos, massagens, aulas de hidro em piscina coberta ou tomando sol na piscina descoberta. Essa mágica da interação entre as pessoas ocorre com todos, mesmo os mais reservados. O fato de se passar o dia todo, de lá pra cá, de roupão, cabelos molhados, sem afetações, vai tornando as pessoas mais francas e comunicativas, como se retirassem sua capa protetora. E logo estão confraternizando nas mesas redondas de café da manhã, almoço, jantar, abrindo o coração, fazendo relatos de vida. Recém-conhecidos se tornam amigos para a vida inteira. Fiz alguns, acreditem.

Luiz Carlos e Neuza tiveram quatro filhas, hoje já adultas. Elas cresceram frequentando o Kur, conhecendo todos os setores dessa máquina de perfeita operação. Não digo máquina bem azeitada, pois nas refeições do Kurotel azeite não pode. Todas as irmãs participam da empresa. Bárbara é do Conselho. Mariella cursou medicina e assumiu a direção médica. Evelise, também médica, é geriatra, e divide com Rochelle, formada em Administração, e Diretora Administrativa, a gestão do Kurotel. Luiz Carlos e Neuza presidem o Conselho e se mantêm numa supervisão de todos os setores.

As quatro filhas se casaram. Fui ao casamento de duas. Dos mais bonitos e criativos a que já compareci. Os netos já são 10. E para comemorar os 40 anos da vida empresarial, afetiva e familiar bem sucedida, depois do jantar festivo no Kur com amigos e clientes, os Silveira foram todos, com filhas, genros e netos, para uma temporada no chamado “único resort cinco diamantes do mundo”. O Xcaret, no México. Eu já os imagino  observando o funcionamento do hotel e parque lúdico mexicano, com direito a zoo. Devem estar vendo, comparando, criticando e colecionando ideias, se houver. O profissional que ama o que faz sempre colhe referências onde vai.

A minha vida, nos últimos quase 20 anos, esteve ligada ao Kur. Não só pela admiração que desenvolvi por essa família única, como também pelo produto que oferecem. A cada vez eu me renovo, aprendo e meu organismo inteiro agradece. Quando Neuza me telefonou para convidar para a comemoração dos 40 anos, dei uma olhada no espelho e constatei como o isolamento da pandemia havia maltratado meu corpo, meu rosto, minha mente, minha saúde. Eu precisava de uma revisão geral urgente. Entrar naquelas máquinas de imagem que nos passam a limpo. Foram 17 dias concentrada exclusivamente em mim, desligada de tudo. Bem, de quase tudo. Faço com gosto e por emergência cívica.

Neuza e Luís Carlos Silveira, na festa dos 40 anos do Kur, inauguraram um Memorial que conta toda a sua História magnífica

Um livro de receitas com os 40 pratos de mais sucesso do spa, q inauguração do Memorial Kur, contando sua história em forma de arte, exposição e tecnologia foram parte das comemorações, assim como nova exposição da
Galeria de Arte Mamute, que fica dentro do Kurotel, focada no ser humano; novo
vídeo institucional e o lançamento de um roupão com releitura do logo assinado pelo
estilista Amir Slama

No avião de volta, depois de duas horas descendo de carro a serra de Gramado a Porto Alegre, vim lembrando o jantar dos 40 anos, seus pratos com requintes e aparência da melhor culinária francesa, mas sem engordar 1 grama. E a delicadeza de a louça do prato principal vir com o nome, inscrito na borda, de cada um dos 50 ou 60 comensais daquela noite feliz e mágica, que celebrava não só o 40º aniversário de uma empresa vitoriosa, mas a certeza de que o Brasil consegue  produzir qualidade, obtendo todas as premiações internacionais possíveis, quase sempre no topo das classificações; que o Brasil sabe formar mão de obra refinada para o mais exigente consumidor; que o Brasil, com todas as dificuldades criadas por entraves e burocracias, é capaz de dar continuidade a um projeto de tal forma importante, a pesquisas sobre longevidade e prevenção que poucos grandes centros internacionais médicos e de pesquisa científica desenvolvem.

Parabéns, família Kur, os Silveira e todos os demais, parabéns àqueles hóspedes que há décadas encontraram e percorrem repetidamente o caminho rumo a esse paraíso.

Vou repetir aqui a abertura da primeira matéria que escrevi sobre o Kur: “Quando chegar ao Céu e São Pedro vier me perguntar se quero conhecer o Paraíso, direi: o Paraíso eu já conheço, pois estive no Kur”.

Noite da festa dos 40 anos, que consistiu na inauguração do Memorial, em show musical, coquetel regado a champagne Kur, zero álcool e zero açúcar, discursos afetivos, amigos e mais amigos, e um jantar com as receitas de excelência do Kur. Aqui estamos, eu e Francis Bogossian, meu marido, Luís Carlos e Neuza Silveira, também celebrando nossas décadas de amizade e fidelidade (nossa) a esse projeto.

E temperando com pimenta e sal o debate de com açúcar, com afeto

Hildegard Angel

Sem açúcar e sem afeto, a polêmica rolou com fôlego nas últimas semanas. Os humores exaltados se deviam à ideia logo formada de que Chico Buarque de Holanda deixara de cantar uma de suas mais belas canções para atender a imposições das feministas, que consideram inadequada a letra de “Com Açúcar, com afeto”

E Chico calado, olhando de longe o debate acalorado. Surpreso com a multidão de ‘advogados do Chico’, safra e tanto, que brotavam no solo fértil da Internet, tomando partido a favor ou contra, não mais da letra da canção, mas das pautas identitárias, apontadas como o xis do problema.

Polêmica absurda, assim pensou o Chico, supondo que toda aquela energia seria melhor aproveitada se assistissem ao especial ótimo sobre Nara Leão na Globoplay, em vez de alimentar um debate que foge do contexto. E não é só porque Chico já não cantava essa música há anos, é que também há 30 anos ninguém pedia que cantasse, conforme ele próprio explica, e por quê? Porque não vê sentido para esses tempos, porque decidiu não cantar, porque é assim com todos os artistas diante de um repertório. Nem está sendo censurado menos ainda se autocensurando… e o debate pegou fogo a partir de premissas muito inventivas. Está difícil até defender a posição que ele mesmo sustenta no especial da Nara. Enfim, seguimos.

À revelia, porém, do contexto e do próprio Chico, a fagulha do debate visto por ele como absurdo se expandiu em fogaréu, dada à alta temperatura do elenco de bobagens que vêm sendo perpetradas, ditas, escritas, pensadas, em nome das causas identitárias, e que agora ganhou mais um ator, o próprio debate, a que se agarraram os devotos do Santo Pretexto para botar o dedo na cicatriz mal costurada dos ativismos desengonçados.

Talvez – quem sabe – apenas uma pausa no debate nacional de uma nota só, a nota B, que exaure a todos nós. Letra B daquilo que lhes vem primeiro à cabeça, e esqueçam josta, que pra mim é com J, já que meu lado “Com açúcar, com afeto” não gosta de dizer vulgaridades. Pra vocês verem que, até sem pretender a evidência e o posto, Chico faz um bem enorme ao Brasil, em todos os campos, e inspira, mesmo por vias transversas, equivocadas, discussões que desafogam nossos corações, desatam os nós das gargantas, nos fazem sentir inteligentes e guerreiros em outras militâncias, que não sejam apenas puxar a descarga para nos livrarmos do B.

Esgotados os 15 minutos da Teoria de Warhol, o tema murcha em interesse, e despretensiosamente dá samba, que aqui apresento em primeiríssima, música de Gilson Espíndola e letra do jornalista Gilvandro Filho, que concorda com  Chico em tudo, sem por nem tirar.

BRASIL: A IMINÊNCIA DO APOCALIPSE OU A REDENÇÃO DEMOCRÁTICA?

Hildegard Angel

Era o segundo governo de Lula. Num almoço de mulheres no Fasano, a dona de uma rede nacional de shopping centers dizia que eles nunca haviam vendido tanto quanto naqueles anos. O governo era criticado pelos seus opositores por favorecer os bancos, e os banqueiros pareciam amar Lula, com quem confraternizavam onde estivessem. A indústria brasileira tinha seu representante na vice-presidência, José Alencar Gomes da Silva, e as federações patronais também pareciam contentes.

Lula não perseguia a mídia, seu governo anunciava, privilegiando os grandes grupos de imprensa, não havia retaliações aos divergentes, como hoje vemos acontecer. Nos governos de Dilma, sequer foi encaminhado ao Congresso o projeto de regulação da mídia, formatado por Franklin Martins ao fim do segundo mandato de Lula, condizente com o que é feito nos países do mundo todo.

Lula é um conciliador por natureza. É altamente considerado pelos chefes de estado do resto do mundo, é admirado, visto como um igual. Semana passada, em Bruxelas, ele mereceu aplausos de pé, longos e sucessivos, em encontro do Parlamente Europeu com lideranças latino americanas. Mereceu recepção de chefe de estado no Elysée, com a marcha da guarda do palácio, e o presidente Macron descendo os degraus para ir busca-lo (e uma hora depois levá-lo) no carro. É bem visto pela mídia internacional, inclusive pelas publicações de economia. Por que esse ódio da mídia corporativa brasileira contra ele? Esse apagamento? Esse silêncio a seu respeito? Por que estavam sendo destinados a ele apenas breves momentos, em canais por assinatura, às altas horas da noite, e quando isso acontecia? E isso só foi revertido no sétimo dia da agenda da viagem de Lula, depois da grande grita nas redes sociais, da indignação, e da chacota feita, comparando a vasta cobertura da visita pelos jornais estrangeiros e a cobertura Zero pela mídia brasileira.

Atribuem a Lula um radicalismo que ele, na prática, nunca demonstrou. Lula não é um radical.  Não é comunista. É um liberal, falando francamente. Alguns o identificam como Liberal Periférico. Sua política externa é afinada com as dos demais países. Respeitado por todos. Até George W. Bush gostava dele! Em poucos dias na Europa, foi recebido pelo vencedor das eleições na Alemanha, Olaf Scholz, esteve com o líder da Social Democracia, Martin Schulz, foi aclamado no Parlamento Europeu, elogiado por Zapatero como “o que mais combateu a pobreza”, trocou ideias com o Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, foi recepcionado com batucada brasileira pelos alunos do Instituto SciencesPo, em Paris, onde almoçou com a Prefeita. Depois da França, participa hoje de seminário de Cooperação multilateral e recuperação pós-covid, em Madri, e tem agenda com o primeiro-ministro.

Lula não sai procurando briga, não dá banana e joga a casca no chão, não desanca país dos outros, negocia com todos. Internamente, é bom para o nosso povo, se compadece dos pobres. Não politiza temas sérios, como Saúde, Cultura, Educação. Desenvolveu políticas socais mínimas, sem “exagero”, podia ser muito mais – o Bolsa-Família, como diriam os americanos, eram “peanuts” em nosso orçamento. E mesmo assim suas políticas públicas trouxeram notáveis benefícios sociais e econômicos, foram copiadas em vários países, se tornaram referência.

O saldo de seu Minha Casa Minha Vida foram casas para milhões de brasileiros, e novas grandes fortunas para poucos, como Rubens Menin, dono da MRV Engenharia, proprietário da CNN Brasil, o também mineiro Ricardo Gontijo, dono da Direcional Engenharia, os donos da Construtora Tenda, mineira também, os da Rossi Residencial, alguns desses empresários declarados admiradores de Bolsonaro.

As ditas pautas identitárias, responsabilizadas por parte da rejeição ao PT, foram muito mais de Dilma do que de Lula. Assim como foi o relatório da Comissão da Verdade, que tanto enraiveceu os militares de pijama do Clube Militar.

Lula jamais perseguiu os diferentes, nem exigiu fidelidade ideológica aos que prestam serviços ou vendem serviços ao governo. Muito menos àqueles que recorrem aos financiamentos e incentivos de bancos públicos.

É simplismo achar que essa aversão se deve ao preconceito da burguesia por Lula ter sido um sindicalista, operário, nordestino, de origem muito pobre?

A lenda de que o PT inventou a corrupção no Brasil foi tão repetida que se tornou verdade. Sabemos que os casos de corrupção no Brasil remontam a Pero Vaz de Caminha, quando os portugueses davam espelhinho e recebiam pepitas de ouro. E sabemos que, no ranking da corrupção dos partidos políticos brasileiros, o PT é um dos melhores colocados, isto é, está em penúltimo lugar. Sem esquecer que foi o PT que criou o Portal da Transparência e os mecanismos que permitiram investigações e punições de casos de corrupção. Por que isso é ignorado? Por que as impropriedades, vamos chamar assim, da Lava Jato, de Sergio Moro, do TRF-4 são ignoradas? As delações e provas falsas? Os processos contra Lula, comprovadamente mais ocos do que cheque voador? E ainda a ironia de as notas fiscais das reformas do dito “tríplex do Lula” e do sítio, ambos em São Paulo, serem do comércio de Curitiba…

Sergio Moro se lança como terceira via, fazendo soar as fanfarras de sua fada madrinha, a Globo, com o muito provável respaldo do alto oficialato das Forças Armadas, simpáticas ao ex-juiz sob suspeição e agastadas com Bolsonaro – o embrulho veio muito pior do que a encomenda.

Generais não deverão poupar apoio ao maringaense, até porque nesses casos há acordos de parte a parte. Dos militares, apoio do tipo que Villas Boas deu ao Mito. De Moro, provavelmente, a promessa de não lhes retirar regalias, cargos e rendimentos adquiridos nos últimos anos.

Moro surge na disputa para roubar parte do eleitorado de Bolsonaro, não a fatia dos fanáticos, mas a da burguesia cheirosa, que apertou 17 pela ojeriza ao PT. Todavia, com todo o foguetório global, o “juiz ladrão” (royalties para o deputado Glauber Braga) dificilmente chegará aos dois dígitos no percentual das urnas. E como os generais não são de terceirizar o poder (quando há “clima” para o golpe), quem subiria a rampa seria um deles.

E por que essa eleição de 2022 se reveste de cores dramáticas, como se fosse iminência de um apocalipse ou única possibilidade de redenção democrática para o Brasil?

Porque ainda há, porque nos assombra, a possibilidade de uma reeleição de Bolsonaro. Mesmo que sua popularidade decline, mesmo que ele carregue mais de 600 mil mortes nas costas, mesmo que ele nos submeta a vexames locais, internacionais, interestelares, até. Tudo é tão sem sentido no Brasil de hoje, tão ficcional, que até o impossível é possível. Vide a eleição do completo desconhecido Witzel, no Rio de Janeiro. Que forças subterrâneas se moveram para isso?

A atual polarização direita x esquerda esvaziou o raciocínio político dos brasileiros, tornando simplórias as suas mentes. A razão deu lugar à paixão. Essa radicalização não existia, surgiu a partir de Bolsonaro, fazendo, da escolha política, uma torcida de futebol. Torcem por Bolsonaro, como quem torce pelo Vasco. Ninguém deixa de ser Flamengo porque ele perde um campeonato. Ou dois, ou três, ou 10. A escolha do time “do coração” é um estado de espírito, é aleatória ou é por influência de terceiros. E depois que se decide por ele, esqueçam, porque o torcedor não muda de jeito nenhum.

Daí que os 20 e poucos por cento de fanáticos bolsonaristas não vão mudar de preferência, porque o que está posto não é a ideologia nem a coerência, é a camisa do time. E eles escolheram a da Seleção Brasileira de Futebol!

Não é o projeto de Bolsonaro para o Brasil que conta, porque nem projeto ele tem, jamais apresentou um, sequer isso lhe cobraram. Bolsonaro não precisa cumprir, porque nada prometeu. Nada de bom. Prometeu armar todo mundo, acabar com o horário de verão e retirar os “pardais” do trânsito. Isso ele fez. Declarou que os filhos vinham em primeiro lugar, e que o filet mignon seria pra eles. Isso também tem cumprido ao pé da letra.

Nós nos tornamos um país de ignorantões, liderado por um ignorantão mor. Para quê escolas, se a burrice se tornou padrão? Para quê Enem, se até ele, que é burro, entende mais do que a comissão de mestres? Pra quê verdade, se as fake news são muito mais saborosas? Pra quê livros de História, se livros têm letras demais?

Sabemos das pretensões de Bolsonaro apenas pelas declarações feitas à imprensa nos tempos de deputado. “Se eu fosse presidente da República daria golpe no mesmo dia”. “O Congresso não vale pra nada”. “Sonego tudo que for possível. Se puder não pagar nota fiscal eu não pago, porque o dinheiro vai para o ralo, vai para a sacanagem”. “O voto não vai mudar nada no Brasil. Só vai mudar quando partirmos para uma guerra civil, fazendo o que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil. Vão morrer alguns inocentes. Tudo bem. Em toda guerra, morrem inocentes.”

Podiam ser piores as intenções? Depois da incitação ao uso de armas e da sua liberação, inclusive as de grande porte, em grande quantidade, a última novidade é a aprovação pela Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados de um Projeto de Lei que permite o porte de arma para os praças das Forças Armadas – suboficial, subtenente, sargento, cabo, soldado e marinheiro – representantes de forte extrato de fanatizados pelo Mito. Somem-se a eles os milicianos, os posseiros, os invasores de terras, os garimpeiros ilegais, e agora sabemos que até narcotraficante foragido, o “Grota”, ligado ao PCC, é favorecido pelo Governo Bolsonaro com 18 autorizações para garimpar. Quantos “Grotas” têm merecido favores desse governo? Dezenas? Centenas? Milhares? Quantos chefes de bando? Quantos “Comandos”, facções do crime? Já virou até meme nas redes sociais a quantidade de bandidos, contrabandistas, delinquentes, fraudadores, marginais, ladrões, pilantras flagrados, que, quando conferimos seus perfis nas redes sociais, são bolsonaristas declarados.

Dar um golpe, provocar uma “guerra civil” é declarada obsessão de Bolsonaro, para quem “só Deus” o tira da cadeira. Não é o voto, não são as urnas, não é a preferência da maioria. Só uma força superior. E se não houver nova fakeada? E se ele for obrigado a participar de um debate? E se, mesmo com toda a manipulação dos algoritmos, através das fake News, dos votos de cabresto dos milicianos, das ordens expressas dos padres e pastores aos fiéis ele não consiga ser eleito? E se Lula vencer, como tudo indica? Bolsonaro irá recorrer à “força superior” das armas desse exército de transviados e obcecados, que é de fato dele?

Talvez a saída seja colocar uma imaginária faixa amarela de “interditado”, dividindo a porção do Brasil doente, intoxicado pelo bolsonarismo, da porção do Brasil são, e tocar a vida e a campanha no país real, com propostas verdadeiras e factíveis, com projetos de amanhã. Acreditar que a ordem Democrática pode ser recuperada, as instituições resgatadas, e que o Brasil ainda pode ser reconstruído,  sejam seus atuais controladores os milicianos ou o mercado financeiro, o narconegócio ou o agronegócio, a bancada evangélica ou a bancada da bala, os latifundiários grileiros ou as federações patronais com suas pautas anti-trabalhador, a mídia corporativa ou a indústria de fake News, o punitivismo lavajatista de falsos catões ou a esbórnia das malas de dinheiro, os entreguistas de nossa soberania ou os militares impatriotas, o PCC ou o Comando Vermelho.

Vamos colocar nossa energia no candidato de nossas esperanças, conscientes que, mais do que nunca, só sairemos desse impasse em que nos encontramos elegendo um Congresso comprometido com um projeto político que favoreça a Nação brasileira, não apenas as conveniências pessoais, paroquiais, e muito menos os compromissos religiosos obscurantistas de cada um.

O povo brasileiro é aberto e fraterno – a gente até deixou de acreditar nisso. O brasileiro abraça as novidades com ternura e fôlego. Assume agilmente as transformações sociais, tecnológicas, de costumes. O vento renovador que bate leve lá fora, aqui é ventania. Assim, fomos dos primeiros a oficializar as uniões homoafetivas, nosso ensino é aberto e criativo, assim como é a atividade cultural. A contribuição científica brasileira é reconhecida internacionalmente. Nos grupos sociais mais progressistas, caminhamos muito contra o racismo, o machismo, os preconceitos em geral. Nossa capacidade de trabalho é indiscutível.

Todos os dias, aprendemos no manual da sobrevivência. Não vamos mais delegar a uma burguesia preconceituosa, burra, inculta, iletrada até, o leme de nosso futuro. E vamos querer de volta tudo que foi construído pelo povo e vendido na bacia das almas.

Borbulhando com a musa da sofrência, Marília Mendonça agora 15 quilos mais magra…

Escrevi esse texto em 26 junho de 2018, na coluna diária de página inteira que mantinha no Jornal do Brasil, impresso e digital. E mais que de repente, com um voo trágico alçando à morte Marília Mendonça, e a partir de um obituário desastrado na Folha de São Paulo, o assunto é trazido à pauta, porém sem sentimento, sem empatia, sem conhecimento de causa.

Por isso, neste domingo emocionado, retomo um debate proposto há mais de três anos, no formato da coluna diária.

NA OITAVA NOITE de shows e festa no palco da cidade de Petrolina, Marilia Mendonca fez vibrar aquele mundo de fãs com sua nova forma física, 15 quilos a menos… MARÍLIA E AS “sofrência girls” representam muito mais do que um estilo musical. Elas surgiram como um fenômeno do empoderamento feminino no showbiz, bem como na estética… ELAS PERSONIFICAM a boa notícia de que vivemos uma época não só de revisão de antigos padrões de comportamento, mas também de padrões de beleza… EM UM PASSADO não tão distante, ter um “corpo perfeito” já significou ser gordinha, o que para a sociedade era sinônimo de saúde e fartura econômica… POR OUTRO lado, na década de 1990, com o advento do “heroin chic” e das “super models” magérrimas, nos tornamos escravas da balança, tentando assumir um padrão extremamente ingrato ao biotipo avantajado da brasileira… LOGO DEPOIS, nos anos 2000, veio o boom dos silicones, com os super seios turbinados, influência nítida da cultura norte-americana com seu fetiche por peitões… EM NOSSA sociedade sempre patriarcal, essa busca pelo corpo perfeito é extremamente cruel e nos torna, muitas vezes, infelizes e frustradas… DE FATO, ISSO se tornou cansativo e sem graça (eu cansei, e você?)… O RENASCIMENTO feminista e a atual onda de representatividade são só alguns exemplos nítidos impulsionados pelas novas gerações Y e Z…  EMPODERADAS, INFORMADAS e ultraconectadas, elas vêm chacoalhando o status quo, desafiando paradigmas. Com isso movimentos, como o Body Positive, ganham cada vez mais força…. LIVRE DE JULGAMENTOS sobre padrões estéticos, o que tais movimentos pregam é a auto-aceitação do corpo e o amor próprio, promovendo a pluralidade da beleza… LÁ FORA, Beyoncé e Kim Kardashian, com suas formas curvilíneas e os quadris largos, contribuíram para que a mulherada brasileira resgatasse o orgulho de seu corpo natural… POR AQUI, as maiores representantes desse novo momento empoderado são elas, as nossas musas do feminejo, as gloriosas da sofrência. Marília Mendonça, Maiara e Maraisa, Simone, da dupla com Simaria, e Naiara Azevedo dão aula de autoestima e aceitação… TODAS LINDAS, com suas curvas naturalmente sensuais e confiantes de si mesmas: de minissaia, shortinho, legging, vestidinho, corselet e com decotes acentuados, vêm influenciando a nossa mulherada de maneira positiva… POR ISSO, minha querida Marília Mendonça, se você tiver vontade, pode parar seu emagrecimento nos 15 quilinhos e ser feliz, porque você já impôs sua beleza. Não foi a beleza convencional que se impôs a você… ESTAMOS, FINALMENTE, assumindo e tendo orgulho de ser quem somos. Vale lembrar, também, como diz Rita Lee, que “nem toda brasileira é bunda”… ELA ESTÁ certa. Nesse caldeirão chamado Brasil, há espaço pra todas: pras magrinhas, pras gordinhas, pras bundudas, pras peitudas… NÃO SE PODE negar: nós brasileiras sempre fomos avantajadas, e agraciadas, em quadris e curvas sinuosas, que sempre inspiraram nossos artistas, de Di Cavalcanti a Oscar Niemeyer, passando pelo caricaturista Lan… TODA ESSA exuberância natural, fruto da nossa rica miscigenação, nos torna inigualáveis ao resto do mundo, o que agora as norte-americanas querem copiar, injetando bumbuns fake, como fez a Kardashian… POR MUITOS ANOS, influenciadas por padrões de beleza norte americanos e europeus, renegamos nossa beleza única, tentando nos enquadrar em formas utópicas… QUE OS DEUSES não me ouçam, mas a culpa é dos gregos, que, com essa obsessão por definir o que é belo e não belo, com seus corpos milimetricamente proporcionais, nos influenciam até hoje… NA GRÉCIA  Antiga já existiam concursos de beleza. Um deles, o da Aphrodite Kallipygos, também conhecida como Afrodite de belas nádega, Vênus Calipígia para os íntimos… A FIGURA DA deusa Afrodite estava fortemente associada à beleza, ao amor e à sexualidade. Dizem que Zeus proporcionou a ela os quadris perfeitos em troca de alguns prazeres (para os gregos, o bumbum era uma das mais belas partes da anatomia humana e, para nossa sorte, para os brasileiros também é)… NA PRÉ-História, a figura feminina chegou a ser representada por esculturas rechonchudas, com quadris, peitos, abdômen e coxas exuberantes… ESSAS ESTATUETAS, também chamadas de Vênus pelos arqueólogos, eram ícones da fertilidade e da abundância, possivelmente representações de uma Deusa Mãe Terra. A mais famosa delas é a Vênus de Willendorf, bem gorduchinha. Ai, ai, bons tempos aqueles… que rápido retornem…

As fotos são de Fred Pontes.

 

Brasil do desespero e dos desesperados

Hildegard Angel

O desespero nos massacra.
A incerteza de um Brasil caminhando sobre o fio da navalha amolada com o ódio.
A incerteza quanto ao futuro de nossa gente, nossa atmosfera, nossa água, nossas florestas, com as chaves de nosso presente e de nosso futuro entregues aos cuidados de um louco celerado, tudo isso nos descompensa.
Nos desintegra intimamente.
Dormimos e acordamos na insegurança de saber quantos mortos serão naquele dia, de doença, de fome, de arma de fogo, de desânimo, de relento e frio.
Um país movediço.
Este é o Brasil sombrio de Bolsonaro, fruto dessa aliança sórdida, que reúne políticos corruptos, fanáticos ignorantes, mídia perversa, gente ruim de todos os tipos e militares gananciosos.

Tivéssemos um botão vermelho para acionar a bomba atômica, ele, nosso feitor, Bolsonaro, inconsequente e tirânico, já o teria acionado.

Nesse desespero, as mentes delicadas, sensíveis, não suportam a pressão.
Ontem, se foram duas pessoas maravilhosas e frágeis. E não sabemos a real razão e exata.

Hoje, desconfia-se que a partida do artista indígena Jaider Esbell tenha sido por suicídio. Artista contemporâneo do povo Mucuxi, 41 anos, estrela incandescente da Bienal de São Paulo, no momento mais importante, fulgurante, de sua vida, honrado, elogiado, glorificado, nada disso foi suficiente para manter integra a frágil corda de violino Stradivarius que o ligava à vida.

Ela se rompeu tragicamente, causando nosso estupor.

Este não é um momento corriqueiro. Sobrevivemos na anormalidade, e os dotados de consciência abraçam de modo enérgico, e sem pensar em consequências, a causa de salvar o Brasil. Salvar o mundo. Salvar a Humanidade dependente de nossa natureza.
A causa de colocar esse governo em seu devido lugar: no chão.

Escreva eu uma odisseia, não falarei tanto e com a eficiência da obra de Esbell. Vejam aqui esse grito indígena parado no ar em seus trabalhos comoventes. Eu paro e lembro do grito do Tarzan da minha infância, do Jim das Selvas, de Raoni, o cacique do gravador, dos Irmãos Villas Boas, de Darcy Ribeiro, do pajé Sapaim, fazendo pajelança para salvar o ecologista Augusto Ruschi, o ecologista, naturalista, das orquídeas e dos beija-flores. Roguem por nós!

POR QUE GOSTAM TANTO DE PRIVATIZAR

Hildegard Angel

Gostam de privatizar para ficar com o que nos custou tanto construir.
Gostam de privatizar para lucrar sozinhos, enquanto o povo que se lasque.
Gostam de privatizar porque sao insensíveis, gananciosos, gelados, indecentes.
Gostam de privatizar porque se julgam os donos do Brasil. E são! Porque depuseram Dilma, quando quiseram. Prenderam Lula sem provas, quando bem desejaram. Entregaram o pre-sal, as refinarias, a distribuidora, e até o nome dos postos de gasolina eles mudaram.
Mandam porque, quando decidiram e quiseram, emplacaram um idiota na Presidência do Brasil, com faixa, rampa e Palácio.
Mandam porque a mídia corporativa come nas suas mãos, e é pra eles que, de verdade, os militares batem continência.
É pra eles que o Judiciário estende no chão suas togas e as páginas da Constituição, para pisarem em cima, sapatearem, requebrarem, sambarem.
São eles que determinam que o povo passe fome, que o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida sejam extintos.
Eles decidem se as indústrias fecham e se o desemprego aumenta. Eles resolvem que os banqueiros sejam entupidos de dinheiro até lhes sair pelas narinas, e que os miseráveis morram de frio sob a chuva, e sem marquise.
Somos só meros trabalhadores, servos, escravos.
Somos figuração nessa comédia em que tucanos de bico largo abocanham tudo, promovem uma grande rachadinha nacional com os corruptos do Centrão (não era assim que os chamava o general Heleno?), e plantam um grande laranjal distribuído entre eles mesmos. Botaram a Petrobras no bolso com todos os penduricalhos.
Enfim, posso me estender aqui até o limite máximo de palavras e de revolta, e não terei dito tudo, e continuarei a ser nada, como os demais brasileiros.
Sem voz, sem esperança, sem ânimo e agora, também, sem futuro.
O país do futuro se tornou um presente monstruoso, graças a seu passado vergonhoso.

Judiciário brasileiro aposenta o Código Penal e implanta o Código da Conivência

Hildegard Angel

O relator, ministro Luís Felipe Salomão, do TSE, poderia hoje ter salvo o Brasil e feito História. Não fez. A sentença do TSE se resumiu a uma simples ameaça: se fizer de novo, será preso. Cometer crime de primeira, então, tá de boas, TSE? Disse o ministro Xandão: “A Justiça pode ser cega, mas não é tola!”,

Tolos devemos ser nós. As palavras engasgadas na garganta são Decepcionante e Revoltante.

Bolsonaro deveria ter sido preso ANTES do estrago monumental perpetrado no Brasil, que ele antecipou que faria, mas os doutos juízes do TSE decidiram HOJE que, se ele fizer DE NOVO, será preso.

Por sua negligência e insensibilidade, mais de seiscentos mil brasileiros morreram; por sua ignorância e presunção, a Amazônia foi queimada; por sua falta de compaixão, as armas foram liberadas, estimuladas, e seu controle cancelado. Por sua sabujice e falta de patriotismo, o Brasil foi destruído, com a entrega dos gasodutos, do pré-sal, das refinarias.

O Brasil virou a piada do mundo. Enquanto a direita não encontrar a terceira via, o país permanecerá na mesma. Esse 7×0 do TSE é prova de que nosso judiciário perdeu a mão, o pé, os músculos, o equilíbrio, a energia. A direita brasileira se garante entre eles: Judiciário, Mercado, Forças Armadas, Jornalismo, tudo farinha do mesmo saco, com objetivos comuns.

Não podemos ter ilusões. É essa a verdade que temos que elaborar internamente e aceitar.

Esse se tornou o padrão, desde que Moro perdoou Onix. A nossa Justiça é a do pré-primário: “Se fizer de novo, vai ficar de castigo”. O Código Penal caiu em desuso, agora vale o Código da Conivência.

Alguma dúvida de que um surto legalista do TSE aguarda o PT?

Inferno Brasil


Eles chegaram, cuspindo no chão, chutando o cachorro, mijando no muro, surrando as mulheres, arrotando alto, pisando na grama, esmurrando a porta, contando mentiras, prometendo bater, matar, estuprar. Transformando nossas vidas num inferno.

Ela se encantaram com tamanha grossura, pintaram a boca, se enfeitaram de verde e amarelo, e saíram em campanha, sonhando com o dia de serem elas as surradas, chutadas, xingadas. Nos convencendo que de idiotas está cheio o inferno.

E o que prometeram, eles cumpriram. Passaram o trator no jardim, na cultura, na ciência, nas artes, no ensino, na saúde, nos índios, nos pretos. Em vez de empregos, distribuíram armas. Em vez de vacinas, venenos. Cloroquina, em vez de comida. Poeira, em vez de florestas. Pavimentando seus próprios caminhos ao inferno.

Terra devastada, inferno.

Quando o sabiá não canta. Chora.

Foi forte. Foi emocionante. Foi necessário.

O programa Estação Sabiá, de Regina Zappa, na TV 247, fez Chico Buarque chorar. Não por motivo sentimental, não pelas memórias sufocadas, mas pelo prenúncio dos momentos terríveis, horrorosos, que estão sendo preparados para o Brasil por Jair Bolsonaro, o presidente das 500 mil mortes.

Esse horror tem nome: Ditadura. Quem viveu, como nós, sabe.

A Família Angel Jones

Em 05 de junho de 2021

Por Hildegard Angel

Norman Angel Jones com os filhos, Ana Cristina (2 anos), Hildegard Beatriz (1 ano) e Stuart Edgar (5 anos), no quintal de casa.

Hoje é o centenário de minha mãe, Zuzu Angel, que alinhavou, costurou e vestiu com seus carinhos essa família linda. Meu pai, Norman, meus irmãos, Stuart e Ana Cristina, e eu, caçula, no balanço. Ainda voltaremos a viver juntos e felizes novamente pela eternidade. Meus pais se separaram com 20 anos de casados. Meu irmão foi arrancado de nós pela ditadura. Minha irmã deixou o Brasil aos 20 anos. Mas em nossas memórias, dela e minha, prevalece este momento da foto, que nessa semana de tantas lembranças ela me enviou.
#zuzu100anos